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música

Discos: Marina Fages

A madeira e o metal simbolizam as componentes de algumas destas canções.

Miguel Arsénio


Madera Metal
Nature Bliss

6/10

Um pouco como acontecia com a Joanna Newsom dos primeiros discos, ninguém vai recomendar a escuta de Marina Fages sem juntar a isso um aviso como “Dá-lhe um tempo para te habituares à voz”. Aviso por acaso necessário, visto que o álbum de Marina Fages, Madera Metal, marcha bem e não provoca estranheza de maior, excepto nos momentos em que a folker argentina canta como se tivesse sete anos e estivesse a contar o que leu nos livros do Petzi. Mas os sete anos de Marina Fages já ficaram lá atrás e agora a artista argentina começa a ver o seu nome a ser badalado aqui e ali como um dos mais excitantes vindos da América do Sul. É natural que assim seja, visto que Marina Fages associa à sua música um excepcional trabalho plástico, que está amplamente documentado nas muitas ilustrações incluídas em Madera Metal (edição graficamente fabulosa por acaso). Além disso, a rapariga é extremamente bonita e muito apetecível. Neste seu disco, as canções andam muito à volta de um reino fantasioso (com o colorido de Miyazaki), em que os animais comportam-se como pessoas e até as plantas são capazes de pensar.

Olhando para o título, a madeira e o metal simbolizam porventura as componentes igualmente básicas de algumas destas canções, que muitas vezes não precisam de mais que uma guitarra e um charango (instrumento de dez cordas sul-americano) para adquirirem forma. Quando as composições de Marina Fages passam a ser mais elaboradas e ganham a elegância dos instrumentos de sopro, Madera Metal deixa o seu aspecto de teatro para crianças e fica mais próximo da música para cinema de Gustavo Santaolalla (no fundo, o Santo das bandas-sonoras dos dramas duros de Iñárritu). Mas essa melancolia das paisagens desérticas de Santaolalla está no sangue dos sul-americanos e dificilmente seria evitada num álbum tão paisagístico como este. Sobra, depois de tudo isto, o tal aviso: a voz de Marina Fages consegue ser irritante, sim, mas tudo o que tem à sua volta é suficientemente encantador para que isso possa ser esquecido.