FYI.

This story is over 5 years old.

Como os cubanos produzem música eletrônica com acesso restrito à internet?

O alto custo e a complicação de se ficar online em Cuba forçam a emergente cena de dance music do país a ser bem criativa para compôr e divulgar seus sons.
Jude Goergen

Matéria original do THUMP US.

DJs têm motivo de sobra para serem criaturas noturnas; o horário nobre da discotecagem é às 3 da madrugada, sessões no estúdio até altas horas, mistura de fuso horário, passar a noite no SoundCloud enquanto a insônia não passa… Mas o Insnay Rodriguez tem um motivo um tanto quanto atípico para passar a noite em claro: acesso à internet confiável. O Rodriguez, que grava e se apresenta como DJ Jigüe, mora em Cuba, um país onde a internet é disponibilizada para apenas 30% da população. Até poucos anos atrás, uma pessoa comum simplesmente não conseguiria ter acesso à internet.

Publicidade

Assim como nós, o Rodriguez também está atrás de seu ganha-pão. Ele comanda o primeiro selo independente de hip hop em Cuba, o Guampara Music, além de estar planejando sua turnê como DJ e atacar de produtor audiovisual para cineastas que estão de passagem pelo país; a internet é essencial para sua carreira, principalmente por ser o elo de comunicação entre ele e o mundo afora. E é por isso que por volta das quatro da manhã ele costuma ir para o parque com seu laptop e aproveitar que, durante a madrugada, pouquíssimos usuários estão online sugando a escassa internet cubana que nos leva de volta aos tempos da internet discada dos anos 90.

Não existem conexões de internet privadas em Cuba, mas os cabos de fibra ótica que estão traçando os caminhos das conexões de banda larga no mundo estão finalmente chegando à ilha, então chegou a hora do governo liberar o acesso. Já estão trabalhando para a implantação de links residenciais muito em breve. Já as principais cidades do páis contam com wi-fi em inúmeros espaços públicos. Enquanto os cubanos ainda não desfrutam do prazer de andar pelas ruas grudados em seus smartphones assim como a maioria das pessoas no mundo, eles se amontoam nos hotspots da cidade munidos de seus laptops e tablets. Quando fui para Santiago em maio deste ano, parques do século passado com chafarizes ornamentados e estátuas representando pessoas que já morreram montadas em cavalos servem de cenário para um panorama do século 21: locais conversando com seus familiares via Skype, fazendo streaming no YouTube e publicações no Facebook.

Publicidade

Mas estar conectado tem um preço alto. Os usuários devem adquirir cartões WiFi com um PIN rasurado da empresa nacional de telecomunicações, a ETECSA, e assim como diversos outros itens básicos em Cuba, a escassez é uma regra e não exceção. Revendedores autorizados como hotéis e distribuidores estatais frequentemente ficam sem o produto em estoque, então os correrias que vendem os tais chips 'Nauta', como são chamados, ficam urubuzando dia e noite a praça central de Santiago, um dos principais hotspots da cidade.

Will "Quantic" Holland gravando em um pequeno estúdio em Santiago com o cantor local Diógenes y su Changüí (Crédito: Reeve Rixon)

Para obter tal privilégio, os usuários chegam a pagar até dois dólares por hora; em um país em que a média salarial é de 25 dólares por mês, o gasto com internet pode ser consideravelmente alto. No entanto, pesquisas recentes sugerem que a maioria dos cubanos faz uma grana extra por debaixo dos panos, inclusive DJs. Shows entram na categoria alegal ou extra-legal, ou seja, não são contra a lei e também não são explicitamente permitidas em uma economia socialista em que empresas privadas são fortemente regulamentadas.

O mundo inteiro sabe o que Cuba tem ou não tem. — Paula Fernandez do Pauza

"A internet é uma plataforma essencial", Rodriguez me fala em sua cidade natal, Santiago, onde nos encontramos antes da estreia do Manana Festival. "E nós não estamos conectados a ela".

A proliferação global de computadores para uso pessoal, softwares e o acesso à internet levou à uma democratização em massa da produção musical — jovens no mundo inteiro passaram a criar batidas em seus quartos — mas isso não aconteceu em Cuba, onde todos esses ingredientes têm uma oferta limitada e são difíceis de serem adquiridos, dado que a renda média per capita do país em 2015 foi de aproximadamente US$26 por mês, de acordo com o Escritório Nacional de Estatísticas de Cuba. Logo, os poucos que tentam seguir uma carreira na música eletrônica precisam de paciência e perseverança. Como me conta Paula Fernandez, integrante da dupla Pauza, de Havana, em um desabafo, "O mundo inteiro sabe o que Cuba tem ou não tem". Ela está cansada de ser tratada com pena, um sentimento que acompanha as perguntas sobre a vida na ilha, mas reconhece que as respostas são a sua realidade.

