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Sexo

Porque é que as pessoas curtem tanto umas palmadas?

Há anos que a prática sadomasoquista fascina meio mundo, de artistas, a filósofos, ou mesmo investigadores. Portanto, fomos tentar perceber, qual é a piada de dar e receber palmadas?

Por Amanda Arnold
13 Fevereiro 2017, 11:43am

Imagem principal por Waa Stocksy.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Broadly.

Em 1960, o arqueólogo Carlo Maurilio Lerici entrou nas tumbas da antiga cidade de Tarquinia, uma necrópole da refinada civilização etrusca que habitou a Itália antiga, de 800 AC até a assimilação pela República Romana no final do século 4 AC. Além dos corpos, encontrou várias pinturas danificadas que retratavam pugilistas cómicos, dançarinas sexualizadas e, o mais estranho, no que chamaram de Tumba das Chicotadas, havia um fresco no qual uma mulher nua aparecia inclinada a segurar o quadril de um sorridente barbudo, enquanto um homem mais novo chicoteava o seu rabo por trás. Eis, pois, o primeiro exemplo descoberto de "spanking" erótico.

Nos últimos mil anos ou mais, a prática sadomasoquista tem fascinado artistas, filósofos e estudiosos do sexo. No Kama Sutra, Vātsyāyana separou o acto sexual em quatro posições da mão de quem bate, as seis posições em que a pessoa pode estar durante "os golpes" e os oito "tipos de grito" que, quem apanha, pode soltar.


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Trazendo a prática para o reino da psicanálise, Sigmund Freud relacionou o acto com as palmadas na infância, acreditando que o tipo de punição recebida no início da vida poderia levar a preferências sadomasoquistas na idade adulta. Mais recentemente, tornou-se um tema polémico por via de 50 Sombras de Grey, o romance que introduziu o BDSM na cultura mainstream, gerando vários artigos de opinião e posts em blogs questionando o "spanking".

A ciência parece oferecer algumas respostas. Biologicamente, quando uma pessoa desfruta do acto sexual, o cérebro liberta dopamina, um neurotransmissor que estimula os centros de recompensa e prazer do cérebro. Portanto, se alguém gosta de receber ou dar palmadas, a dopamina liberta sinais para o cérebro continuar. Mas, quanto ao motivo para alguém gostar especificamente de "spanking" - o acto de receber um golpe no rabo com a mão ou algum objecto e que algumas pessoas vêem apenas como doloroso - o pensamento é mais complexo e praticamente impossível de detalhar.

Rebecca Plante, professora-associada do Departamento de Sociologia do Ithaca College, lembra que, quando estava a escrever o seu estudo Sexual Spanking, the Self, and the Construction of Deviance, em 2006, apenas existia um outro artigo académico sobre "spanking" erótico (escrito por um gajo de sobrenome Butt). No estudo, o autor chegou à conclusão de que, para entender como alguém vê as palmadas como algo sexual, é preciso considerar "o contexto social maior em que 'a punição corporal sexualizada' tem de ser colocada", escreve Plante.

Basicamente, não há uma razão para alguém gostar, ou não, de "spanking". Além disso, é importante considerar o espectro da prática, segundo Plante. Há o movimento básico de mão no rabo durante o sexo, há a posição inclinada sobre uma cadeira e palmadas com uma vara e outros objectos. Nem toda a gente que gosta de umas boas palmadas durante o sexo vai gostar de um golpe forte com uma vara.

Imagem por Danil Nevsky via Stocksy.

Um dos primeiros pontos que Plante aborda é que, ao contrário do bondage, torturas e outros jogos mais kinky do reino do BDSM, a palmada erótica é uma prática que muita gente que geralmente diria "não curto esse tipo de coisas", aceitaria tentar.

Já no que respeita à questão do porquê de ser uma prática tão popular, tanto entre gente que não se associaria à comunidade BDSM, como entre aqueles que se consideram sadomasoquistas, Plante tem uma razão bem básica que "não pode ser ignorada como explicação": sabe bem. "Estamos a falar de uma região muscular do corpo bastante protegida, na base da coluna, onde ficam vários nervos, por isso é uma região sensível. Não é como o abdómen", justifica.

Plante baseia a sua investigação em guias sexuais culturais, subculturais e interpessoais, uma teoria introduzida nos anos 70 pelos sociólogos John Gagnon e William Simon, que explica "o diagrama sociológico que molda os nossos interesses sexuais". Guias culturais têm a ver com ideologias e expectativas nacionais, subculturais com essas ideologias a um nível local (segundo grupos étnicos e religiosos) e interpessoais com as interações que temos com outros. Essas coisas combinam-se para formar guiass intrapsíquicos, que, no final de contas, respondem ao quem, quê, onde, quando, porquê e como das práticas sexuais e sexualidade do indivíduo.

Na maioria das culturas modernas, os guias culturais padrões erotizam a actividade heterossexual básica. A palmada sexualizada, apesar de frequentemente ser uma atividade heterossexual, caí fora da norma. E, como um todo, Plante descobriu que os homens – especialmente heterossexuais que não tiveram muita experiência no mundo do BDSM – são mais abertos a dar palmadas, mas não necessariamente a receber.

O que não significa que a pessoa não possa desenvolver um interesse pela prática mais tarde na vida. Durante o estudo, Plante descobriu que os homens que gostavam de dar palmadas "tinham esse interesse desde que se lembravam" e consideravam-no algo essencial nas suas vidas sexuais, enquanto as mulheres chegavam ao "spanking" através de um parceiro que sugeria a prática.

"Uma pessoa que tem um guia que diz 'Eu dou o prazer', ou é dominante, provavelmente tira prazer de bater em alguém que tem prazer a receber as palmadas".

"Os guias sexuais são diagramas básicos, sim, mas podem, claramente, ser adaptados e revistos pelo utilizador", escreve Plante. "'Spanking' deveria ser visto como uma das muitas adaptações sexuais que os indivíduos fazem, baseadas em interações e mudanças de guias intrapsíquicos e interpessoais".

Plante vai mais além, para explicar que, não há apenas um guia sexual relacionado com o "spanking", salientando o espectro alargado do spanking e a diferença entre aqueles que gostam de bater e quem gosta de apanhar. Uma pessoa que tem um guia que diz "Eu dou o prazer", ou é dominante, provavelmente tira prazer de bater em alguém que tem prazer a receber as palmadas – provavelmente um submisso. Uma preferência por bater, apanhar, ou não participar da prática representa a orientação da pessoa na sua sexualidade, género e personalidade. Enquanto o "spanking" inclui uma variedade de reacções sexuais a diferentes tipos de palmada, este é um termo chave: nem todo o "spanking" dá o mesmo tipo de prazer, às vezes nenhum.

Mas o que Plante enfatiza é que, só porque o "spanking" é uma prática BDSM que se tornou mais normalizada e aceite, não é algo de que toda gente goste, ou de que todos se deveriam sentir obrigados a gostar. Apesar de ser positivo que o fetiche tenha perdido um pouco do seu estigma, através de coisas como 50 Sombras de Grey, não é algo que tenha de estar obrigatoriamente no guia de todas as pessoas.

"A base da nossa sexualidade é que podemos ficar confortáveis com ela e com a sua mudança durante as nossas vidas, mas que nunca devemos sentir-nos coagidos, ou obrigados, a fazer algo ou não", conclui Plante.


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