Como a Meditação me Ajudou a Sobreviver 19 Anos na Prisão

Como a Meditação me Ajudou a Sobreviver 19 Anos na Prisão

Fui condenado à morte por um crime que não cometi. Sem saída, precisei encontrar uma maneira de alterar a energia do lugar.
30 November 2015, 6:23pm

Sou mágico.

Não tiro coelhos de cartolas, não serro mulheres atraentes ao meio, nem visto smoking. Pratico mágicka, com um a letra K no meio para diferenciá-la do ilusionismo, e fui condenado à morte, anos atrás, por causa disso.

Meu nome é Damien Echols e, em 1993, fui preso por três acusações de assassinato na cidade de West Memphis, Arkansas, nos Estados Unidos. Nove meses depois, fui condenado à morte e passei quase 19 anos na cadeia até ser solto em 2011, quando novas evidências vieram à tona.

A prisão é um lugar obscuro e tomado pela energia mais fria e horrenda que você pode imaginar. É como se um chorume psíquico penetrasse a alma.

A mágicka, em grande parte, trata de aprender a alterar estados de consciência de modo arbitrário. Aprendi a usar meditação como escudo. Ela me protegeu da energia infernal da prisão e impediu que eu ficasse como as pessoas ao redor — pessoas que desistiram de serem humanas.

Esta é uma história sobre como mantive minha sanidade.

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Eu me apaixonei por mágicka quando soube de sua existência. Em torno dos doze anos de idade, descobri a Ordem Hermética da Aurora Dourada e minha vida mudou para sempre. Era uma ordem de mágicos cerimoniais que viveram na segunda metade do século XIX, na Inglaterra, e incluía luminares como W.B. Yeats, Aleister Crowley e Pamela Coleman Smith, que pintou a obra conhecida hoje como o baralho de tarô Rider-Waite.

Crowley foi quem definiu a grafia de "mágicka" com K. Também foi um dos grandes motivos que me levou à sentença de morte.

Em 1993, quando três garotos de oito anos de idade foram encontrados mortos na minha pequena cidade, a atenção imediatamente se voltou para mim. Por quê? Eu era o esquisitão da comunidade. Vestia-me todo de preto, tinha cabelo grande e escutava heavy metal. Como se isso não bastasse para me tornar suspeito em uma cidade pequena e fundamentalista, eu, no auge do pânico satânico, também praticava mágicka. As provas mais fortes apresentadas contra mim no tribunal foram a minha paixão por Crowley e a minha coleção de romances do Stephen King.

Na época em que fui solto, eu passava quase oito horas por dia meditando e fazendo rituais

Se quiser saber mais do caso, você pode assistir aos episódios da série documental Paradise Lost sobre a história, ou West of Memphis, documentário que eu mesmo coproduzi. Você também pode ler o meu livro, Life After Death [Vida Após a Morte]. Estão todos na internet.

Meu interesse em mágicka pode ter contribuído para a sentença, mas também foi, em grande parte, o que me ajudou a sobreviver duas décadas no sistema carcerário americano.

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Durante um longo período do encarceramento — quase nove anos —, fiquei em uma unidade de segurança máxima, onde permaneci 24 horas por dia em uma solitária.

O regime de prisão solitária é como viver em um vácuo onde confortos não existem. Você passa todos os momentos sozinho, sem nada para distrai-lo do horror da situação, sem contato com nada e ninguém que possa lhe oferecer um vislumbre de esperança. O tempo pára; não há nada que marque a passagem do tempo. Meio-dia e meia-noite são a mesma coisa. Natal e Dia da Independência são a mesma coisa. Tudo que resta é ficar parado à espera da visita de um guarda para surrá-lo.

Foi nesse momento que decidi dedicar todo e qualquer momento da minha vida a um mergulho mais aprofundado no reino da mágicka.

Eu me correspondi com diversos professores, inclusive um sacerdote de um templo zen japonês que viajou do Japão à prisão, em Arkansas, para me ordenar na tradição Rinzai Zen do budismo japonês, a mesma tradição utilizada para treinar os antigos samurais.

O zen ensina paciência, força de vontade e autocontrole. Você fica um tempão sentado numa posição chamada "seiza", isto é, ajoelhado. Isso permite com que você desenvolva um certo descolamento, que o ajuda a enxergar os pensamentos e emoções de um ponto de vista observador, em vez de ser arrastado por eles. Você aprende a anular desconfortos físicos, ansiedade e emoções pantanosas. Sentado na posição seiza, percebi que a minha mente corria em círculos desde que nasci, como um cachorro atrás do próprio rabo.

Os aprendizados do zen parecem simples, mas são muito mais difíceis do que parecem.

Na época que me soltaram, eu passava quase oito horas por dia meditando e fazendo rituais.

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Às vezes, os carcereiros entravam na cela de madrugada, antes do sol nascer, me algemavam às grades e se revezavam para me bater. Eu apanhava tanto que mijava sangue.

Não havia escapatória física, claro. Não tinha para onde ir, nem mesmo depois da surra acabar. Permaneci anos na solitária, uma caixa de concreto onde o ar vivia saturado de ódio e miséria. O trauma foi tamanho que, anos depois, ainda luto contra isso.

Sem saída, precisei encontrar uma maneira de alterar a energia do lugar. Eu não tinha as ferramentas e acessórios que as pessoas costumam usar, como salva, maços de ervas ou incenso. Nada além de força de vontade e energia.

