Tanatopraxia e necromaquiagem para iniciantes

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Tanatopraxia e necromaquiagem para iniciantes

Um dia todo aprendendo a arte de embalsamar cadáveres.
21.10.14

"Minha avó ficou um ano sem me deixar cozinhar porque tinha nojo da minha profissão", conta Carolina Maluf, conhecida como Nina, sobre a experiência de trabalhar com mortos. Há 10 anos na área funerária, hoje ela é dona da Thanatology, escola de tanatopraxia e necromaquiagem. A tanato consiste, basicamente, em higienizar um cadáver para que ele possa ser velado e enterrado sem maiores surpresas, como o vazamento de fluidos corporais. Já a necromaquiagem, tal qual o nome, prepara as partes do corpo que ficam expostas durante o velório - geralmente o rosto, os braços e as mãos. Me desafiei a participar de um curso que durou o dia todo em São Paulo, com cadáveres de verdade. E de antemão, lhes digo: foi tenso.

A morte assusta do mesmo jeito que encanta. Quando encontrei os alunos, achei curioso o fato de boa parte deles vestir camisetas de bandas de metal.

Chegamos no laboratório pela manhã e eu sabia que o dia seria longo. Dois funcionários ajudariam Nina no serviço e ensinariam os alunos: Fernando Rodrigues e Kimberly Hypolito. Estávamos em um cemitério e trabalharíamos com corpos que, em seguida, seriam velados e enterrados por seus familiares.

Primeiro, aprendemos a diferença entre a tanato e a necromaquiagem. Em seguida, fomos alertados que câmeras estavam espalhadas por todo o local para registrar eventuais vilipêndios a cadáver, ou seja, desrespeito, escárnio ou necrofilia - crimes previstos em lei. A equipe explicou os procedimentos, apresentou as ferramentas utilizadas e os materiais. "Vocês sairão daqui aptos a serem agentes funerários", ouvimos. Nesse momento, foi inevitável me questionar se era pior ser jornalista e estar ali ou me qualificar para trabalhar como profissional do mundo dos mortos.

Vestindo uma camisa polo branca e avental, Nina faz piadas, fala palavrão o tempo todo e vez ou outra grita com alguém da equipe para buscar ou fazer algo. Mosquinhas de cadáver nos rondam insistentemente. "Fernando, vê se tem inseticida lá fora. Essas bostas estão me irritando." Mãe de quatro crianças, ela é invocada, mas fala sobre ter fé e lidar com a rotina pesada. "Sou apaixonada pela minha profissão. Mas é duro. Às vezes chegam bebês aqui, ainda quentinhos. É muito difícil", relata.

Vamos até a lanchonete do cemitério preencher nossos estômagos, que em alguns minutos terão de lidar com o cheiro fortíssimo de formol e cadáveres. Quando estou prestes a finalizar meu picolé de chocolate, Fernando avista um carro funerário e alerta os alunos: "Chegou serviço". A palavra "serviço" ecoa na minha cabeça de maneiras indizíveis. Nos apressamos e voltamos ao laboratório. Lá, o primeiro caixão do dia é aberto: uma senhorinha que morreu no dia anterior depois de sofrer um AVC. Seu corpo veio do hospital. Colocamos aventais, luvas e o procedimento da tanatopraxia é iniciado.

O primeiro passo é realizar uma incisão para encontrar a artéria femoral. Quando vejo a Nina rasgando a coxa da senhorinha, seguro o choro, o nojo, o choque, o tchan. Com as mãos, ela vai tirando o excesso de gordura que insiste em pular pra fora do corte. As duas coxas são abertas. Na artéria femoral esquerda, o formol é inserido. A circulação arterial fará com que o líquido se espalhe e o corpo seja preservado durante o velório.

Enquanto o procedimento é feito, Nina e um outro agente começam a lavar o cadáver com detergente. Rosto, barriga, pernas, cabelo, mãos. Terminada a incisão, as coxas da idosa são suturadas. Nina guia um dos alunos, que corajosamente mete a agulha na pele do defunto. Com o estômago dando voltas, não tive coragem de me arriscar.

Chega a hora do tamponamento, quando chumaços densos de algodão são enfiados no nariz e na garganta com uma pinça para que o morto não "vaze" sangue ou qualquer outro fluido. Depois, a boca é costurada por dentro.

Enquanto tudo isso acontece dentro do laboratório, um novo cadáver chega do IML (Instituto Médico Legal).

Um óbito é encaminhado ao instituto toda vez que a morte é violenta ou suspeita. Nesse caso, o homem foi atropelado por um ônibus. Seu corpo parece fresco. Ele aparenta ter por volta dos 40 anos. O velório será rápido e ele logo será enterrado. Por isso, não é necessário passar pela tanatopraxia - cuja principal função é conservar o cadáver durante horas e até dias.

