Por que as batalhas de rimas estão mais populares do que nunca

Falamos com os organizadores de quatro importantes rinhas de MCs da Grande São Paulo — Batalha da Santa Cruz, da Matrix, da Roosevelt e da Estação — para tentar entender a relevância desses eventos na construção do hip-hop paulistano.
11.3.17

Batalha da Matrix. Foto: Reprodução do Facebook/Daniel Oliveira

A cultura de batalha de rimas surgiu quase que concomitantemente ao nascimento do rap, tanto por meio das "diss", faixa em que um rapper ataca outro, quanto pelas rinhas de freestyle entre MCs que se enfrentavam nas ruas do Bronx, o berço do hip-hop, em Nova York, nos anos 1970. No Brasil, não foi diferente: com a popularização do gênero no país lá nos anos 90, vieram também as batalhas. No entanto, elas só começaram a se tornar mais organizadas e passaram para o status de eventos com um certo modus operandi e regularidade em 2003, com o surgimento da pioneira Batalha do Real, no Rio de Janeiro.

Publicidade

Em São Paulo, uma das batalhas que foi precursora na expansão da cultura de rinhas freestyle entre os MC's foi a Batalha do Santa Cruz, que acontece nos entornos da estação do metrô de mesmo nome, há mais ou menos onze anos. Lá foi onde o Emicida começou.E, por ter sido um dos primeiros MCs oriundos de batalhas a conseguir reconhecimento aqui no Brasil e na gringa, o rapper paulistano é tido um dos principais responsáveis por ter dado às batalhas, que antes eram restritas às suas comunidades, um nível de relevância maior dentro da construção do hip-hop nacional como um todo.

"De verdade, o Emicida foi o cara que mais conseguiu subir por causa de batalha e freestyle", disse o produtor cultural de 42 anos Paulo Malik, um dos organizadores da Batalha da Estação, em Francisco Morato. "A cultura freestyle nunca tinha sido o centro no circuito do rap. O Emicida que levou luz a isso e fez a molecada se empolgar com as batalhas".

A convite da Nike, o Emicida selecionou quatro batalhas da Grande São Paulo para participarem do Air Max Day: além daquela que o criou, a do Santa Cruz, o rapper também convidou a da Roosevelt, a da Estação e a da Matrix. Conheça um pouco da história de cada uma abaixo:

Batalha do Santa Cruz

Foi a batalha que revelou, além do próprio Emicida, nomes como Rashid, Bitrinho, Flow MC e Bivolt. No hip-hop paulistano, é uma das mais antigas e que ganhou mais relevância, principalmente depois de o Emicida ter estourado. A Batalha acontece há onze anos todo sábado, a partir das 20h30, na saída do metrô Santa Cruz.

Publicidade

"As regras são 30 segundos para cada MC. Dois rounds. Se houver empate, vai pro terceiro round. Apenas um vence", explicou Gah MC, integrante do Afrika Kidz Crew, grupo que cuida da organização do evento. "Não pode falar da namorada, nem ofender a mãe ou homofobia. Essas paradas são complicadas de se dizer na batalha, então é o que pedimos pra que os MCs evitem rimar sobre isso".

No final de setembro do ano passado, o Noisey acompanhou a Bivolt num sábado na Santa Cruz e ainda fez um vídeo 360º pra você sentir o clima da batalha. Saca só:

Batalha da Roosevelt

Bem mais nova que a da Santa Cruz, a Batalha da Roosevelt acontece todas as quartas-feiras, às 20h, na praça Franklin Roosevelt, no centro de São Paulo. Pode rolar perto da Igreja da Consolação, da guarita da PM ou do colégio Caetano de Campos.

Nascida em 2013, a batalha conta com a apresentação de Nino CrewOlina, Rafael Castro e gravação e produção de Michael Carvalho, que rimavam na do Santa Cruz. "É a primeira rinha de Sampa sanguinolenta, totalmente sem regras", disse Carol Freitas, que cuida das redes sociais da Batalha.

Com beatbox ou à capela, a batalha rola em dois rounds. Se tiver empate, tem terceiro round. "Antes do evento, a gente passa um boné para recolher desde de dinheiro até outros tipos de colaborações do público, como balas, chicletes ou cigarros. No final, o vencedor leva tudo o que foi arrecadado", explicou Carol.

