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O Começo Caótico do Julgamento de Mohamed Morsi

Morsi deu as caras e a pena de morte se torna uma possibilidade bem real em sua vida.

Simpatizantes de Morsi reunidos do lado de fora do tribunal.

Anteontem, pela primeira vez em quatro meses, Mohamed Morsi, o presidente islâmico deposto do Egito apareceu em público. Desde sua destituição em 3 de julho, o governo interino e as forças armadas fizeram de tudo para manter seu paradeiro em segredo. A especulação inevitável criou algumas fofocas: estaria ele apodrecendo numa cadeia em Alexandria? Ele estava sendo mantido no quartel-general da Guarda Republicana? Estaria ele, por algum motivo, no Catar? Será que ele já estava morto?

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Se ele for considerado culpado das acusações, a pena de morte se torna uma possibilidade bem real para Morsi. Ele, juntamente com 14 outros membros do alto escalão da recentemente banida Irmandade Muçulmana, é acusado de diversos crimes, incluindo incitação ao assassinato.

No dia 5 de dezembro do ano passado, uma marcha organizada por simpatizantes de Morsi e da Irmandade Muçulmana cruzou intencionalmente com uma manifestação anti-Morsi do lado de fora do Palácio Presidencial. A violência, claro, explodiu, resultando em 11 mortos — três deles não pertencentes à Irmandade. Relatórios subsequentes falavam em salas de torturas improvisadas montadas por membros da Irmandade e muitas outras histórias de violência vazaram nas semanas seguintes. A pergunta agora é se Morsi, ou os líderes da Irmandade, tiveram algo a ver com tudo isso.

Menos de 24 horas antes do começo do julgamento, a localização da corte foi finalmente divulgada: a Academia de Polícia de Nova Cairo — exatamente onde o ditador pré-Morsi, Hosni Mubarak, foi julgado dois anos atrás. A sala onde Morsi ficou ontem é exatamente a mesma em que Mubarak esteve, um tribunal construído especialmente para seu julgamento.

Enquanto jornalistas e advogados lotavam a sala, ficou evidente que a reforma foi bastante específica para o propósito. O espaço, que antes devia ser uma sala de aula, foi divido em duas partes, uma metade cheia de grades e barras de ferro e a outra com um amontoado de bancos.

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Filmagem da TV estatal egípcia de dentro do tribunal.

Os líderes da Irmandade logo apareceram, era possível ver seus uniformes brancos da prisão por entre as barras. Quando todos estavam posicionados, eles gritaram em uníssono: “Não somos um estado militar!” e “Abaixo à ditadura militar!” A resposta da seção dos advogados foi imediata. Alguns levantaram a saudação de quatro dedos, que se tornou um símbolo de solidariedade à Irmandade Muçulmana, e se juntaram ao coro dos detidos, enquanto outros gritavam “Execução!”. Foi como ver a polarização da sociedade egípcia num microcosmo.

Depois que a poeira baixou, os juízes entraram e pediram silêncio. O presidente do tribunal, juiz Ahmed Sabry, tinha acabado de sentar quando uma sonora salva de palmas pôde ser ouvida vindo das celas. Morsi apareceu e foi vigorosamente aplaudido pelos colegas presos. Aparentemente tendo se recusado a usar o uniforme branco da prisão, ele optou por vestir um terno azul escuro com uma camisa branca sem  gravata. Ele acenou, iniciando mais uma onda de gritos e coros. Um jornalista que estava sentado perto de mim perdeu a compostura e começou a gritar “Execução! Execução!”.

A estratégia de Morsi para o julgamento ficou clara antes mesmo do início. Ele vai se agarrar à sua autoridade absoluta “legítima” — o que é amplamente contestado. Uma declaração divulgada uma semana antes do julgamento pelo da IkhwanWeb — o site em inglês oficial da Irmandade — afirmava: “o presidente legítimo e o time legal rejeitam totalmente o julgamento”.

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Morsi manteve uma atitude desafiadora, fazendo uma declaração aos juízes, advogados e jornalistas presentes. Interrompendo o juiz, ele disse: “Sou o presidente legítimo da República! Isso é um golpe ilegal e não reconheço este tribunal! Tenho respeito pelo judiciário egípcio, mas eles estão sendo usados para encobrir o golpe!”. Mais tarde, ele estendeu seus conselhos aos serviços de segurança: “Não deixem ninguém voltá-los contra o povo egípcio!”.

O julgamento foi caótico, com os juízes, réus e advogados gritando uns com os outros, forçando duas pausas temporárias nos procedimentos. Morsi e Mohamed el Beltagy (um importante membro da Irmandade) foram os que mais condenaram a natureza politizada do processo e das acusações feitas contra eles. Beltagy interrompeu o juiz várias vezes com gritos de “ilegal!” e “ilegítimo!”, sempre que certos tópicos apareciam.

Depois que o julgamento teve que ser parado pela primeira vez, uma briga começou entre os advogados da defesa, o que pode parecer estranho, mas não é de se surpreender; já alguns entre eles pediam por objetivos totalmente diferentes. Morsi seguiu com o plano e se recusou a fazer qualquer negociação ou a interagir com a corte. Quando os juízes ofereceram a ele a chance de ter seu antigo advogado, Mohamed Selim Al-Awa, de volta, ele simplesmente respondeu: “Sou o presidente legítimo da República!”.

Os advogados também não pareciam muito apressados em dar continuidade ao julgamento, pedindo mais tempo ao juiz para ler o processo de sete mil páginas. Por fim, depois de uma segunda pausa forçada, o juiz Sabry adiou o julgamento para 8 de janeiro de 2014.

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Um dos advogados de defesa de Morsi é erguido pelos simpatizantes da Irmandade após o adiamento do julgamento.

Do lado de fora do enorme complexo, cerca de 300 simpatizantes de Morsi esperavam, gritando em coro. Enquanto eu passava pela polícia até o lado deles, fui bombardeado por perguntas. Quando descobriram que nada tinha acontecido e que outra data tinha sido marcada para janeiro, senti uma mistura de orgulho e raiva entre aqueles com quem falei.

“O tribunal é corrupto”, declarou Mahmoud Suleiman, um dos simpatizantes de Morsi que esperava do lado de fora da Academia de Polícia. “Por que ele concordaria em ter qualquer coisa a ver com eles? Ele é meu presidente e é o presidente legítimo do Egito.” Os advogados da Irmandade que saíam do tribunal eram recebidos com palmas e gritos de alegria, sendo cercados para dar entrevistas e ocasionalmente erguidos nos ombros da multidão. Os advogados anti-Morsi que saíram acidentalmente por aquele lado, tiveram que dar a volta rapidamente para não serem linchados.

Por todo o Egito, pequenos protestos e enfrentamentos menores eclodiram sempre que pró-Morsis, anti-Morsis e a tropa de choque se encontravam. Esse foi o último dia de uma série de protestos planejados pela Aliança Antigolpe.

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