Ok, ninguém aguenta mais ouvir falar de selfies, mas esqueça por alguns segundos os perfis de Neymar e Kim Kardashian no Instagram e dê uma olhada no retrato espontâneo desse guepardo.Altos graus de fofice, né? Agora se liga nesse babuíno:
Duas palavras: bebê zebra.
Essas selfies fazem parte de um enorme arquivo de imagens capturadas durante o maior estudo com armadilhas fotográficas da história.No linguajar dos biólogos, armadilhas fotográficas se referem aos disparos das câmeras ativadas por sensores de movimento e calor que tiram fotos de animais selvagens. Embora estudos do tipo costumem usar entre 20 ou 30 câmeras, um grupo de mestrandos da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, espalhou mais de 225 câmeras ao longo dos 1.000 km ² do Parque Nacional do Serengeti, na Tanzânia. O estudo, recém-publicado na Scientific Data, conta com mais de um milhão de fotos reunidas em três anos.
Publicidade
A publicação desse material marca a conclusão do maior estudo com câmeras remotas da história. "Em muitos casos, os pesquisadores que instalam armadilhas fotográficas estão interessados em estudar uma, duas ou três espécies, ou estudar a população de uma área específica", disse Margaret Kosmala, uma pós-doutoranda de Harvard que participou do projeto. "Em nosso estudo, o objetivo era compreender a dinâmica entre todos os animais de médio e grande porte desse sistema. No total, haviam uns 40 deles."
Para estudar uma variedade tão grande de espécies, Kosmala e seus colegas precisaram conduzir um estudo muito mais aprofundado do que o normal. Após alguns anos de pesquisa, a equipe havia juntado mais de 1,2 milhões de imagens, um número de dados impossível de avaliar. Foi aí que o público deu uma ajudinha.A solução foi levar o projeto ao Zooniverse, uma plataforma de ciência cidadã que disponibilizou todas as imagens do estudo na internet. O projeto ganhou o nome de Snapshot Serengeti.Em seguida, os voluntários foram incentivados a olhar as imagens e marcar todos os animais que pudessem identificar. Cada imagem passou por pelo menos dez pessoas, e as marcações de cada foto foram então inseridas em um algoritmo.
O programa do Snapshot Serengeti ajuda qualquer um a identificar animais. "É um algoritmo simples que avalia qual espécie foi mais identificada em cada foto", disse Kosmala. "Para testá-lo, classificamos 4.000 imagens e comparamos com as respostas dadas pelo algoritmo. As classificações dos voluntários estavam corretas em 97% dos casos."
Publicidade
O algoritmo não foi a única coisa que deu certo; o projeto fez muito mais sucesso do que esperado. Os pesquisadores esperavam reunir cerca de 200 voluntários para classificar as fotos, mas mais de 28.000 pessoas participaram do projeto. Segundo Kosmala, os voluntários catalogaram um ano e meio de fotos em apenas dez dias. Das 1,2 milhões de fotos, 322.653 continham animais.
Todos concordam que essas fotos são fofíssimas, mas qual seria o uso prático de 300.000 selfies de girafas, leões e leopardos? Kosmala explicou que sua equipe está usando esses dados para responder algumas dúvidas sobre a fauna do Serengeti. O objetivo original do estudo era descobrir como diferentes carnívoros compartilham o mesmo habitat. Leões, leopardos, guepardos e hienas são animais muito ferozes e nenhum deles gosta muito de dividir — então como eles conseguem viver na mesma área?Agora que eles têm fotos de mais de 40 espécies, Kosmala afirma que a equipe pretende estudar muitas outras questões, como, por exemplo, a interação entre herbívoros."Existem 20 espécies de animais herbívoros nessa área e nós queremos responder uma questão muito parecida: 'como eles conseguem dividir o mesmo espaço?'", disse Kosmala. "Eles precisam encontrar o melhor tipo de comida e, ao mesmo tempo, fugir dos predadores. Para um predador, o ideal seria ficar próximo à melhor grama do parque porque é lá que os herbívoros ficam, certo? Pensando nisso, como os herbívoros avaliam esse risco? É esse tipo de pergunta que queremos responder."Os ecologistas ainda tem um longo trabalho pela frente. Enquanto isso, vou passar mais algumas horas olhando para essas selfies.
Tradução: Ananda Pieratti
