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Opinião

O que aprendi, como negro, a viajar pelos lugares mais racistas dos EUA

Encontrei pessoas que acreditam que os negros ainda deveriam ser escravos e que a supremacia branca é a solução para a actual crise que se vive no país.

Por Wilbert L. Cooper
24 Agosto 2016, 11:00am

Wilbert, numa encenação da Guerra Civil Americana.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Nos últimos meses, enfiei-me num antigo Ford Fleetwood com os meus amigos Abdullah Saeed e Martinade Alba e levámos a cabo uma road trip pelos Estados Unidos para o nosso programa VICE Does America, transmitido na VICELAND [o canal de televisão da VICE, de momento apenas disponível nos EUA]. A ideia dos produtores era ter um negro, um muçulmano e uma imigrante hispânica a conduzirem de Los Angeles a Washington durante a campanha para as eleições presidenciais de 2016, para tentar descobrir em que direcção está o país a ir.

Tendo em conta que as nossas biografias tocam três das questões mais polémicas nos Estados unidos hoje em dia, éramos o grupo heterogéneo perfeito para realizar esta espécie de programa de viagens com temática política. Martina, que lutou duramente para conseguir singrar neste país, podia falar sobre o sistema de imigração disfuncional. Abdullah, um punk paquistanês-americano que curte (muito) erva, representava a verdadeira diversidade do islão, num momento em que os muçulmanos são, frequentemente, vistos com medo e desconfiança. E eu, a voz dos homens negros americanos, numa época em que o país se pergunta se a vida dos jovens negros realmente importa.

Durante a viagem, como agora, senti que os Estados Unidos da América se estão a despedaçar. O Mundo está a aquecer, literal e figurativamente. Os protestos estão a explodir a a ganhar força por toda a parte face às injustiças raciais contínuas, mas também têm resultado na militarização da polícia e na retórica xenófoba de Donald Trump. E a era Obama, com todas as suas promessas iniciais e tristes realidades, está a chegar ao fim, enquanto cresce um sentimento intenso de incerteza sobre o futuro.

Abdullah, Martina e Wilbert vestidos para um rodeo mexicano.

Enquanto saíamos do Quartel-General da VICE em Los Angeles, o clima parecia-me sinistro. Não sabíamos onde nos estávamos a meter. Martina, Adbullah e eu moramos no Brooklyn nova-iorquino, uma bolha jovem, próspera e progressista se comparada com o resto do país. Para aumentar essa sensação de incerteza, os nossos produtores esconderam-nos deliberadamente os lugares para onde estávamos a ir e as pessoas que íamos conhecer. Não sabiamos o que esperar.

Depois de passar 30 dias a conduzir aquele carro sufocante por vários estados e conhecer dezenas de personagens extremos de todos as áreas, tenho que dizer que os Estados Unidos não são menos misteriosos para mim hoje do que quando começámos essa jornada. Mas ver o meu país de perto deixou-me constantemente perplexo. Não tenho palavras para descrever o que senti ao ver o Sol surgir por cima das areias vermelhas de Monument Valley, ou como é passar a mão nas folhas das árvores ciprestes enquanto navegávamos preguiçosamente por um bayou na Louisiana.


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Também fiquei sensibilizado com as comunidades unidas que encontrei, que conseguiram abraçar os EUA ao mesmo tempo que mantiveram o seu próprio modo de vida. Conheci mexicanos-americanos no Texas que realizam um rodeo chamado charreada, um evento metade Wyatt Earp, metade Emilliano Zapata. Conheci um clube de motoqueiros lakota que abraçam a história ilustre da sua tribo e o estilo de vida fora-da-lei dos "Um Por Cento". Estas pessoas têm histórias que só podem ser contadas neste país.

Infelizmente, também fiquei desiludido com o ódio racial que vi de Costa a Costa. Como se de um baptismo de fogo se tratasse, uma das nossas primeiras paragens foi no set de filmes inter-raciais porno, onde me deparei com o antigo estereótipo do homem negro retratado como uma besta selvagem e transformado em entretenimento XXX. Enquanto via uma actriz branca e dois "brothers" musculados a escorrer óleo em acção, o realizadorr branco disse-se que o público-alvo destes filmes são, basicamente, sulistas brancos, uma demografia que implora pelo máximo de degradação possível e estereótipos sexuais. Há uma certa lógica terrível nisto: só achas este tipo de cenas sexy, se tens medo ou repulsa de homens negros, se os vês não como pessoas, mas como algum tipo de tabu indomável.

Foi fascinante para mim ver como este tipo de pornografia se baseia na dinâmica de raças da era da escravidão. O homem negro como um agressor sexual de uma mulher branca. Estereótipo que era frequentemente usado como a principal desculpa para subjugar os negros e que também obscurece a história da violação na escravidão americana, uma prática rotineira no país naquela época. Como é que nos distanciámos tanto da verdade nas nossas ideias uns sobre os outros?

