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Porque é que os turistas continuam a querer visitar o autocarro de "Into The Wild"?

Todos os anos, gente oriunda de todo o Mundo percorre o Trilho Stampede em busca do "nirvana da sobrevivência". E, todos os anos, é gasto muito dinheiro público em resgates de aventureiros incautos.

Por Larry Fitzmaurice
25 Julho 2016, 1:00pm

Foto cortesia Eddie Habeck.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Quando Eddie Habeck comprou um pack de Excursão + Caminhada pelo Alasca em 2012, não tinha nos planos visitar o Autocarro Fairbanks 142. Este habitante de Vermont, de 39 anos, só mais tarde percebeu que estaria no Estado que abriga o veículo onde Chris McCandless - figura central do livro do jornalista Jon Krakauer, Into the Wild (e também do filme) - foi encontrado morto a 6 de Setembro de 1992, depois de passar quatro meses no Parque Nacional Denali numa aventura solitária pela floresta.

"De repente percebi: 'Espera, aquela história aconteceu no Alasca'", conta Habeck, que é funcionário público e faz fotografia aérea nos tempos livres. E acrescenta: "Vi que havia uma hipótese de lá ir". Habeck traçou no mapa a sua jornada até ao autocarro, que está localizado perto do Trilho de Stampede, a cerca de 1,6 km a leste da fronteira do Parque Nacional e, em Maio daquele ano, fez-se ao caminho. Sozinho.


Vê o primeiro episódio de "Jungletown"


A viagem teve algumas dificuldades - como cruzar o Rio Teklanika, onde a água naquela época do ano dá pela cintura - mas conseguiu chegar ao Autocarro 142, que ali foi deixado para servir de abrigo a caçadores. "Não fui ao Alasca por causa disso — a ideia veio depois — mas acabou por ser um momento chave da viagem. Tive muito tempo para pensar porque é que Chris quis deixar a sociedade e como se sentiu tão longe da civilização. Até lá chegares, não tens ideia de como te vais sentir", diz Habeck.

Todos os anos, há viajantes do Mundo inteiro que seguem o Trilho Stampede em busca desse momento chave que Habeck descreve — atingir uma espécie de nirvana de sobrevivência em modo solitário, seguir os últimos passos de McCandless pela natureza do Alasca, sem sucumbir ao mesmo destino. No entanto, no que respeita a este último objectivo nem toda a gente o consegue atingir: em 2010, Claire Ackermann, uma suíça de 29 anos, afogou-se ao tentar cruzar o Teklanika com o aventureiro francês Etienne Gros, na rota para o Autocarro. Todos os anos, aliás, há pessoas que têm de ser resgatadas do Trilho.

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Um memorial de homenagem a Claire Ackermann no Trilho Stampede.

Como uma autorização oficial não é exigida para seguir o Trilho Stampede, não há estatísticas oficiais de quantas pessoas são resgatadas anualmente. Lynn Macaloon, relações-públicas do Parque Nacional Denali, diz à VICE que estima "vários" resgates por ano, com a guarda-florestal, bombeiros e a polícia estadual do Alasca a terem de ser accionados para acudir a cada um deles.

Ainda no mês passado, os viajantes Michael Trigg e Theodore Aslund foram resgatados por uma operação que envolveu mais de 20 pessoas e um helicóptero, depois de chegarem ao Autocarro e demorarem mais tempo que o esperado para retornarem. "Eles foram com uma ideia irreal de quando regressariam", explica à VICE Erik Halfacre, natural do Alasca. "Poderiam ter evitado um resgate caro se tivessem mantido o cronograma. Coisa que não fizeram".

Halfacre, 30 anos, é um guia de trilhos e profissional de rafting; desde 2011 também comanda o Last Frontier Adventure Club (LFAC), que descreve como "uma forma de ter mais informações online sobre diferentes trilhos". Halcrafe já esteve no Autocarro 142 três vezes nos últimos sete anos. A sua mais recente viagem ao local foi em 2014, quando a irmã de McCandless, Carine (que publicou o seu próprio livro de memórias, The Wild Truth, naquele ano), se juntou a ele e a mais 11 viajantes para percorrerem o trilho. Ao telefone, fala com a confiança de alguém que, nas suas próprias palavras, não se lembra "de um tempo de vida em que percorresse trilhos".

