​Os bastidores do novo clipe em realidade virtual do Run the Jewels
Crédito: Divulgação/ Run the Jewels

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​Os bastidores do novo clipe em realidade virtual do Run the Jewels

Um papo com os rappers, o diretor e a equipe responsável pelo vídeo imersivo de "Crown" – uma das melhores obras feitas com a tecnologia.
5.4.16

Batemos um papo com os rappers, o diretor e a equipe responsável pelo vídeo imersivo de "Crown", uma das melhores obras já feitas com a tecnologia RV

Os rappers americanos Killer Mike e El-P, do grupo Run the Jewels, não são os primeiros músicos a brincar com realidade virtual, mas o clipe em RV que lançaram em março para "Crown" traz um feito incomum: não é apenas perfumaria ou, digamos, pirotecnia. O formato imersivo passa, de fato, melhor a mensagem e a emoção da música do que um clipe tradicional – em 2D ou, vá, em 360 graus – faria.

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O Run the Jewels deu acesso exclusivo ao Motherboard a um vídeo de bastidores sobre o processo de filmagem em que Killer Mike e El-P explicam por que sentiram que a realidade virtual seria a escolha certa para uma de suas canções mais pessoais.

A música acompanha duas narrativas: uma história real do passado de Killer Mike sobre a culpa que sentiu depois de vender drogas para uma mulher grávida e a mensagem política de El-P sobre como os jovens sofrem lavagem cerebral para entrarem no exército.

Cenas de bastidores. Crédito: Divulgação

A dupla narrativa faz com que o uso da câmera em 360 graus seja uma escolha natural. O clipe, que pode ser assistido no aplicativo de RV do New York Times, faz você se sentir como se estivesse cercado pelos personagens; ao olhar para os lados, você pode alternar entre as histórias dos dois rappers.

O vídeo foi feito para parecer que você está muito próximo dos rappers e atores com quem interagem; ao mesmo tempo, é possível ver os corpos por inteiro, algo que não seria possível com uma filmagem tradicional. A proximidade faz com que tudo pareça mais pessoal.

"Sentimos que a plataforma de realidade de virtual era uma forma de ajudar a estimular a empatia – bem como fazer algo visualmente bacana", afirmou um dos agentes do Run the Jewels, Amaechi Uzoigwe, durante conversa no South By Southwest, o conjunto de festivais de música, tecnologia cinema que rolou no mês passado, em Austin, no Texas.

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Na ocasião, passei no estande da gravadora no festival para dar uma conferida no clipe. O conteúdo estava sendo demonstrado junto de visualizadores do Google Cardboard temáticos do Run the Jewels que devem ser lançados em breve. Segundo os caras que entrevistei, os rappers planejam novos clipes com a tecnologia para seu novo disco, Run the Jewels 3, tudo a ser lançado em seu app "VRTJ". O grupo também participará do "Virtual Reality Experience" do Coachella em abril, nos Estados Unidos.

Foto tirada pelo redator do Motherboard, Jason Koebler

"A RV parece ser o futuro dos clipes pra mim por razões óbvias", disse El-P via email. "Você pode não só contar uma história de forma única em um meio que pede por uma evolução há tempos, mas também é possível criar uma ligação com o espectador de uma forma que simplesmente não era possível antes. Não há como superar a sensação de estar no mesmo ambiente que o personagem daquilo que você está assistindo. Abre um leque enorme de possibilidades."

"Porém, para falar a verdade, estou empolgado mesmo para me masturbar em cybertron", comentou.

Talvez seja uma boa hora para dar jeito em parte da confusão em torno do termo "RV", que em meio a todo o hype se perdeu de seu significado original. Puristas dirão que a verdadeira realidade virtual é um ambiente em que você pode se mover, em que o espectador controla a cena. Isso é possibilitado por sensores de movimentos em headsets de ponta como o Oculus Rift e o HTC Vive. Eles permitem que o mundo renderizado digitalmente se adapte aos seus movimentos; em outras palavras, enganam seu cérebro para você pensar que está mesmo lá.

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Isso (ainda) não é possível com vídeos: as câmeras 360° não conseguem capturar os dados necessários para dar ao espectador as incontáveis perspectivas da filmagem para nteragir com a cena. Ainda assim, a próspera indústria cinematográfica em RV passou a usar o termo "realidade virtual" para se referir a qualquer coisa que você assista com aqueles headsets ou óculos. Para complicar ainda mais, muita das coisas aí que se dizem RV não passam de vídeos em 360°, sem qualquer imersão: você pode ver a cena toda ao seu redor, mas ainda assim está assistindo em uma tela plana no YouTube ou Facebook.

Então "Crown" não é realidade virtual no sentido mais puro da coisa, nem como os primeiros clipes que experimentaram com isso, como "Stonemilker" da Björk ou "The Hills" do The Weeknd com Eminem. Mas Uzoigwe me disse que a dupla está feliz com o resultado. "Acho que nosso clipe consegue isso até ponto – fazer você sentir como se estivesse lá", comentou. "Vídeos em 360 não te fazem sentir parte daquilo, e essa é a diferença pra mim."

