Um festival de música eletrônica na Costa Rica quer que você viva melhor

Durante quatro dias, o Envision convidou ravers a fazer cocô no mato, comer comida vegana e pensar em um mundo mais sustentável.
9.3.16
Jack Pasco Photography

São 5:30 da manhã em Uvita, Costa Rica, e depois de uma noite dançando tech-house, um amigo e eu passamos pela paisagem quente e úmida da floresta, cheia de terra e pedras no caminho até nosso acampamento. Lá, encontramos uma mulher olhando nervosamente para a entrada de sua tenda, tendo sido acordada por um caranguejo caminhando por seu corpo.

Após dar quatro passos para trás, recomendo que balancemos a tenda de forma a expulsar a criatura, mas a mulher protesta — ela não quer assustar o crustáceo ou gerar qualquer "energia negativa" diante da situação, que crê ter sido causada pelo destino. Decidindo então que três horas de sono eram o suficiente para aquela noite, ela bota um colete de pele muito doido e entra na tenda determinada a resgatar um item essencial: seu tambor cerimonial. Ela some noite a dentro, deixando a tenda aberta — pensamento que contemplo enquanto me afasto para dormir, ouvindo os ruídos causados pelos bugios nas árvores acima de mim.

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Chamar o Envision de "festival de música" não faz jus ao que acontece ali de verdade. Claro, o evento — que que aconteceu na Costa Rica entre os dias 25 e 28 de fevereiro — conta com centenas de shows musicais que tocam de tudo, da world music ao dubstep, espalhados por diversos palcos. Mas, assim como o Burning Man, é um local em que um público internacional composto por gente coberta de piercings, tatuagens e os ocasionais hippies peladões podem viver sua própria ideia de uma sociedade idílica – neste caso, uma ideia que gira em torno de variados estilos de vida alternativos, incluindo veganismo, ioga, xamanismo e até mesmo bruxaria.

Como outros eventos "transcendentais", o Envision se dá em torno de uma autoconfiança quase que obrigatória. No território do festival — uma combinação de palcos, acampamentos, templos de ioga e fogueiras cerimoniais — há uma rígida proibição do uso de descartáveis, plástico ou qualquer material que não seja biodegradável naturalmente. Todo o lixo orgânico passa por compostagem, o que contribui para um cheirinho constante de frutas, vegetais e cocos em decomposição. O mesmo vale para qualquer detrito humano: quando você vai ao banheiro, você faz suas "necessidades" em um buracão no chão, então aquilo vai se decompondo com o tempo e volta à natureza. Durante as refeições, que se davam no setor "Village", um centro multifuncional com barracas de comida, redes e vários espaços públicos, não se encontram pratos ou copos plásticos. Em vez disso, os frequentadores valiam-se de um sistema de aluguel de pratos, no qual você devolve os utensílios após o uso. Água engarrafada também não é vendida em canto algum.

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A locação do Envision em meio à selva — um rancho a três hora da capital da Costa Rica, San José — é igualmente implacável. Ao passo em que se trata de um lugar pitoresco, cheio de árvores, morros verdes e uma praia nas proximidades (cujo acesso era restrito este ano das 07:30 às 17:30, por conta da forte correnteza), a temperatura variava entre 32 graus durante o dia e "frios" 26 graus pela noite. Ainda, coexistir com as muitas vezes brutais complexidades da natureza parecia fazer parte da alma do evento, mais até do que a própria música.

Enquanto a localização do Envision é responsável por grande parte de seu clima único, o festival tem recebido oposição ferrenha da comunidade raver ao longo dos anos, o que culminou em um protesto neste ano. Uma matéria do jornal de San José, The Tico Times, deu conta de um protesto pacífico organizado pela comunidade do local onde aconteceu o festival, em que os moradores levavam consigo cartazes com os dizeres "No Mas Envision", ou "Stop Envision", ao som do hino nacional costa-riquenho, caminhando até os portões do Envision. De acordo com a matéria, os organizadores do festival teriam oferecido comida e água aos manifestantes, que alegadamente recusaram. "Não há nada a ser negociado; eles estão tentando nos comprar", declarou ao jornal a moradora Ester Vindas. "Princípios não têm preço".

De acordo com a matéria do The Tico Times, os manifestantes se opunham ao uso de drogas e nudez no evento, preocupados com sua influência na juventude local. Além disso, durante o show do headliner da noite de sábado, Beats Antique, o frontman David Satori pegou o microfone para avisar que a música seria pausada momentaneamente por estar muito alta — sugerindo que alguém havia feito uma reclamação às autoridades.