Publicidade

Batalha da Matrix

A Batalha da Matrix começou proveniente de rolês de um grupo de amigos denominado Sociedade Alternativa de Campom, que se reuniam pra tomar um goró e fazer rima. Um dia, em 2013, o grupo resolveu começar a organizar um evento um pouco maior, com o intuito de tentar reunir mais gente pra fazer freestyle junto com eles.

São quase quatro anos que, toda terça-feira, às 19h30, a praça da Igreja Matriz, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, vira palco da Batalha. " No começo, colavam entre 30 e 50 pessoas. O número foi crescendo, de 50 para 100, e atualmente reúne em média 600 pessoas por edição, podendo chegar a um ápice de até 1500 pessoas em datas comemorativas ou com convidados especiais', disse Lucas Fonseca do Vale, um dos organizadores e o produtor musical responsável por levar o pen-drive com as bases para a batalha.

"Não existe perfil para participar. Se inscrevem os 16 MCs que chegam primeiro e pedem para participar. Só tem uma regra: completo respeito à família do oponente. Também não pode usar drogas ao redor da batalha, pra tentarmos evitar problemas de repressão policial [que, infelizmente, vivem acontecendo]".

Batalha da Estação

A Batalha da Estação acontece na cidade de Francisco Morato, na Grande São Paulo, bem na frente da estação da CPTM de mesmo nome da linha 7-Rubi. Ela existe há dois anos e reúne vários coletivos de diferentes elementos da cultura hip-hop da cidade (break, MCs, grafite, DJs, etc), na tentativa de expandir o movimento do freestyle na região. "A gente traz nomes importantes do rap pra participar da batalha, sempre tentando resgatar a antiga escola do hip-hop e fazer a difusão pra galera mais nova, misturando com a nova escola do rap", disse o produtor cultural Paulo Malik, um dos idealizadores do evento.

Publicidade

Assim como na Batalha da Matrix e na do Santa Cruz, na da Estação também não podem rolar homofobia, racismo, machismo, xenofobia. "Também não pode xingar mãe, nem familiares. A gente tenta valorizar mais a rima com conteúdo, com teor histórico, o flow e a improvisação. Sempre prevalecendo o bom senso e a diversão", disse Malik.

Realizada em todas as últimas sextas-feiras do mês, a batalha conta com bases feitas pelo DJ Clevinho e DJ MF. "Começamos com a participação de umas 60 pessoas. Hoje, a gente traz mais ou menos mil pessoas por evento. Estamos tentando expandi-la para outras cidades da região, levando o nosso 'know-how' para outros coletivos", comentou o produtor. "O mais importante da Batalha da Estação foi que ela conseguiu trazer essas rinhas de freestyle, que ficavam mais restritas à região Sul de São Paulo, para o noroeste da cidade".

Para os quatro organizadores, um fato é unânime: as batalhas de rimas estão mais vivas, mais populares e mais organizadas do que nunca. "Exemplos de sucesso como o do Emicida fizeram a geração mais nova ter muito mais interesse nas batalhas", disse Paulo Malik. "Geralmente, é a primeira janela pra você entrar no rap e conhecer a cultura de MC", disse Lucas do Vale. "Ali, os menores conseguem se inspirar e começarem a fazer suas próprias rimas. E a gente tá vendo, no dia-a-dia, que o movimento tá crescendo.

"A Batalha do Santa Cruz é uma escola que já formou muita gente", disse Gah MC. "Mas ela foi só a primeira. Eu sou de uma época em que só havia três batalhas em São Paulo. Hoje, são inúmeras. E cada uma delas tem como objetivo trazer aprendizado e dar mais acesso à cena de rap pra galera. Essas calçadas já mudaram e continuam mudando muitas vidas por aí".

As quatro batalhas fazem parte do projeto Air Max Day 2017 , promovido pela Nike. Semanalmente, feras da música contemporânea brasileira se reúnem para projetos especiais que celebram o legado do Air Max.

Neste sábado, a Casa Air Max na Avenida Paulista recebe integrantes das batalhas para uma rinha especial, com apresentação do Emicida, discotecagem da rapaziada da Discopédia e transmissão ao vivo pela internet. Também estaremos com uma cobertura ao vivo no Facebook Live e no Stories do Instagram da VICE Brasil, fique ligado.