Publicidade

Crédito: Jude Goergen

Navegando por Nauta

Wichy de Vedado, um músico de Havana com 16 anos de carreira, me conta que usa seu precioso tempo de internet no Soulseek, uma rede de troca de arquivos peer-to-peer. Fernandez, da dupla Pauza, diz que costuma zuar muito no site Beatport. Mas em última análise, o custo e a inconveniência para acessar a internet fazem com que os DJs e produtores fiquem extremamente limitados quanto a forma como utilizam a rede, uma ferramenta que se tornou essencial para as comunidades de dance music por todo o mundo.

Por exemplo, se você faz música eletrônica em Cuba, não conte com a internet para divulgar suas festas. Na pequena mas agitada comunidade de dance music de Havana, flyers e pôsteres à moda antiga ainda reinam e, na melhor das hipóteses, pode ser feita uma divulgação em um esquema meio "spam", mandando várias mensagens para a galera. Mas a maioria das pessoas ainda depende do boca a boca. Durante o Manana, o empresário de Rodriguez distribuiu alguns flyers e enviou mensagens de texto para divulgar um show de última hora do Guampara antes do festival.

Somos virgens em termos de informação. — Armando Qintana do Rezak.

O acesso limitado à internet também atrapalha o processo criativo. O acervo musical do mundo inteiro simplesmente não é facilmente acessado pelos cubanos. Como Oliver Ortiz, integrante da dupla de tech-house Rezak me disse, "somos virgens em termos de informação". Seu parceiro, Armando Qintana, elabora: "A falta de informação é o grande desafio". Eles têm uma vaga noção da produção fervilhante de techno em Berlim, por exemplo, mas acompanhar as idas e vindas da cena no exterior é quase impossível.

Publicidade

Iván Grajalo e Julio Cesar Jimenez fazem batidas juntos sob o pseudônimo Electro Palestina. Grajalo, que é professor durante o dia, tem a sorte de ter acesso à internet na sua universidade — mas isso não significa que a qualidade dela em seu escritório seja muito melhor. "Faço download de vídeos do YouTube porque não posso fazer streaming", ele reclama. "Ser fã de música eletrônica em Cuba é como ser marinheiro no Paraguai [um país sem acesso ao mar]".

Plaid, artistas do selo Warp, no estúdio com Santiago Obbatuké durante o Manana, um festival de música eletrônica cubana que estimulou a colaboração entre artistas locais e internacionais. Foto por Reeve Rixon

Enquanto a preferência da dupla tende para o dubstep britânico, como Burial, Benga e Skream, Grajalo, de 39 anos, confessa utilizar sua limitada franquia de dados atualmente para fazer o download de clipes de artistas como Milli Vanilli, Ace of Base e outros que ele não conseguia assistir quando era adolescente nos anos 90. Livros são consideravelmente mais acessíveis, e recentemente eles leram uma cópia pirata da versão em ebook de Pink Noises: Women on Electronic Music and Sound.

"Algo interessante sobre a internet em Cuba é como estamos desconectados dela", Grajalo explica. "Não é uma questão de ter ou não ter acesso, é que não sabemos sequer o quê procurar".

As pequenas preciosidades digitais que eles conseguem escavar nas interwebs são compartilhadas em seu pequeno, porém dedicado, círculo de entusiastas de música eletrônica no leste de Cuba, ironicamente apelidado de Departamento Oriental de Emulación Electrónica, uma paródia da preferência do governo local por uma nomenclatura burocrática, que utiliza "emulación" como um eufemismo para "competição" (um termo proibido para socialistas).

Publicidade

Normalmente, uma pessoa faz o download de um arquivo mp3, de vídeo ou software desbloqueado, que então circula pelo grupo em um pen drive. É o mesmo método utilizado pelo El Paquete Semanal, um sistema de distribuição digital direto que engloba toda a ilha, a partir de Havana, e entrega um terabyte de uma seleção de filmes de Hollywood, novelas latinas e clipes cintilantes para uma audiência sedenta e disposta à pagar o preço. O governo faz vista grossa para o empreendimento comercial, que alguns comparam à uma internet alternativa.

El Paquete é a melhor maneira de uma música viralizar em Cuba, mas todos os produtores eletrônicos com quem conversei — até veteranos como DJ Jigüe e Wichy de Vedado — ainda não haviam penetrado nessa máfia da mídia underground. Ao invés disso, o reggaeton domina as ondas de rádio offline, que circulam em pen drives em vez de através de uma transmissão online. Isso significa que os cubanos só conseguem ter acesso à música eletrônica local em shows ao vivo e não têm a oportunidade de escutá-la em casa, o que dificulta a formação de um público dedicado.

