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Sabotagens Noturnas Com Ativistas Antifraturação Sísmica na Transilvânia

Assim que os faróis se apagam, a equipe começa seu trabalho, cortando os cabos sísmicos laranja e qualquer outro conversor elétrico ou gerador com que cruzam.
02 December 2013, 5:20pm

“Você acha que eles vão transar?”, sussurra um dos membros do grupo. Estou na Transilvânia, agachado no meio do mato com ativistas mascarados, especulando por que um carro estacionou tão perto de onde estamos escondidos. “Não, deve ser a polícia, dá pra ver a luz do celular deles”, outro disse. Hora de vazar.

Faz mais de uma hora que o grupo começou a destruir equipamentos pertencentes à companhia de exploração de gás Prospectiuni, numa brincadeira tensa de gato e rato para ficar sempre um passo à frente das equipes de segurança e dos veículos da polícia que vasculham os morros à nossa procura. Outro farol vira na estrada e ouço um grito para nos escondermos. Eu me jogo no chão, me estendendo sobre a grama úmida de um prado da Transilvânia. Vai ser uma noite longa.

Uma reunião municipal de reclamação contra a fraturação sísmica.

Nas últimas semanas, as pacatas comunidades saxônicas e as florestas protegidas do condado de Sibiu na Transilvânia se viram no fronte de uma nova guerra, uma guerra que tem colocado companhias de exploração de gás, o governo romeno e firmas de investimento internacionais contra um pequeno bando de ativistas ambientais. Estes últimos, atraídos para cá de todas as partes da Romênia, trabalham lado a lado com fazendeiros locais para resistir à exploração de gás e petróleo que, segundo eles, está tomando ilegalmente suas terras.

Listada na Bolsa de Valores de Londres apenas duas semanas atrás, com intermediação da Goldman Sachs, a companhia de gás romena Romgaz quer explorar as fontes de gás e petróleo nas colinas da Transilvânia. Ninguém tinha dado muita atenção a isso até que a exploração começou para valer este mês, quando o caminhão de 34 toneladas, usado pelas companhias de perfuração para criar terremotos artificiais, veio se arrastando pelas estradas de lama dos vilarejos da região, acompanhado de uma corte de seguranças e ônibus lotados de trabalhadores.

Hoje, esses vilarejos e campos estão divididos por inúmeras fitas, que se esticam como espaguete por toda a paisagem antiga de florestas de faias, colmeias e campos de milho orgânico. As fitas sinalizam onde as companhias planejam passar seus cabos e plantar explosivos para os testes sísmicos de fraturação. O moradores do local me disseram que acordaram e encontraram fitas passando no meio de sua propriedades, algumas até amarradas nas cercas dos jardins.

Os testes sísmicos estão acontecendo dentro do maior território do Natura 2000 da União Europeia na Romênia, o que é estranho, dado que o acordo estabelecido pela Natura 2000 era o de criar territórios “para assegurar a sobrevivência a longo prazo das espécies e habitats mais valiosos e ameaçados da Europa”. Além disso, muitas das igrejas da região são patrimônios da humanidade da UNESCO, visitadas dor dignatários estrangeiros como os príncipes Charles e Edward em anos recentes. Ir até essas comunidades remotas onde os testes sísmicos estão sendo realizados é como entrar em território ocupado. Fiquei assistindo enquanto os trabalhadores preparavam um buraco com dinamite, apenas alguns metros do campo de futebol da vila. Na rua principal, jipes de segurança particular estavam estacionados num cruzamento, com homens de uniforme filmando e seguindo cada movimento nosso.

Arrancando cabos sísmicos.

Meu guia naquele dia, um ativista da comunidade chamado Hans Hedrich, diz que essas táticas de intimidação são típicas da Romênia. “Você precisa entender que as pessoas da Romênia ainda têm medo de falar. Toda essa segurança parece armada para que as pessoas pensem que não têm o direito de discordar do que está acontecendo. Dá até para esquecer que estamos no século XXI e num país democrático da União Europeia”, diz ele, irritado.

No final da rua, um sacerdote ortodoxo idoso me puxa nervosamente para dentro da igreja, pedindo para não ser identificado. “Eles me disseram para não falar com vocês”, diz ele. “Os bispos dizem que não é papel do pastor se envolver nos assuntos da comunidade.” Ele pausa, quase pensando alto: “Achamos que eles tinham vindo reconstruir o parquinho – e aí aconteceu o terremoto, balançando as casas, causando rachaduras e quebrando coisas dentro das residências. As pessoas ficaram com medo. Ninguém nos pediu permissão, eles nem nos dizem o que estão fazendo”. Ele é interrompido pelo toque de seu celular. Quinze minutos depois, ele volta para a cozinha. Seus superiores disseram para que ele ficasse calado. A entrevista acabou. “Eles sabem que vocês estão aqui”, ele diz, nos mostrando a porta.