Meu desejo pessoal era não apanhar mais dos guardas ou não destruírem os bens que me restavam, como fotos de família

Coloquei essas forças em prática ao realizar, incessantemente, um exercício que os mágicos chamam de Ritual Menor do Pentagrama. Envolve práticas de respiração e visualização de energia direta. Você cria uma espécie de espaço sacro. Afasta a energia à espreita da área. É como esterelizar a energia de um lugar.

Além disso, o exercício é uma introdução básica ao trabalho com inteligências, que chamamos de Anjos. Depois de limpar o espaço, você convoca os arcanjos dos quatro elementos (terra, ar, fogo e água) para estabilizar qualquer energia que adentra o local e o torna mais harmonioso com um desejo pessoal.

Meu desejo pessoal era não apanhar mais dos guardas e não destruírem os bens que me restavam, como fotos de família. Pratiquei o ritual sem parar. Incuti-o tão profundamente na minha psiquê que se tornou um reflexo. Agora, anos depois, consigo praticá-lo sem sequer me levantar da cadeira.

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Os mágickos acreditam que não é apenas o mundo de concreto, mundano e banal, que nos cerca. Para nós, a realidade se assemelha a uma cebola, camada atrás de camada, sempre sobrepostas pela próxima camada.

Considere os pensamentos. Sabemos que os temos, mas não dá para mostrá-los a alguém. Não dá para medir quanto pesa um pensamento, sentir que cheiro tem. O mesmo se aplica às emoções: amor e ódio são imensuráveis, mas só uma pessoa louca diria que não existem. Emoções, pensamentos — isso existe numa parte muito etérea da realidade. Já no outro lado do espectro, temos os nossos corpos, carros, prédios, bolsas Gucci e pizza Domino's — essas coisas existem em um nível da realidade muito mais denso e concreto.

O que separa as práticas da Mágicka ocidental das formas orientais de meditação é a meta máxima. Técnicas orientais, como aquelas praticadas por taoístas e budistas, buscam libertar o indivíduo do mundo ou permitem com que ele transcenda e escape.

O mágico, por outro lado, não busca escapar do mundo. Procura dominá-lo. Ele visa moldar a substância da realidade por meio da pura força de vontade até que crie um paraíso na Terra e não haja mais necessidade de escapar.

Os mágicos também acreditam na presença de inteligências que residem em planos mais sutis da realidade.

Diferentes culturas apresentam uma variedade de nomes para essas inteligências, de deuses a espíritos e anjos. "Anjo" é o termo que eu, particularmente, mais gosto, e essas inteligências tendem a se comportar de uma maneira que reflete os rótulos de pensamento que atribuímos a elas.

Convoquei as inteligências — os Anjos — para alcançar a minha meta máxima, a liberação da sentença de morte por um crime que não cometi.

Todo dia eu me concentrava para adentrar um estado alterado. Transportava a consciência para o aspecto da realidade em que as inteligências angelicais aguardam. Chamava o máximo delas para perto de mim.

O mágico não busca escapar do mundo. Procura dominá-lo.

No começo, era difícil lidar com quatro anjos ao mesmo tempo (já tentou visualizar quatro coisas de uma só vez? É como pastorear gatos!), mas à medida que minha força e concentração aumentaram, parti de quatro para mais de duzentos.

Eu sentia uma explosão de adrenalina, mas era mais do que isso. Sentia que estava embebido em espírito puro. Eu estava morrendo lentamente por conta da alimentação terrível, estresse paralisante e falta de luz solar e contato humano, além de diversos traumas físicos. Meu cabelo começou a cair, minha visão piorava cada vez mais e eu sentia dores constantes, de um tipo ou de outro. O contato com esse espírito puro me inundou de vitalidade e alegria. De repente, eu estava mais vivo do que estivera em anos.

A cada dia, eu abarcava as duzentas inteligências na minha esfera de influência e as programava com um pensamento prioritário: "Que me libertem da prisão. Que eu possa viver em casa, feliz ao lado da Lorri (minha esposa). Que isso se realize sem prejudicar ninguém e beneficie todos." Então, eu os liberava para o trabalho que havia programado. Em um ano, saí do corredor da morte.

A complicação da mágicka é que, às vezes, conseguimos o que pedimos. Em retrospecto, creio que deveria ter formulado o meu programa com mais cuidado. Não pedi um novo julgamento. Não pedi para mudarem o veredito. Não pedi para o assassino de fato ser pego. Pedi apenas para estar em casa e para acabarem com a minha tortura de 18 anos. Foi o que ganhei.

Depois dos testes mostrarem que o DNA da cena do crime não batia com o meu, o promotor me ofereceu um acordo. Chama petição de Alford. Significa que você aceita o veredito de culpa, mas pode continuar a alegar inocência. Não faz o menor sentido, mas o Estado nunca dá a mínima para sentido. O Estado só não quer saber de se responsabilizar pelas próprias besteiras. E é isso que a petição de Alford confere aos promotores — uma maneira de sair de finininho, sem admitir que cometeram erros e sem arcar com processos. Sobrevivi e pude e voltar para casa.

Hoje moro em Nova York e pretendo chamar esta cidade de casa até morrer. Ainda pratico mágicka todos os dias numa escala menor do que os anos de cadeia. Agora fico de pé na plataforma de metrô, fecho os olhos e peço à inteligência que reside na linha C um assento vago para ir para casa com um pouco mais de conforto.

Damien Echols é artista e mágicko, e mora na cidade de Nova York. Ele passou quase 19 anos na cadeia, condenado à morte por um crime que não cometeu. Encontre-o no Twitter e no Instagram: @damienechols.

Tradução: Stephanie Fernandes