A cerveja canadiana feita com água de glaciares
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Munchies

A cerveja canadiana feita com água de glaciares

"Mais ninguém está a fazer isto. Só nós", diz o especialista cervejeiro Les Perry. "Somos os únicos com acesso a icebergues".
17.6.16

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma MUNCHIES.

Vi um iceberg pela primeira vez poucas horas depois de chegar a Newfoundland. Normalmente estas coisas não funcionam assim: quando estás a trabalhar numa história que se baseia em veres uma coisa que pode eventualmente não estar lá, o mais normal é teres de esperar dias a fio, enquanto desesperas e rezas a todos os santinhos para que não tenhas viajado em vão.

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Mas não foi o caso desta vez. A zona de Iceberg Alley, como são conhecidas as águas entre Labrador e Newfoundland, no Canadá, estava apinhada de icebergues. E daqueles verdadeiramente enormes. À distância, parecem do tamanho de um navio de cruzeiro e mais brilhantes e brancos do que imaginava. Tentei visualizar os outros 90 por cento da sua massa de água submersa.

Todas as fotos pelo autor.

"Tens que os respeitar imenso; podem afundar-te e podem matar-te. Um grupo de pessoas afogou-se aqui ainda há poucos anos. Tentaram sacar um bocado de um para meterem nas suas bebidas e ao tirarem uma pequena lasca ele rodou e não tiveram hipótese". Não queres ouvir uma história destas no momento em que o barco onde segues se aproxima da beira de um icebergue gigante e observas a forma perfeita como a sua face visível e de um azul cobalto inacreditável parece flutuar sobre a água salgada. Mas Ed Kean, o único explorador comercial de icebergues do Canadá, sabe o que está a fazer.

Todos os anos, durante aproximadamente as seis semanas que dura a época, Ed procura icebergues e, depois, com o seu barco especializado, dirige-se a eles para colher gelo com entre 10 a 20 mil anos e que demora de três a quatro anos a flutuar desde o glaciar Petermann, na Gronelândia, até à Costa Este canadiana. Este gelo, formado muito antes da Revolução industrial, é a água mais pura da Terra e é o que a Quidi Vidi Brewery, sediada em Newfoundland, utiliza para fazer a sua Iceberg Beer. Encontrei-me com Ed e a sua equipa em Random Island (nome curioso) num domingo solarengo de Maio. A pouco mais de 15 minutos da Costa, era visível um icebergue enorme; alto e espalmado no topo, era do comprimento de um campo de futebol e da altura de um bloco de apartamentos. O barco e restante equipamento da equipa de Ed pareciam minúsculos ao seu lado.

Tive algumas dificuldades em subir a bordo através de uma escada de ferro que abanava de forma alarmante e batia contra a parte lateral da embarcação. Uma vez a bordo, aproximei-me da proa de forma a poder acompanhar a tripulação em acção. O barulho era impressionante; parecia uma sinfonia de martelos pneumáticos enquanto um fumo negro saía da garra hidráulica à medida que esta perfurava o gelo e o retirava para dentro de um recipiente onde era pulverizado e enviado para os grandes tanques da barcaça que complementava o barco. Uma espécie de cascata de água torrencial saltava do icebergue; Ed explicou-me que um icebergue perde cerca de 100 toneladas de água por hora só devido ao degelo provocado pela água salgada. Um spray de água espalhava-se de forma cinemática, levando à formação de arco-íris à medida que o vento assolava as colinas que protegiam a baía.

Este é um trabalho duro. As águas do mar à volta do barco começam a transformar-se por via dos milhares de bocadinhos de gelo espalhados pela tripulação na limpeza do convés. É uma visão hipnótica, o icebergue a brilhar ao sol enquanto a garra entra em acção e saca uma "colherada" de gelo que se mantém durante uns segundos a sobrevoar o recipiente antes de este receber a preciosa carga. Assim que a maquinaria se desligou consegui ouvir o gelo a chiar e a suspirar.

Foi um bom dia de colheita. "O vento estava perfeito, o icebergue no local perfeito, a altura certa fora de água e não temos sal no gelo", regozijou-se Ed. "Não sabemos se terá sido alguém que apareceu e nos trouxe boa sorte", disse, com um piscar de olho na minha direcção, "ou se foram os deuses do gelo que decidiram dar-nos uma ajuda".

De volta a terra firme, depois de uma viagem de carro em pleno lusco-fusco e a desviar-me de alces na estrada, dirigi-me à vila de Quidi Vidi, uma comunidade piscatória histórica com ar de postal perfeito, localizada a poucos minutos de St. John. É um bocadinho cliché, mas não há outra maneira de o descrever: a cervejeira está aninhada num ambiente de paz, no sopé de uma colina verdejante. Não podia ser mais pitoresco o lar da cerveja mais original do Canadá.

"Mais ninguém está a fazer isto. Só nós", diz o especialista cervejeiro Les Perry. "Somos os únicos com acesso a icebergues. Seria difícil agarrar um, derretê-lo e colocá-lo num camião - os custos de uma operação dessas seriam irreais!". É a pureza da água do icebergue que faz com que seja tão procurada. Tem menos de oito partes por milhão de impurezas; para contextualizar, digamos que no Canadá o mínimo encontrado na água normal de torneira é de 150 partes por milhão.

Les conduz-me numa visita guiada à pequena fábrica de cerveja, enquanto o lote mais recente é engarrafado nos seus recipientes de cor azul. Quando fizeram a mudança do vidro transparente que usavam para este azul, anteciparam que era provável que os clientes guardassem uma ou duas garrafas depois de as beberem. No entanto, as suas estimativas acabaram por se revelar bastante baixas dada a actual popularidade que as garrafas azul cobalto têm hoje em dia.

"Tivemos que fazer um apelo nos noticiários", ri-se Les. "Chegámos a um ponto em que tínhamos os reservatórios cheios e não tínhamos garrafas para meter a cerveja". Uma política de retorno em que ofereciam 20 cêntimos por garrafa surtiu efeito até porque os locais começaram também a aperceber-se que não haver garrafas significava não haver cerveja. "Já vi de tudo feito com as nossas garrafas", salienta Les. E acrescenta: "Há quem corte o gargalo para fazer vasos. Houve um gajo que as parte aos bocados, mete os bocados num saco e os pendura na varanda como decoração, porque aquele tipoi de azul e o efeito que dá é muito raro".

A pureza da água de icebergue incorpora-se na perfeição com uma lager tipicamente norte-maericana e o seu clássico sabor limpo e refrescante. A Quidi Vidi faz a fermentação com um malte originário de Calgary.

Les louva os benefícios da pureza da água: "A água deveria saber sempre como esta. Pode ter até cerca de 25 mil anos de idade. Faz parte de um bloco de gelo maior de onde se soltou. Quando chega a Newfoundland já diminuiu de tamanho, por isso ficamos mais perto do seu núcleo, constituído há centenas de anos, muito antes de existirem elementos de contaminação no Planeta".

Mais tarde, enquanto fotografava as garrafas na doca de madeira no exterior da fábrica, a luz do Sol projectou uma sombra azulada no chão, a mesma luz que tinha visto antes a "dançar" no coração do icebergue de onde se tinha feito a colheita do dia. Não me consegui conter: levei uma garrafa de volta para casa, em Vancouver, e tenho-a agora pousada no beiral da janela. O seu brilho azul vai lembrar-me sempre dos gigantes brancos de Newfoundland.

Nikki Bayley foi convidado pelo Newfoundland & Labrador Tourism e pela agência Destination Canada. Nenhuma das entidades teve qualquer tipo de interferência nesta história antes da sua publicação.


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