No fim da noite, quase 1,6 quilômetros de cabos foram arrancados.

Continuamos rumando para fora da vila, seguindo as fitas e o som intermitente das explosões controladas ecoando pelos vales. Longe dos guardas de segurança, uma senhora decide falar: “Eles são ladrões”, ela sussurra. O vizinho dela se aproxima, implorando por respostas: “Ouvimos falar que o solo pode ser contaminado, é verdade? Nós vivemos dessas terras, não temos salário!”.

No topo da colina, encontramos um enorme laboratório geológicos sobre rodas, com várias antenas em cima e homens debruçados sobre equipamentos elétricos dentro. Um homem baixo e corpulento se apresenta; ele é Gheorghe Daianu, sismólogo e diretor de operações da Prospectiuni, a companhia contratada por 40 milhões de euros para realizar os testes na região. Daianu condena os protestos contra seu trabalho, chamando os aqueles contrários à exploração de gás de “neofascistas”. Ele insiste que a companhia tem permissão para estar em cada metro quadrado de terra onde os testes estão acontecendo, uma informação que, segundo ele, pode ser confirmada por documentos, antes de ordenar que a gente se retire da área.

Vou para o vilarejo próximo de Mosna, para a casa do fazendeiro Willy Schuster e sua esposa Lavinia, que me convidam para ficar hospedado lá enquanto cubro os protestos. Galinhas cacarejam, o fogo crepita e o queijo é feito na cozinha, enquanto dezenas de ativistas começam a chegar de todo o país, acessar o Facebook e carregar a bateria de suas câmeras para o dia seguinte. Esse será o primeiro protesto contra a exploração de gás na Transilvânia, eles explicam, me aconselhando a tentar dormir o mais cedo possível. Mas antes, tenho outro encontro.

Uma pausa no corte de cabos à meia-noite.

Mais tarde, depois de chegar ao local combinado na mais completa escuridão, subo na traseira de uma van enferrujada. Logo me vejo sentado no meio de uma dúzia de homens e mulheres mascarados. A motorista se vira para me cumprimentar. “Não se preocupe com nosso veículo de fuga”, ela diz, “ele é super-rápido e só tem 350 mil quilômetros no odômetro.” Ela ri alto enquanto a porta se fecha e adentramos para a noite gelada. Minutos depois, paramos na beira da estrada e corremos para o meio do mato, todos armados com alicates para cortar os cabos. Assim que os faróis se apagam, a equipe começa seu trabalho, cortando os cabos sísmicos de cor laranja e qualquer outro conversor elétrico ou gerador com que cruzam.

Ativistas enfrentam a polícia.

Vez por outra alguém grita um aviso e o time todo mergulha no chão para se esconder dos faróis de veículos suspeitos que passam pela estrada. Parte exército, parte anarquia, a noite é gasta cavocando pelas colinas remotas debaixo da lua cheia, atravessando arbustos de espinho, clareiras na floresta e atoleiros. Por baixo das máscaras, o time gradualmente vai se abrindo comigo. “Alguns meses atrás, ninguém aqui se conhecia, mas agora estamos unidos”, um deles diz. “Estamos putos com o modo como nosso país está sendo governado. O ano de 2013 tem que ser o ano em que a Romênia vai acordar, quando os cidadãos poderão opinar sobre o que está acontecendo aqui. Coisas como a fraturação têm que acabar, não podemos aceitar a destruição do nosso futuro.”

Às sete da manhã, sento para tomar um café com Willy na cozinha de sua fazenda, quando um comboio de caminhões de gás passa pela janela a caminho dos campos. Ele corre pela porta e os segue, apoplético de raiva. Chego à cena em tempo de ver os trabalhadores da companhia de exploração descerem dos caminhões e se espalharem pelos campos. Willy grita para eles irem embora, confiscando uma picape da companhia e se recusando a devolvê-la, até que a polícia aparece para registrar queixa. Enquanto a manhã avança, carros da segurança são perseguidos, chutados e dão meia-volta das terras de Willy. “Tenho medo pelos meus filhos”, ele chora, brandindo um galho fino contra as forças de segurança que o encaram mais à frente na estrada enlameada. “Estou lutando pelo futuro deles.” Apesar de ser um homem mais acostumado a ordenhar vacas do que combater multinacionais, ele sem dúvida está enfrentando as companhias de gás, e cada vez mais pessoas estão seguindo o exemplo.