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Como uma série de protestos ao longo do final de semana em que o festival aconteceu, deve-se considerar se o Envision, com toda sua ênfase na sustentabilidade para a comunidade local, não acaba sendo prejudicial para aqueles que tenta proteger. Um dos fundadores do Envision, Justin Brothers, também citado no Tico Times, sugere o oposto — falando sobre os esforços da Casa Envision, uma escola na cidade de Uvida que o festival ajudou a reconstruir e reformar, de forma a se tornar um centro para juventude. Alguns dos nativos citados na matéria também deram seu apoio ao trabalho do Envision, citando o dinheiro que o evento traz para a cidade turística de Uvita.

Stephen Brooks, outro dos fundadores do Envision, disse ao THUMP que os protestos estão sendo liderados por um grupo evangélico radical de Uvita. "Não importa o que você faça, quando algo cresce fica impossível agradar a todos", disse ele por e-mail. "Tentamos nos encontrar com [o grupo religioso] em diversas ocasiões antes do festival para ouvir suas preocupações para ver o que poderíamos fazer para que eles se sentissem mais à vontade com os objetivos do Envision para a região. Eles toparam e cancelaram em cima da hora".

Durante uma palestra, Stephen Brooks, que nasceu em Miami e hoje mora na Costa Rica, enfatizou ainda mais a missão altruísta do evento. Ao descrever a criação do Envision, Brooks relembrou uma situação específica em que viu um grupo de crianças da região, que brincava em um playground, receber uma dose de um fungicida tóxico de um pulverizador agrícola durante férias na Costa Rica, o que lhe incutiu um sentimento angustiante de como os ocidentais não ligam para a comunidade.

"[A pulverização agrícola] ocorre para que nossas bananas nos EUA não tenham nenhuma marca", disse Brooks. "Vamos pensar nisso um instante", continuou, deixando no ar um longo e incômodo silêncio. Para tais fins, além de dar uma força na economia local, pode-se dizer que o Envision faz um esforço consciente para proteger a região dos possíveis efeitos negativos de sua própria presença, com seu foco na minimização de resíduos e preservação da água, uma raridade em climas de selva.

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Muitas das outras palestras que vi ao longo do final de semana mostravam um olhar igualmente crítico à sociedade ocidental, incluindo teorias da conspiração sobre o governo norte-americano ("O governo é falso", ouvi) e outra sobre os perigos ligados à acidificação da água do mar. Com seu público lotado de "estudantes", o Envision em diversos momentos parecia uma universidade psicodélica bizarrona — as pessoas pareciam sempre estar falando sobre algo muito profundo. Ouvi a experiência de uma mulher com um retiro de ioga, xamanismo e permacultura enquanto estava sentado num banquinho que ela mesma havia feito. Durante a cerimônia do fogo das cinco da manhã, um cara me explicou a intenção por trás do formato da fogueira — um coração — e sua linhagem na cultura nativa norte-americana, enquanto um trio de amigos se apegou aos meus braços e chorou de boinha. Um homem conhecido apenas como Murmur me mostrou sua coleção de pingentes de madeira cortados a laser, que ele planejava trocar pelas histórias de outras pessoas.

Em uma isolada Vila das Crianças em que os pequeninos trazidos por seus pais prafrentex faziam seus próprios exercícios em grupo, parecia que até mesmo a molecada no Envision estava ali para expandir sua consciência. Algumas das crianças que vi por ali trocavam piadas sujas e borrifos de alguma emulsão por colones (a moeda de Costa Rica), bem como ajudavam os frequentadores a se alimentar, como um jovenzinho chamado Cody que se metia a instruir meu grupo a como cortar uma jaca às sete da manhã na frutaria do Envision, enquanto segurava uma canequinha.

Já no tocante à saúde, o Vilarejo do Envision contava com um Santuário de Cura das Bruxas, em que podiam ser adquiridos elixires poderosos e participar em oficinas sobre os benefícios à saúde da pimenta caiena. Banquinhas de comida natural e vegana vendiam de tudo, desde ceviche fresco a picolés de couve e citronela, informando animadamente os frequentadores sobre seus benefícios; frequentadores estes que participavam de oficinas dadas por especialistas em saúde, toxicologistas, herboristas, coaches de vida certificados e uma série de curandeiros, professores e ecologistas. Aulas de ioga rolavam praticamente 24h, indo de suadíssimas aulas de vinyasa a cursos de dança espiritual, até mesmo ioga de casais, em que as pessoas juntavam seus corpos em busca de energia conectiva.

