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Onde Foi Parar a "Música Avançada" do Sónar Barcelona?

Há mais de dez anos na ativa, o festival que se tornou referência global da música de vanguarda vem colocando no seu lineup um ethos mais pop. Pra quê?

Essa semana é imensa para a música eletrônica, com Electric Daisy Carnival incendiando em Las Vegas, e o Sónar voltando a sua cidade natal, Barcelona. Mas enquanto O EDC se espalhou por nove estados nos EUA e foi além das fronteiras, chegando ao México e Reino Unido, o festival não se compara ao Sónar, cujo passaporte é muito mais carimbado. O festival dedicado à música e novas mídias virou global há mais de uma década, se expandindo para 50 cidades, de Roma a Reykjavík, Seúl a São Paulo. Mas enquanto o Sónar cresceu exponencialmente, ele também sofre para manter seu ethos experimental.

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Leia: Cobertura do Sónar 2014

No começo dos anos noventa, a pequena cena de música eletrônica em Barcelona era balcanizada. O industrial comandava alguns pequenos clubes. Tipos acadêmicos eletroacústicos se escondiam em suas torres de marfim fazendo estranhos sons à la IRCAM, o instituto parisiense de pesquisa de música nova. O acid house estava explodindo em Ibiza — apenas uma viagem de balsa de distância — mas fez menos barulho no continente que fez em outra ilha, a Grã-Bretanha.

"A cena era isolada e não conectada", diz Enric Palau, o músico, artista visual e cofundador do Sónar. "O que nós fizemos foi conectar tudo para [o festival] ser bem aberto e democrático para convidar todas essas comunidades a participar, curtir e descobrir".

Carrinhos de bate-bate noSónar by Night

O primeiro Sónar aconteceu em junho de 1994. O festival de três dias, encabeçado por tipos como Laurent Garnier e Sven Väth, se dividiu em uma porção diúrna e outra noturna — uma tradição preservada até hoje. A primeira edição do festival também incluía a Record Fair e Technology Fair, um precursor do SonarPro. Gat, Guillem e Glória, os chefes do selo G33G baseado em Barcelona, se lembram de como foi a inauguração do festival. "Nosso grupo foi o primeiro a tocar na primeira noite do primeiro Sónar. A primeira feira no Centro Barcelona de Cultura Contemporânea foi um encontro de selos independentes, basicamente de toda a Espanha. E lá estávamos nós, ajudando a montar as mesas". Palau e o colega cofundador do Sónar, Sergi Caballero, mais tarde contribuiram com o primeiro disco do RAEO, uma das sementes plantadas durante a primeira edição do Sónar.

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Um workshop no Sónar+D (Foto via Consuelo Bautista/Sónar)

O estilo Do It Yourself do Sónar atraíu seis mil pessoas em 1994. Hoje, esse número inflou para mais de 100 mil visitantes que vão caminhar entre dois ambientes gigantes — Fira Montjuïc expo center durante o dia e Fira Gran Via L'Hospitalet convention center à noite — junto com demonstração de equipamentos no SonarPro, novas tecnologias no Sónar+D, exibições de filmes no SonarCinema e a arte multimidia no SonarMàtica.

O crescimento explosivo do festival nesses dez anos não seria possível sem sérios apoiadores da cidade. Antes de descolar esses ambientes monstruosos espaço no qual o festival rola hoje, os organizadores se juntaram a instituições culturais para trazer a música eletrônica a museus e salas de concerto, prenunciando eventos como o PS1 Warm Up do MoMA.

A herança musical brasileira é incrível mas é muito conservadora. É conhecida mundialmente, mas estamos falando de tropicália e bossa nova. Para músicos experimentais e eletrônicos não é um lugar fácil

"O Sónar é em essência um fenômeno urbano que inovou ao aparecer no centro de Barcelona quando a tendência dos festivais era ir para o interior ou para a praia", diz Mateus Hernandez, CEO da Barcelona Global e ex-assessor da prefeitura local. "É difícil entender a atração global de Barcelona sem o Sónar", conclui.

Sónar Copenhagen (Foto via Frederik Kastrupsen/Sónar)

Depois de sua transição de festival pequeno para mega evento entre 1997 a 2001, a primeira edição internacional do Sónar foi em 2002, no Royal Festival Hall, em Londres. O Reino Unido foi uma escolha lógica, dado as hordas de britânicos que invadiam a plateia do festival que agora se divide ao meio entre espanhóis e estrangeiros. Desde que a armada do Sónar aterrisou em costas britânicas, seu império conseguiu se fincar no restante da Europa, nas Américas e também na Asia. "Com o passar dos anos, nós estamos indo onde a cena musical já era forte, interessante e especial", Palau diz. "Lugares como São Paulo, Tóquio e Reykjavík". Para aqueles que estão fazendo as contas em casa, as aparições do Sónar nos EUA incluem Boston, Chicago, Washington, Denver, Los Angeles, Nova York e Oakland.