Halfacre diz que os jornalistas tendem a "escrever coisas negativas" sobre as operações de resgate no Trilho Stampede e que a ira dos locais não é inteiramente descabida. "Esses resgates são pagos com dinheiro dos contribuintes do Alasca e isso é uma coisa irritante para muitas pessoas daqui", salienta. A solução, garante, é educar - especialmente com fontes como o site da LFAC, que tenta preparar os potenciais "peregrinos" do Autocarro 142 para os desafios que vão encontrar. É um guia escrito por viajantes experientes, mas também um alerta para os amadores que não estão preparados para uma jornada deste calibre.

Tratando-se do Trilho Stampede, aprender quando desistir é tão crucial quanto saber como conseguir. Dois anos depois de Habeck completar a sua primeira viagem, tentou outra vez com a sua mulher, um dia depois do casamento. No entanto, dessa vez as águas do Rio Teklanika estavam muito altas e revoltas para uma travessia segura. "Seria uma forma bastante terrível de terminar o meu primeiro dia de casado", confessa entre risos. Helfacre já deu meia volta duas vezes em excursões ao Autocarro 142. Uma vez porque o grupo que estava a guiar demonstrou falta de preparação absoluta, esquecendo-se de levar coisas tão básicas como tendas e comida. "Não estava disposto a continuar com eles, obviamente".

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O Rio Teklanika, em Maio de 2012.

Entrar num trilho desta dificuldade sem estar realmente preparado parece ridículo, mas é o que, na verdade, acontece na narrativa de Chris McCandless que os "peregrinos" do Autocarro142 conhecem. A última pessoa a vê-lo com vida, o electricista de Fairbanks Jim Gallien, disse a Krakauer que, ao dar boleia a McCandless até à entrada do Parque Nacional Denali, notou que o viajante não tinha mantimentos suficientes. Consigo levava apenas um saco de quatro quilos de arroz, uma espingarda calibre 22 (pequeno demais para caçar animais maiores que poderiam fornecer-lhe sustento), um mapa estadual e equipamento de caminhadas velho e gasto. Mais tarde no livro, Krakauer faz uma distinção entre outras mortes menos comentadas ocorridas naquela floresta e o destino de McCandless: "Apesar de ser incauto ao ponto da imprudência, ele não era incompetente. Não teria durado 113 dias se fosse".

É indiscutível que o tempo que McCandless conseguiu sobreviver na floresta do Alasca é impressionante. Na grande tradição norte-americana de uma pessoa se encontrar a si própria entrando em comunhão com a natureza, não é difícil entender porque as almas viajantes tem uma noção romântica da história da sua jornada — até ao ponto em que a morte trágica de McCandless acaba mesmo por ficar quase esquecida. "A realidade é que lemos a história de Chris contada por Jon Krakauer porque o Chris morreu", diz Halfacre, enfatizando a última palavra. "Ninguém deveria querer repetir isso".

E talvez agora os aventureiros amadores estejam finalmente a enteder a mensagem, já que a gestora do programa de voluntários do Parque Denali, Kathleen Kelly, diz que incidentes como a operação de resgate do mês passado estão a tornar-se menos frequentes. "A informação do que é necessário para fazer esta jornada está a espalhar-se", assegura Kelly à VICE. "As pessoas estão a preparar-se melhor, menos pessoas estão a tentar, ou estão a fazer a viagem com mais informação." E talvez seja melhor assim. Na opinião de Halfacre, a razão pela qual, apesar de tudo, as pessoas continuam a tentar percorrer o Trilho, está ligada ao desejo inato da humanidade de crescimento pessoal: "Para muitas pessoas, o Trilho Stampede representa um desafio que, se conseguirem superar, lhes vai permitir descobrirem algo sobre si próprias".

"Entendo o apelo", diz Macaloon, enfatizando que a atracção de desaparecer da sociedade e entrar no grande desconhecido se estende não só à história trágica de McCandless, mas ao Alasca em geral. "Encontramos gente não só a tentar chegar ao Autocarro, mas a querer vir para cá, construir uma cabana em qualquer lugar e viver da terra. O Alasca é um lugar onde as pessoas acham que podem viver esse sonho, ou pelo menos tentar".


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