Considerando o alto custo da viagem à Costa Rica, esperava que o festival fosse dominado por jovens riquinhos. No lugar deles, destacaram-se turistas pé-no-chão, ao menos pra mim; muitas das pessoas com quem falei eram nômades, rodando o globo e vivendo em comunidades alternativas, muitas vezes vendendo maconha pra pagar as contas. Cerca de 400 dos presentes eram voluntários, em troca de uma entrada grátis. (Infelizmente, alguns dos mais azarados, junto com alguns compradores, acabariam vítimas do infame "bicho da selva", a versão costa-riquenha da Vingança de Montezuma).

O foco da Envision no alternativo e inesperado transpareceu na música do festival, com diversos artistas interrompendo as batidas para compartilhar mensagens inspiradoras. O rapper e DJ de Oakland Lafa Taylo parou a música para liderar um exercício de respiração em massa, e a banda de bluegrass de Colorado, Elephant Revival, falou sobre a importância de limpar o oceano antes de tocar uma canção sobre o tema; a artista local Guadalupe Urbina, por sua vez, valeu-se de uma bela canção acústica para falar para o público sobre os benefícios espirituais de se consumir comida multicultural. Dito isso, no apagar das luzes, o Envision virava uma festa dos diabos – quase dando a ideia de quem as pessoas recompensavam-se pelos seus dias conscientes com hedonismo sem limites.

Muita da música era adequadamente psicodélica, com graves pulsantes, cantos tribais, cítaras e instrumentação ao vivo que deixava tudo viajandão e dançável. Do lado mais cabeçudo da coisa, o britânico pioneiro do psytrance Shpongle tocou às 3:30 da manhã no Saturday Luna Stage em meio a dançarinas do fogo e enormes instalações de pintura ao vivo. O Lapa Stage era a rave do Envision, com tech-house praiano de nomes com Lee Reynolds do Desert Hearts mantendo a galera agitando até o nascer do sol no sábado; durante o set do titã alemão do techno M.A.N.D.Y. na sexta, a participação de um dos infames caranguejos no meio do público fez a galera se dividir como o mar na Bíblia.

Mas o palco Luna com seu formato de borboleta — com erupções decorativas de fogo, vindas de trás de sua estrutura alucinógena — abrigaria o momento mais tocante do Envision: o set de nascer do sol de Random Rab, preparando o cenário para um abraço em grupo suadão, cheio de cecê e chororô, sem contar o mano do meu lado tocando flauta.

Aquele momento libertador pareceu merecido. Em comparação com a exuberância de diversos festivais pelo mundo, nada no Envision parecia simples. Chegar lá era difícil, é quente demais e você tem que lidar com bichos do mato invadindo sua tenda (em determinado momento lá, até ouvi boatos de gente brincando de cabo de guerra com um macaco por um colchonete). Fazer um festival no meio da selva também tem uma série de dificuldades técnicas; quedas de energia eram comuns por conta do parco fornecimento, interrompendo a atividade dos palcos por alguns momentos. No meu acampamento, problemas com encanamento fizeram com que os chuveiros fossem desligados por longos períodos.

Mas no Envision, tudo que você sofre acaba recompensando. Nunca encontrei tanta gente dedicada ao bem-estar dos outros e criar um mundo menos pior; esbarre em alguém aqui e pode esperar um abraço. Aprendi como fazer deliciosos chocolatinhos em uma cerimônia espiritual e observei embasbacado um grupo de mulheres batucando, dançando e cantando canções dedicadas à Mãe Terra durante uma cerimônia do fogo. Na selva, até mesmo descobri que hambúrgueres vegetarianos podem ser gostosos.

Após adentrar em um ambiente tão de outro mundo, a ideia de voltar para casa, para o mundo "normal" é um horror. De forma a me ajudar a lidar com isso, um instrutor de yoga de Trinidad & Tobago acalmou minha mente, pedindo aos alunos que não voltassem à sociedade amargos com aqueles que não passaram por algo tão incrível. No lugar disso, explicou, os frequentadores deveriam honrar sua experiência ao encontrar maneiras de fazer com que outros entrassem na tribo. Este espírito acolhedor está no cerne da visão gentil de mundo Envision, que ecoa com o mantra nativo de Costa Rica: Pura Vida. Ou "vida pura", fazendo refer6encia a uma vida que valorize os pequenos tesouros do mundo – como ter uma boa conversa ou dançar com quem se ama, ou comer uma fatia de fruta fresca às 7 da manhã.

David Garber vive aquela Pura Vida no Twitter.

Fotos por Jack Pasco Photography

Tradução: Thiago "Índio" Silva

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