Durante a viagem pelo país, pensei muito sobre a história real e imaginada da escravidão. Muitas e muitas vezes, cruzei-me com abordagens distorcidas da sua prática e ramificações, o que me levou a pensar que mesmo 150 anos depois da Guerra Civil Americana, a raiz da experiência americana inicial continua aqui. O que mais me perturbou foi o tipo de nostalgia cheia de ódio que algumas pessoas ainda têm. Elas idealizam épocas passadas, que foram definidas pela brutalidade e subjugação dos meus antepassados.

Lubrificantes no set de um filme porno.

A paragem seguinte foi no Nevada, em casa de Cliven Bundy, um empresário agrícola rico que há décadas enfrenta o governo federal numa disputa pelo uso de terras que são propriedade federal. Bundy foi notícia a nível nacional em 2014, quando se envolveu numa situação tensa de impasse armado com o governo por causa das terras, num caso em que os federais acabaram por recuar. Transformou-se numa celebridade nacional, especialmente para aqueles envolvidos no movimento de "liberdade", tornando todas as suas opiniões - sobre estado de direito até às relações de raça nos EUA - dignas de notícia. Foi nessa altura que Bundy disse que achava que os negros estavam melhor na época da escravidão, porque não dependiam do governo para lhes dar pensões.

Quando entrei na sua casa rústica de madeira, este idoso de aspecto frágil foi bastante simpático. Abdullah, Martina e eu sentámo-nos no grande sofá da sala, enquanto a esposa de Bundy trazia da cozinha um prato com pedaços de melancia. Claro que não comi nenhum. Mas tentei fazê-lo entrar numa conversa sobre o que queria dizer com os seus comentários infames. Apesar de se ter tentado desculpar comigo pessoalmente pelo que disse no passado, Bundy manteve a ideia de que as coisas seriam melhores num país onde os homens negros fossem obrigados a trabalhar, nunca fossem compensados pelo trabalho e não tivessem direito à dignidade e participação na nossa democracia.

Receber um pedido de desculpas, ainda que parco, de um gajo que não recuou diante de agentes federais armados devia ter-me feito sentir melhor. Em vez disso, senti-me mal ao sair do seu rancho dele, porque sabia que ele era apenas o rosto de um movimento muito maior. Milhares, se não milhões de pessoas desta nação partilham as visões deste homem e irrita-me pensar como seria este país já caótico se eles conseguirem o que querem, possivelmente através da eleição de alguém como Donald Trump.

Wilbert, Abdullah e Martina no rancho de Bundy, a aprenderem a disparar.

Por mais estranha que a minha interacção com Bundy tenha sido, a maior reverência ao Sul de antes da Guerra que encontrei na viagem foi em Jacksonville, Alabama. No final da jornada, os produtores largaram-nos no meio de uma encenação da Guerra Civil Americana, com a promessa de que os participantes eram apenas fãs de história. Enquanto marchávamos pela colina onde as batalhas deviam acontecer, vi todos os marcos do antigo Sul, incluindo várias bandeiras dos confederados a balançar ao vento.

Suspeitava que as coisas pudessem ficar feias, mas tentei usar a minha melhor atitude. Vesti uma roupa de lã quente para parecer um soldado da União e marchei com formações militares, a disparar atirando balas falsas com os cosplayers confederados. Mas sempre que havia uma pausa na acção, ouvia as pessoas a dizerem todo o tipo de merdas - que a escravidão não era má para os negros, que os negros escravizados não sofriam violência, que os negros escravizados amavam os confederados e lutaram pelo Sul no exército "integrado"...

Ao ouvir esta última parte, sabia que tínhamos que sair dali. Os produtores queriam que passássemos a noite no acampamento da encenação, mas não havia forma de eu dormir no mesmo sítio de pessoas que realmente acreditam que a massa de negros escravizados apoiava por vontade própria as suas correntes ideológicas. A ideia era ainda mais repreensível do que tudo o que eu tinha ouvido da boca de Bundy.

Declarações deste calibre fizeram-me crer que há pessoas que estão desesperadas para legitimar a horrível história americana de supremacia branca. Fiquei chocado ao ver essas pessoas apontarem para esse passado como algo a aspirar, algo que deveria voltar. Gastam milhares de dólares em máscaras e equipamento para chegarem o mais perto possível da sensação de voltar atrás no tempo. Era demais para mim.

Mais uma vez nesta viagem, testemunhei o quanto estes americanos brancos têm saudades de um passado distante. Um tempo que, na maioria das vezes, eles parecem entender muito mal. Foi só depois desta viagem que percebi que o abismo entre essas fantasias nostálgicas e o momento moderno dos EUA foi o que tornou o país num lugar tão feio e cheio de raiva hoje, especialmente durante as campanhas políticas.

Lembrei-me de uma citação do romance clássico de Don DeLillo White Noise: "Nostalgia é um produto da insatisfação e da raiva. É um ajuste de queixas entre o presente e o passado. Quanto mais poderosa é a nostalgia, mais perto estamos da violência". Também me lembrei de Beenie Man, que disse basicamente a mesma coisa de forma resumida: "Quando tu vives no passado, tu perdes".