Ele admitiu que "Crown" foi uma primeira tentativa, "relativamente rudimentar" em termos do que é possível fazer. "Em seis meses assistiremos esse vídeo e pensaremos que foi bonitinho, saca? E com sorte já estaremos viajando em alguma outra parada"", pontuou.

Um dos benefícios da RV para a narrativa é que você pode assistir ou ouvir a história diversas vezes e ter uma experiência única em cada uma delas. É como aqueles esquemas "escolha-sua-aventura". Você pode acompanhar Killer Mike uma vez e El-P na outra. Assim, percebe mais detalhes a cada reassistida.

"Não acho que teria como contar essa história num clipe comum"

'Não acho que teria como contar essa história nas 'planinhas', como chamamos agora – num clipe comum", disse ao telefone o diretor do clipe, Peter Martin.

"Planinhas", ele disse, é uma piada interna da indústria para vídeos 2D retangulares comuns. Pelo visto, um editor do New York Times usou o termo uma vez e meio que pegou mesmo. Quando perguntei a Martin como se escrevia, ele disse" "Não acho que alguém já tenha escrito a palavra! Mas a adoro e acho que devemos usá-la – emputecer todos os cinematógrafos do mundo".

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Outra vantagem da RV sobre as planinhas é a capacidade de ver atrás de si, para cima e para baixo, e por todos os lados. A maioria dos vídeos em RV comete o erro de só mostrar o fundo periférico mesmo que não tenha nenhum propósito na narrativa – só "tendo um monte de parada atrás de você que nem precisa", disse Martin. Ele foi na contramão: usou um fundo preto e deu um clima meio sinistrão para uma música já meio arrepiante.

"Minha primeira experiência com RV foi com uma baleia em tamanho real olhando nos meus olhos no fundo do oceano – foi foda! Desde então não consigo deixar de pensar no que a tecnologia pode fazer pelas crianças do ponto de vista educacional e também em prol da imaginação de gente que não pode se dar ao luxo de viajar ou cultivar sua curiosidade. Ver pirâmides em tamanho real não é o mesmo que uma foto na internet ou em um livro", disse Killer Mike por email.

"O mesmo vale para a possibilidade de colocar alguém em meio de um clipe e não apenas deixar a pessoa assistí-lo no Worldstar. A capacidade de criar um mundo para nossa música é bem empolgante."

Martin disse ainda que o processo de filmagem de "Crown" foi muito mais simples que a maioria dos vídeos em RV. Eles não usaram câmeras 360º (o motivo é óbvio ao assistir o clipe, já que há diversas versões diferentes dos mesmos atores em vários ângulos). Em vez disso, tudo foi filmado quatro vezes com uma câmera RED monoscópica; cada ângulo observado é um take diferente. Depois, todas as perspectivas foram montadas em uma esfera durante a pós-produção. O processo difere de como vídeos esféricos costumam ser captados – geralmente com uma câmera em movimento ou equipamento com várias câmeras em direções diferentes.

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A produção usou lentes olhos de peixe para capturar uma área maior. O efeito é a impressão de que você está bem na cara do ator, disse Anthony Batt, co-fundador da Wevr, empresa de RV que produziu o clipe. Tais lentes conseguem capturar a cabeça do ator até as pernas mesmo bem próximo. As imagens brutas, direto da câmera, parecem distorcidas, com todo mundo meio gorducho no meio, mas isso é consertado na pós-produção quando o material é montado como uma esfera.

A filmagem em si levou apenas alguns dias, mas foram necessários meses para editar o vídeo. "[O grupo] meio que não sabia como ficaria no final. Eles foram corajosos", declarou Batt. "Eles meio que colocaram sua reputação e música em risco fazendo isso".

Uzoigwe admitiu que não sabia bem o que fazer com essa nova tecnologia, mas o interesse e a curiosidade eram maiores do que as dúvidas. "Sabe como é, somos crias dos anos 80 – crescemos pensando que realidade virtual, carros voadores e jetpacks eram nosso futuro", disse.

Em termos de música, ainda estamos bem no comecinho da RV. Como qualquer novo meio, é preciso um tempo para sair do fator kitsch e se tornar um formato artístico legítimo. Quando os clipes surgiram, as bandas só se gravavam tocando no palco. Foi preciso um minuto antes que alguém se ligasse que não precisava mostrar os artistas ou instrumentos; poderiam ser muito mais criativos.

Uzoigwe prevê que algo semelhante acontecerá com a RV em vídeos – os artistas começarão a conceituar a narrativa com a realidade virtual em mente desde o início, ou para ir mais além, entrarão em um ambiente virtual e criarão de dentro dele. É algo fadado a acontecer, afirmou: alguém um dia criará algo que subirá mesmo o nível e todos terão que acompanhar.

Quer dizer, isso se o hype da indústria – voltado só pra ganhar grana – não mate qualquer criatividade. "Porque, você sabe, a indústria vai cagar tudo e querer ganhar grana logo e não dar uma chance de desenvolver", disse. "Só espero que não vire tudo uma fábrica furreca de RV escrota."

Tradução: Thiago "Índio" Silva