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​Judas Incolor: A saída do PMDB do Governo pode esculhambar Dilma de vez

Aos gritos de ‘Fora PT’, o senador Romero Jucá oficializou nesta terça (28): ‘ninguém no país está autorizado a exercer qualquer cargo federal em nome do PMDB’.
29.3.16

Eduardo Cunha, Romero Jucá e Eliseu Padilha dando o tom da reunião simbólica de rompimento, que durou uns três minutos. Foto: Reprodução/TV Câmara.

Se existia alguma justificativa para Lula tentar assumir o cargo de ministro da Casa Civil, além de ganhar um foro privilegiado para chamar de seu, era (e parece razoável imaginar aqui que talvez Lula nunca venha a ser ministro, e se for, não fará tanta diferença) o "jantarzão do golpe", rega-bofe na casa do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) onde se encontraram lideranças do PSDB e senadores do PMDB para "discutir cenários como o impeachment" e de onde os partidos saíram, segundo o senador Eunício de Oliveira (PMDB-CE), "vão caminhar juntos em busca de solução para o país", em um exercício que mostrou claramente a cor do camaleão político que é o antigo Movimento Democrático Brasileiro.

Se a situação do PMDB com o governo Dilma segue um caminho insustentável desde que Eduardo Cunha assumiu a presidência da Câmara — ou seja, desde o início de 2015 — foi em março deste ano que a articulação entre Cunha, acuado com seus processos na Lava Jato, e o vice-presidente missivista Michel Temer, ambos animados com a possível queda de Dilma, ganhou força.

Eduardo Cunha e Renan Calheiros na convenção nacional do PMDB, no começo de março. Foto por (Valter Campanato/Agência Brasil).

A ala anti-governista do PMDB aproveitou o concerto e levou as queixas para a convenção do partido, que rolou no dia 12 de março. De lá saiu a decisão de que o partido voltaria a se reunir em trinta dias para bater o martelo sobre apear do combalido cavalo governista, e também foi anunciado que qualquer filiado que aceitasse algum cargo no governo durante esse período seria punido — foi o que aconteceu com Mauro Lopes, empossado ministro da Aviação Civil no dia 17 de março e que agora sofre um processo no Conselho de Ética do partido.

Convencida de que o impeachment vai até o fim, a direção do PMDB adiantou a reunião do diretório nacional para esta terça-feira (29). Temer, que estava escalado para um congresso jurídico em Portugal ao lado de Gilmar Mendes, José Serra e Aécio Neves, cancelou a viagem e ficou no país para armar a debandada — na segunda (28) o ministro do Turismo Henrique Alves já entregou o cargo para o governo após reunião com Temer e outros cinco ministros do partido.

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A saída, oficializada por aclamação na tarde desta terça (29) em reunião do Diretório Nacional em Brasília, era tida dentro do estilo PMDB, suave como creme de baunilha. Mas no fim das contas, houve um alinhamento ao grupo de Temer, e o partido, sob a liderança do senador Romero Jucá, aos gritos de "viva o Brasil!' e "Brasil pra frente, Temer presidente!", avisa que "ninguém no país está autorizado a exercer qualquer cargo federal em nome do PMDB", o que inclui ainda cinco ministérios.

Temer não estava presente na reunião que oficializou o desembarque. Os ministros peemedebistas também não compareceram.

A saída vem depois de muito xaveco e presentes do governo, que cedeu, no total, sete ministérios para o partido, em troca de alguma compreensão. De pouco adiantou – com Cunha em pé de guerra declarado, o partido rachou ainda mais durante a complicada corrida ao impeachment que o presidente da Câmara deflagrou no final de 2015. Foi só através de diferentes manobras que o governo conseguiu deixar Leonardo Picciani no comando da legenda na Câmara para tentar enfiar nomes mais leais à Dilma na comissão de impeachment.

O que o Planalto mais tem a temer (sentiu o trocadilho?) não é apenas a saída do PMDB, dolorosa em si, junto com seus 79 deputados — os senadores do partido ainda parecem divididos, e, mesmo depois de confraternizar com o PSDB, Renan Calheiros, líder da legenda na Casa, disse que impeachment sem crime de responsabilidade "tem outro nome" — mas a possibilidade de isso causar um efeito em cascata e levar para a oposição outros partidos médios, como PP e PSD.

A revolta começou assim que o PMDB começou a colocar as asinhas de fora. Primeiro o PSB deixou a postura "independente" e entrou oficialmente na oposição (precipitando a saída de Erundina do partido rumo ao PSOL), e em seguida foi a vez do PRB, ligado à Igreja Universal, abandonar o barco, deixando para trás o Ministério dos Esportes. Agora resta ao governo rearranjar o sem-número de ministérios do PMDB, segurando os cargos ocupados por senadores, e tentar algum sucesso em acomodar a nova base aliada em uma minoria na Câmara. Mais do que aprovar leis e PECs do governo, a tentativa é do Planalto, no fim das contas, tentar garantir os 172 votos no Congresso que livrariam Dilma de um impeachment. Difícil é ter alguma certeza de que a brincadeira dará certo, enquanto a sombra do Jaburu se avulta cada dia mais sobre a cadeira de Dilma.

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