Dj Jiguüe em Santiago de Cuba. Foto por Jude Goergen

Problemas de Hardware

O hardware é mais um obstáculo e a compra de computadores foi legalizada somente em 2008, com preços completamente fora do alcance da maioria da população. Mas os laptops vem penetrando lentamente no país através do mercado negro desde o início da década de 2000. Médicos, o maior produto de exportação de Cuba, têm permissão para trazer ao país um computador quando voltam de suas missões no exterior, e estes normalmente vão parar no mercado negro. A recente flexibilização das restrições para viagens aos Estados Unidos serviu para acelerar as importações.

Rodriguez se lembra de seu primeiro computador, adquirido em 2008, depois se mudar para Havana. "Era só a torre", ele se recorda. "Sem monitor, sem teclado, sem mouse". Enquanto DJ da dupla de hip-hop mais famosa do país, Obsesión, ele teve a chance de viajar para o exterior e comprar seu próprio equipamento. Ainda assim, ele continua a negociar trocas de equipamento de som em vez de pagar em dinheiro enquanto continua aperfeiçoando seu estúdio caseiro peça por peça.

Publicidade

Não existem grandes redes de lojas de instrumentos musicais em Cuba, então todo equipamento deve necessariamente vir do exterior. O produtor de House Roberto Puig sonha com placas de som, interfaces e controladores Midi. Ele afirma ser o dono de um dos cinco pares de toca-discos Technics MK 1200 existentes em todo o país. Puig é um sujeito de sorte. "Não sabemos como tocar com controladores porque não os temos", Cesar Jimenez do Electro Palestina confessa. "Tudo é feito no Virtual DJ ou no Traktor; nunca fomos além do laptop".

"Não sabemos como tocar com controladores porque não os temos" — Cesar Jimenez, do Electro Palestina

No campo da educação musical, entretanto, Cuba construiu uma boa reputação com conservatórios administrados pelo Estado e apoio institucional à conjuntos musicais. O governo possui até mesmo um órgão dedicado à recrutar artistas de hip hop talentosos, a Agência Cubana de Rap. Fernandez e Zahira Sanchez da dupla Pauza tiveram a sorte de contar com o único recurso público de apoio à música eletrônica: o Laboratório Nacional de Eletroacústica. Apesar de ter sido fundado em 1979 pelo compositor avant-garde Juan Blanco a fim de incentivar a composição eletroacústica entre os músicos eruditos de Cuba, recentemente o LNME abriu suas portas para a produção de música direcionada para as pistas de dança, além de oferecer o primeiro curso de DJ do país dirigido especificamente às mulheres, onde o Pauza deu seus primeiros passos. Elas aproveitaram a oportunidade para trabalharem no seu set ao vivo, um dos únicos no país, e gravar seu disco de estréia no único estúdio do laboratório. Sem poder assistir a tutoriais no YouTube em casa, a capacidade de lidar com a complexidade do equipamento do estúdio — e até mesmo ter acesso à ele — é essencial para trilhar uma carreira na música eletrônica.

Mas a pequena cabine do estúdio do LNME não oferece o batismo de fogo de uma plateia lotada. Em última instância, a infra-estrutura limitada de Cuba se traduz no único espaço onde os locais podem escutar música eletrônica: a balada. Os sistemas de som são, na melhor das hipóteses, improvisados — O Festival Manana trouxe 30 mil dólares em equipamentos para complementar o que havia disponível em Santiago — e os DJs lamentam que tenham que levar seu próprio equipamento para se apresentar até mesmo em palcos mais sofisticados, porque as casas noturnas não estão preparadas para eles, mas sim para os conjuntos musicais que representam a maior parte da produção musical de Cuba.

A Casa Micaela, uma casa noturna e restaurante popular no centro histórico de Santiago, é um bom exemplo disso. Após a cozinha fechar, o porão se abre, igual no dia que rolou o show improvisado do Guampara um dia antes do Manana. Ela contava com todos os acessórios de uma boa casa noturna — ar condicionado, bar bem equipado, segurança e recepção. Mas poucas horas antes do show o empresário de DJ Jigüe me contou que eles ainda estavam à procura de CDJs por Santiago. Ainda assim, se há um quesito no qual a música eletrônica cubana se destaca, é a perseverança. Após encontrarem um CDJ de um amigo em comum que funcionava somente com pen drives, e não CDs de verdade, Jigüe se adaptou em cima da hora e tocou diretamente de seu laptop. Na hora do show, os mojitos fluíam, a pista estava lotada e o DJ Jigüe estava apresentando as faixas do Guampara para uma das primeiras plateias estrangeiras de Santiago, com um grande sorriso de orelha a orelha.

Tradução: Stefania Cannone

Siga o THUMP nas redes Facebook // Soundcloud // Twitter.