Uma ativista exibe triunfante os cabos arrancados.

As colinas do sul da Transilvânia são um dos muitos locais nos quais a Romênia está procurando depósitos de gás natural e petróleo, do mesmo jeito que uma pessoa falida revira as almofadas do sofá atrás de moedas para comprar cigarro. De acordo com os defensores da extração de recursos, qualquer achado seria um tesouro para o governo do país. Victor Ponta, o primeiro-ministro romeno, expôs seus argumento aos jornalistas em junho: “Nós queremos o gás – primeiramente, para parar de importá-lo da Rússia –, gás barato, para tornar a indústria romena competitiva e, claro, diminuir o custo disso para as pessoas? Então precisamos achar gás!”, ele explicou. “Se não, se importarmos da Rússia, isso sairá caro.”

Isso abriu uma faixa de expansão para as companhias de combustíveis fósseis nas colinas da segunda nação mais pobre da Europa. No entanto, o governo de Ponta encara uma batalha inesperadamente dura para atingir suas ambições de recursos domésticos. Recentemente, a controversa companhia mineradora canadense Rosia Montana teve suas atividades congeladas, forçada à submissão por ondas de protestos que levaram dezenas de milhares de romenos para as ruas. No último confronto público, comunidades temerosas dos danos que acreditam que a fraturação pode causar, afugentaram uma plataforma da Chevron de um local de testes.

Com quase quatro milhões de fazendeiros do país confiando em ar, água e solo limpos para se sustentar, um número considerável de desobedientes civis vêm surgindo de uma fonte inesperada: o coração rural do país. Falei com Hettie, uma ativista de 26 anos da cidade próxima de Brasov enquanto ela bloqueava a estrada para as terras de Willy. “Se os moradores locais virem a gente fazendo isso, eles também vão fazer. Temos que dar coragem às pessoas para que elas façam isso sempre que preciso”, ela disse.

Diante de uma oposição cada vez mais galvanizada, o governo está se preparando para contra-atacar. Atualmente, uma “lei de expropriação” está em fase de elaboração no parlamento romeno, o que poderá permitir que companhias multinacionais tomem terras privadas se isso for “do interesse nacional”. Até agora, a lei foca principalmente em mineração, mas os observadores esperam que isso se estenda a projetos de desenvolvimento energético num futuro próximo, adicionando força legal para combater a oposição local, não importando quanto barulho ela faça.

O impasse nos campos do Willy rapidamente toma proporções de uma questão da comunidade. Meia dúzia de carros da segurança são bloqueados pela multidão cada vez maior de residentes, juntamente com crianças romani em bicicletas e mulheres a cavalo. Um fazendeiro aparece num pomar do outro lado do vale, onde minutos antes os trabalhadores estavam enrolando cabos. Ele cospe no chão com raiva, limpando a testa enrugada com a mão e fumando nervosamente um cigarro. “Claro que eles não têm permissão para estar aqui, mas o que posso fazer?”, ele pergunta.

Hans afirma que a Prospectiuni está violando meia dúzia de leis nessa exploração, incluindo restrições de testes nas proximidades de residências, e leis relacionadas a permissões e invasões. “O problema real aqui é que os fazendeiros não conhecem seus direitos”, ele diz. A Prospectiuni e a Romgaz perderam a oportunidade de comentar sobre as acusações de ilegalidade mas, numa declaração no site, o CEO da Prospectiuni disse: “Ocasionalmente, ainda cometemos erros, mas eles não são intencionais. Tentamos ter permissões ambientais ativas e certificados de planejamento urbano”.

Moradores falam contra a fraturação.

No final da tarde, em frente a uma igreja medieval de 600 anos, voluntários servem sopa de batata, bolos típicos da Transilvânia e chá quente. Senhoras com lenços na cabeça e vestidos tradicionais se misturam com ativistas cheios de piercings e homens mascarados. É uma mistura social interessante.

A multidão marcha até a estrada para arrancar mais cabos sísmicos bem na frente dos policiais, que continuam observando. Residentes que estavam com medo de falar nos dias anteriores saem de suas casas, gritando e aplaudindo os manifestantes. “Honestamente, tenho pena deles”, um dos oficiais me disse, enquanto eles se afastavam e permitiam que os manifestantes arrancassem mais cabos laranjas. “O que a companhia está fazendo aqui é, bom, simplesmente errado. É ilegal, na verdade”, ele sussurra.

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