Fernando e outro agente funerário começam a limpar com gaze e água as mãos e o rosto ainda ensanguentados do morto. Depois, um terno preto e uma camisa branca saem de uma sacolinha de papel enviada pela família. É inevitável pensar na dor da pessoa que escolheu as roupas. Assim que o defunto começa a ser vestido, fico ainda mais emocionada quando percebo que o primeiro item é uma cueca preta. E isso só piora quando vejo um par de sapatos social saindo de uma outra sacolinha plástica amarrada. Os pés do rapaz são grandes e ele acabará sendo enterrado sem os sapatos. Alguém comenta que "o duro é quando a mão do defunto prende dentro do forro do paletó" e isso faz todo mundo dar uma inevitável risadinha. Com uma espécie de grampeador, o agente funerário prega o manto (um tecido branco que fica por cima do corpo) ao caixão. Tamponado e com a boca costurada, ele está quase pronto para o velório.

Nessa hora, Kimberly toma frente passando hidratante no rosto do morto. "Sem circulação, a maquiagem não adere à pele. O creme ajuda no processo", explica a maquiadora profissional que dispensa produtos de marca. Pelo contrário, utiliza o que existe de mais barato no mercado. "Mas o hidratante acabou, tive que pegar um Victoria Secret's que estava lá em casa." Munida de base, corretivo e pincel, ela retoca a pele do homem sem vida. Mas não faz nada sofisticado. Só deixa sua aparência um pouco melhor, para que os familiares guardem na memória uma feição minimamente saudável. "Precisamos ter respeito. Estamos tratando de uma pessoa que amou e foi amada", ela suspira. Aos nossos pés, uma infinidade de vasos de margaridas servem para a última fase do trabalho no laboratório: a ornamentação.

Flores são delicadamente colocadas em cima do manto branco. O caixão é fechado e vai para o velório. Nunca mais verei esse homem. Esse homem nunca mais verá nada. E o que sinto nesse momento é brutalmente contrastado pelo pop hit "Lepo-lepo", tocando em alto e bom som numa escola próxima ao cemitério.

O caso da senhorinha foi mais complexo e demorado. Feita a tanato, o caixão é levado para a parte externa, onde Kimberly recomeça os trabalhos de necromaquiagem. Ela explica sobre tonalidade e produtos, principalmente para os alunos homens, que parecem um pouco confusos. Um ponto essencial para a necromaquiagem é respeitar as características do morto. "Não posso passar corretivo nas olheiras dela. Essa senhora provavelmente não passava maquiagem. Imagina um neto chegando no velório sem reconhecer a vó?", fala.

O agente funerário alerta: a idosa era evangélica e a maquiagem tem que ser muito leve e discreta. Nina comenta que outro dia eles enterraram uma travesti que usava vestido, batom e até cílios postiços. Era assim que ela gostava de se vestir e foi assim que a família quis dizer adeus a ela.

Não há muito o que fazer com o cabelo, que é basicamente penteado e colocado para trás.

A equipe da Thanatology explica que muitas vezes a família entrega o batom preferido da mulher que será enterrada. Mas também já ouviram reclamações. Certa vez, passaram um batom rosa claro sem saber que a defunta era evangélica. A família não gostou e mandou tirar.

Aline Crespi veio de Osvaldo Cruz, interior de São Paulo, tem 24 anos e é formada em Nutrição. Nunca conseguiu emprego na área. Com a escassez de oportunidades, viu que a única funerária do município onde mora tinha vagas em aberto. Resolveu se inscrever no curso, que lhe custou salgados R$ 900. "Estou adorando. Na faculdade, eu já gostava das aulas de anatomia", conta.

Com uma camiseta do Iron Maiden por baixo do avental descartável, Washington Monteiro tem 25 anos, é fã confesso de filmes de terror e diz que sempre quis trabalhar com mortos. "Quando eu era pequeno, queria ser coveiro." Atualmente, ele trabalha como segurança, tem uma banda de death metal e mora com o pai, que considera uma loucura a busca por uma vaga no mercado funerário.

Ao longo do dia, a equipe relata várias vezes como as pessoas são preconceituosas com a profissão. "É um trabalho braçal, pesado. Você precisa estar bem espiritualmente pra ficar aqui", desabafa Nina. O nicho funerário dá dinheiro. Poucas pessoas se sujeitam a manusear corpos e fazer o que essa galera faz. E, no fim, não é algo tão mórbido como pensamos. Para ela, a maior satisfação que existe é ver um ser humano encerrando sua passagem pela vida de maneira digna e propiciar aos familiares um adeus minimamente tranquilo.

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