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Mas é a sul da fronteira onde o Sónar enxerga seu El Dorado. "A América do Sul é um lugar muito interessante para o Sónar", Palau diz. "A herança musical brasileira é incrível mas é muito conservadora. É conhecida mundialmente, mas estamos falando de tropicália e bossa nova. Para músicos experimentais e eletrônicos não é um lugar fácil".

Esse ano o festival está fazendo uma grande entrada no continente, uma Reconquista de vanguarda, com eventos marcados em novembro para Bogotá, Buenos Aires, Santiago e São Paulo. A primeira e única edição do Sónar em São Paulo aconteceu em 2012 e volta agora depois do cancelamento da edição de 2013 "graças à instabilidade no mercado de entretenimento brasileiro" de acordo com um release da época.

"Estamos presenciando a chegada de grandes festivais no Brasil, mas o Sónar é diferente", diz Duda Magalhães, CEO da Dream Factory, a companhia que produz o festival na capital paulista. "Ele tem um público interessado, disposto a tentar novas experiências artísticas e até mesmo prover conteúdo para o festival em si".

O público com óculos 3D no show do Kraftwerk no Sónar São Paulo

O bando conquistador do Sónar também está empolgado em erguer pela primeira vez a bandeira do festival em Santiago, no solo nativo de Ricardo Villalobos e Nicolas Jaar. "O Chile é mais voltado para o rock, mas a cena é bem conectada com Berlim", diz Pelau. "Bogotá é uma das novas capitais da América do Sul passando por um tipo de liberdade para um país que tem sofrido".

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Todos os impérios no entanto precisam se preocupar quando tentam abraçar o mundo, e Palau é rápido em apontar: "Não é uma franquia, não é como se tivessemos aberto uma loja em um lugar e vendido a licença para fazer o evento". O quartel general do Sónar continua envolvido na marcação dos eventos e faz questão que o visual e a tecnologia, agora componentes centrais do conceito do festival, estejam lado a lado. "Nós damos especial atenção à cena local e checamos com parceiros sobre o que apresentar no que concerne aos artistas locais", diz ele.

A metamorfose do Sónar em uma marca global também deixou antigos chegados na beira da estrada. "Faz anos que não participamos do Sónar porque ele virou uma vítima de seu próprio sucesso", diz a equipe da gravadora G33G. As atrações principais desse anos como o Chemical Brothers, Skrillex e Duran Duran estão bem longe dos selos independentes que povoavam os primeiros anos de festival trocando discos obscuros no começo dos anos noventa.

DJ /rupture (Jace Clayton), que se apresentou no Sónar junto com a Orquestra Sinfônica de Barcelona e sua banda Nettle nos anos 2000, se lembra como a energia do festival corria pelas veias da cidade durante todo junho. Ele tocava para plateias apertadas em um pequeno evento paralelo chamado Wrong Festival e até fazia uma festa de entrada no La Makabra squat, a espinha dorsal da comunidade anarquista da cidade.

Apesar de ser cortês com o festival, Clayton é ambivalente sobre a cidade que moldou sua imagem. "Como organizadores e curadores, o time do Sónar tinha uma visão presciente", ele diz. Mas a realidade da vida artística local é mais complicada. "A reputação de música eletrônica de Barcelona é baseada em estrangeiros vindos ao Sónar e de forma otimista afirmando que por causa do festival de alto padrão, as coisas estão bombando aqui o resto do ano, o que nunca é verdade", diz ele. "No resto do ano, tem pouquíssima infraestrutura e redes de apoio para música estranha; é o oposto de um lugar como Nova York, com incontáveis casas de show menores, onde nunca houve um festival de música que durasse".

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Skrillex no Sónar Reykjavík

Apenas um pequeno mas forte grupo de artistas chama Barcelona de seu lar e esperamos que mais se juntem a eles. "O desafio agora é para Barcelona ser como o Sónar o ano todo, para que o talento de vanguarda que ouve o chamado do Sónar uma vez por ano veja a cidade como uma oportunidade para desenvolver seu talento tecnológico e criativo", diz Hernandez.

Com música experimental no vocabulário dos grandes negócios, o set do Sónar agora é decididamente mainstream. Mas enquanto o festival alcança o ápice do apelo do crossover apresentando uma atração principal como Skrillex, seus três dias de programação ainda apresentam muitos talentos catalãos e espanhóis. Mais ainda, a maré política está mudando em Barcelona. Uma nova prefeita chamada Ada Colau, que veio do movimento de protesto anti-austeridade "Indignados", tomou a cadeira na semana passada. Já foi pedido a ela tornar a cidade mais habitável para os nativos através de iniciativas como diminuir o fluxo de turistas todo verão, o que entra em comflito com os dezenas de milhares de estrangeiros vindos ao Sónar todo ano. Enquanto Barcelona procura reaver sua própria identidade, talvez essa seja a chance do Sónar fazer o mesmo.

Greg Scruggs é um escritor freelancer de música, cultura e cidades, com um foco na América latina e o Caribe. Siga ele no Twitter.

Tradução: Pedro Moreira