Acho que nunca vou realmente entender a nostalgia cheia de ódio de gente como Cliven Bundy e os actores da encenação da Guerra Civil. Como um homem negro nos EUA, há muitas épocas passadas em que penso com carinho, excepto talvez a do gangsta rap do começo dos anos 90. O slogan de Trump "Make America Great Again" não faz qualquer sentido para mim. Quando é que a América foi boa para pessoas como eu? Não durante a escravidão, não durante a era de Jim Crow, não no auge da guerra às drogas... Eu não quereria ser jovem e negro nos EUA num tempo que não fosse o agora, porque hoje, pelo menos, tenho hipótese de lutar pela sobrevivência.

Wilbert na Convenção Nacional do Partido Republicano. Foto por Jason Bergman.

A maioria das formas de nostalgia são inofensivas — camisas de flanela, os cabelos a ficarem outra vez mais volumosos. Mas o tipo de nostalgia branca que alimentou a ascensão de Trump está intrinsecamente ligada à supremacia racial que imperava na construção da nação norte-americana. Essa nostalgia está impregnada com a ideia de que os negros são inferiores, de que os brancos precisam de ser defendidos das hordas caóticas de gente de cor.

Senti exactamente isso quando cobri a Convenção Nacional do Partido Republicano para a VICE em Julho último na minha cidade natal, Cleveland. Durante o discurso de Trump, sempre que ele apelava à "lei e ordem", a multidão aplaudia com fervor. O medo, a raiva e a esperança eram tangíveis entre os delegados e simpatizantes do candidato, que ficavam ensandecidos com a retórica de fogo e enxofre de Trump. O problema é o bicho-papão negro deste país e Trump, sozinho, é a solução.

Quando gente como Trump diz querer trazer de volta "a lei e a ordem", eles estão a falar sobre a ordem de uma era passada, em que o domínio do homem branco na sociedade era um facto inquestionável. Se tens dúvidas, é só falares com as pessoas que o apoiam, ou ouvires os gritos e os cânticos nos seus comícios. Trump tem um histórico de práticas de negócio discriminatórias, mas não importa o que se passa na cabeça dele. O que é certo é que a sua campanha encorajou os racistas americanos.

O apoio de Trump é maior entre homens brancos sem educação, com perspectivas de emprego limitadas e numa posição cada vez mais marginalizada na sociedade. É muito mais fácil para eles, imagino, culpar o espectro de homens negros fora-da-lei, terroristas muçulmanos e violadores imigrantes mexicanos pelos seus problemas, que lidar com as instituições públicas e privadas que falharam e prejudicaram os norte-americanos de todas as raças.

Na verdade, temos inimigos em comum. Brancos também são vítimas de violência policial; brancos também são vítimas da guerra às drogas; brancos também são vítimas de um sistema financeiro não-regulado. Mas, quando esses brancos marginalizados vêem o seu dinheiro, oportunidades e esperança serem-lhes arrancados, às vezes confortam-se com uma visão distorcida de superioridade e da cultura ultrapassada que dizem defender. É por isso que eles tendem para o lado de Trump. E é o que o empresário está a oferecer, uma forma de se agarrarem a esse sentimento durante mais algum tempo.

Wilbert, Martina e Abdullah no final da viagem.

A boa notícia é que esta nostalgia do ódio está a perder e estará sempre destinada a perder. Como James Baldwin disse uma vez: "Aceitares o teu passado - a tua história - não é o mesmo que afogares-te nela. Um passado inventado nunca poderá ser usado. Ele quebra e desmorona-se sob as pressões da vida como barro na estação da seca".

De momento, Trump está a cair nas sondagens, em grande parte graças a pessoas que estão a perceber que o ódio da supremacia branca cria um ambiente tóxico para todos, envenenando tudo o que estiver ligado a ele, tornando todos monstros.

Em vez de tentarmos recriar uma visão míope do passado, precisamos de pensar em como podemos fazer um futuro melhor. Pensei muito neste sentimento quando Abdullah, Martina e eu finalmente chegámos ao nosso destino final em Washington, DC. Chegámos à cidade de madrugada, quando as ruas estavam completamente vazias e dirigimo-nos directamente à Pennsylvania Avenue 1600 para ver a Casa Branca. Parámos em frente aos portões e olhámos para o prédio que era a fonte de inspiração e decepção para diferentes pessoas que encontrámos ao longo da viagem pelo país.

Foi muito poderoso saber que um negro estava naquele centro do poder, a dormir entre paredes que - como Michelle Obama apontou na Convenção Nacional do Partido Democrata - foram construídas por escravos negros. Também foi triste perceber que não importa como eu me sinto ao ter um presidente negro. A sua presença na Casa Branca não curou o cancro do ódio e do racismo no país. Acabou por ajudar a trazer mais desse ódio para a superfície, como a chuva de Verão que invoca todos os vermes da terra para o cimento. Mas eu sabia, independentemente dos meus sentimentos mistos sobre os seus triunfos e fracassos, que a última coisa que quero é que voltemos atrás. Os EUA não são bons, os EUA nunca foram bons, mas é o que temos e precisamos de continuar a lutar para fazer deste um país melhor.


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