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Helena Hauff, a Musa do Techno Punk Analógico, Está pra Lançar seu Primeiro Disco

A crueza da produtora alemã marca seu debut em ‘Discreet Desires’.
17.9.15
Katja Ruge

São quatro da tarde em Hamburgo, na Alemanha, e Helena Hauff acabou de acordar com uma leve ressaca depois de ter passado a noite jogando sinuca. Com seu álbum de estreia Discreet Desires pronto para ser lançado coletivamente pelas gravadoras Actress's Werkdiscs e Ninja Tune no outono europeu, a DJ e produtora alemã está se preparando para o importante acontecimento fazendo o exato oposto do que muitos outros fariam se estivessem em seu lugar — depois de ter passado o verão fazendo uma extensa turnê, Helena está planejando tirar férias em setembro e continuar trabalhando em mais músicas.

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"Pra falar a verdade, eu nunca penso, Já que vou lançar disco em breve, preciso começar a planejar as coisas e fazer turnês", Hauff comenta. "Não realmente acho que isso faz diferença e também não entendo não querer lançar discos durante o verão. Não entendo e nem consigo me encaixar nesses padrões focados exclusivamente na indústria".

A crueza da Helena e sua abordagem levemente punk na música ficam claras na grande presença de hardware ao longo de todo o Discreet Desires. Suas dez faixas exploram a eletrônica sombria do interior através de uma paleta relativamente limitada de sintetizadores vintage da Roland e também drum machines: uma TR-808, TR-707, Juno-60 e uma Alpha Juno 2. Helena falou ao THUMP sobre a sua relação simbólica com esses instrumentos. "Tenho a sensação de que é uma relação mais direta — você faz algo e, logo em seguida, a máquina reage. Ela também tem mente própria, então sempre dá algo em retorno".

Ouça a faixa "Tryst", do Discreet Desires:

Gravado e improvisado no seu quarto — que ela usa como estúdio em Hamburgo — o Discreet Desires tem uma paleta sônica crua, melhor resumida pela crença da Helena de que "a perfeição é bem entediante [e] nem sequer existe… apenas na morte. A morte é perfeita". Depois, ela descreveu o som totalmente coeso do álbum usando uma foto que serviu como fonte de inspiração, uma imagem de figuras em preto e branco com os olhos meio abertos e meio fechados, com uma vibe parecida com a da capa do disco. "Esta imagem evocou um estado de espírito que eu queria transpor em um disco lá no fim de 2013", ela se recorda. "Na época, eu não estava pensando em fazer um álbum. Apenas criei a faixa 'Sworn To Secrecy Part II' que tinha a ver com a atmosfera que eu tinha em mente. Então criei algumas outras faixas usando aquela foto como referência e pouco depois percebi que aquilo era mais do que apenas um EP — estava se tornando, conceitualmente falando, em um álbum".

Arte do disco 'Discreet Desires'

Desde os sussurros sinistros e os bips eletrônicos da faixa "Sworn To Secrecy Part II" até os ataques frenéticos de percussão e as modulações propulsoras da animada "L'Homme Mort", o Discreet Desires se inspira muito na EBM, industrial e em influências de proto-acid house e techno. "Tenho trabalhado com esses sons no álbum desde a época que eu só discotecava esse tipo de música", Hauff explica. "Sintetizadores dos anos 80 e faixas de EBM são uma grande inspiração para mim, mas amo ouvir industrial dos anos 90, acid techno e eletrônica. Também ouço muito psych e acid rock".

Apesar de já ter lançado um número considerável de singles, EPs e até mesmo uma fita que infelizmente não foi tão bem recebida, Helena deixa bem claro que tocar discos é sua atividade criativa favorita. "Não tenho a menor vontade de fazer um show ao vivo, nem mesmo das minhas próprias produções", ela diz. "Meu único projeto ao vivo é com o Hypnobeat [a drum machine oitentista do James Dean Brown recém revitalizada], que dá tão certo justamente por ser tudo improvisado no palco. Temos três TR-808 e uma TR-707, o que cria uma pegada puramente rítmica. Da mesma forma como quando faço minha própria música, não preciso tentar lembrar quaisquer melodias ou praticar tanto. Apenas faço uma jam".

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Tendo crescido em Hamburgo, o fascínio da Helena pela discotecagem surgiu pouco depois de ter começado a frequentar clubes. "No início, fiquei fascinada pela arte de tocar em cima de qualquer som específico", relembra. "Meus primeiros sets eram mais voltados para house do que hoje em dia, mas também tinham esse quê de acid techno e música mais pesada também. De primeira, era mais atraída por faixas de eletrônica da AUX 88 e Drexciya, e não sacava que faixas de house de 115 BPM tinham a mesma pegada que as de eletrônica de 135BPM… depois descobri que eu só precisava tocar mais techno! [risos]"

A transição da Helena da discotecagem para a produção veio depois de diversas tentativas frustradas com software de gravação que a deixaram desanimada com o processo. "Há alguns anos, cheguei num ponto no qual eu sabia que precisava encontrar um jeito de fazer música", ela diz. "Não conseguia entender por que eu não era capaz e sabia que havia algum jeito de fazer aquilo dar certo. Eu tinha um amigo que tinha alguns sintetizadores, pelos quais me apaixonei imediatamente, e acabei comprando seu TB-303. Comprei uma MPC logo depois, e me ocorreu que tudo o que eu precisava eram drum machines. E foi isso… Não consegui mais parar".

Helena me conta de forma empolgada como o lançamento do Discreet Desires permite que ela finalmente fique na ativa com novas músicas ao mesmo tempo que discoteca e comanda a sua nova label, a Return to Disorder, cujo primeiro lançamento, da banda de psych rock Children Of Leir, também está programado para o início de setembro. "Acabei de organizar todo meu equipamento no meu novo apartamento e quero me dedicar a isso agora. Precisava tirar esse LP da minha frente, e acabou levando um ano entre ficar pronto e o seu lançamento de fato. Em parte me sinto como se não fosse capaz de fazer nenhuma música por um tempo, já que o processo demorou tanto, mas ao mesmo tempo acho que é só uma desculpa para me permitir ser muito preguiçosa". "E provavelmente é isso", ela conclui, "mas agora que o lançamento está próximo me sinto realmente pronta para trabalhar em um material novo".

Zara Wladawsky é compositora, co-criadora do festival Sustain-Release e exímia consumidora de house e techno na Halcyon. Você deveria segui-la no Twitter.

Tradução: Stefania Cannone