Vibradores grandes podem assustar os homens, mas são muito bons mesmo
Arte por Zoë Ligon.
Sexo

Vibradores grandes podem assustar os homens, mas são muito bons mesmo

Como aprendi a parar de me preocupar e amar minha Magic Wand.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
27.10.17

Dois anos atrás, eu finalmente estava transando do jeito que sempre quis — com uma Magic Wand de 6 mil RPM vibrando no meu clitóris. Infelizmente, meu êxtase teve vida curta. Meu parceiro na época ficava reclamando do brinquedo erótico em formato de microfone. Ele disse que a cabeça do aparelho fazia a pélvis dele doer. Ele reclamava que só algumas posições funcionavam para ele. E mesmo sendo sen-sa-ci-onal pra mim, ele achava que isso distanciava o corpo dele do meu. Desistir do vibrador significou voltar ao sexo desconfortável que eu fazia para alegria dos machos cis, que raramente se preocupavam com meu prazer e não queriam ter nada a ver com vibradores gigantes. E eu, uma dona de sex shop, estupidamente tolerava isso.

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Claro, não sou a única mulher que teve que lidar com isso num relacionamento com um cara. Comecei a vender brinquedos eróticos quando tinha 21 anos. Agora tenho 25. E mulheres cis sempre me perguntam: "Você tem algo desse tamanho" apontando para pequenas balas vibradoras, "mas com potência daquele ali?" gesticulando para uma Magic Wand. Todas preferiam os vibradores pequenos em vez dos grandes, porque como minha amiga Dirty Lola, educadora sexual e gerente da SHAG no Brooklyn, aponta: "Vibradores, especialmente os grandes, tendem a fazer brotar a ira dos homens cis… Tudo ligado à insegurança e falta de conhecimento. Os homens têm esse medo irracional de qualquer coisa que percebam como melhor — o que aos olhos deles significa maior que seu pau — em dar prazer à parceira".

Há anos venho dizendo para minhas clientes: "Sim, você pode usar um vibrador com o parceiro", e "Não, você não vai ficar 'viciada' no seu vibrador e nunca mais querer ver um pinto de novo". E mesmo assim, quando chegava em casa, eu acabava desistindo pelas mesmas trepidações. Amantes mais aventureiros podiam me amarrar em cima de um vibrador, ou usá-lo como recompensa depois de uma brincadeira muito sádica. Mas acrescentar o vibrador no meu clitóris enquanto eu estava sendo chupada ou fazendo sexo penetrativo? Minha mente não ia tão longe.

Isso porque, como Lola aponta, quando você tenta introduzir o vibrador para alguns homens de mente mais fechada, "tem sempre um pouco de vergonha envolvida. 'É tão grande! Você precisa mesmo disso?' E depois você tem as perguntas idiotas que eles fazem com uma risada constrangida, tipo 'Então você coloca isso tudo lá dentro?' Isso pode brochar totalmente a parceira e arruinar a experiência…"

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Claro, eu não ajudava em nada aceitando as condições do meu então parceiro. Pensando nisso agora, parte do problema era meu conceito estreito de sexo. Mesmo como uma profissional mais conscientizada na indústria erótica, eu definia sexo estritamente como pênis na vagina (PV). Mas na realidade, essa é a noção do homem cis de sexo, que não funciona para a maioria das mulheres porque o clitóris fica fora da vagina. Sou uma entre mais de 75% de mulheres que não conseguem gozar só com a penetração. Quando adotei a percepção da maioria dos homens de "sexo bom", desisti da oportunidade de encontrar a minha definição e realmente sentir prazer.

Arte por Zoë Ligon.

Uma grande parte dessa aceitação do PV era que eu queria fazer os caras se sentirem bem consigo mesmos, para que eles me quisessem e eu me sentisse amada. Enquanto acontecia raramente de eu gozar com um parceiro quando ele estava me chupando, a realidade é que muitas das vezes, como 80% de todas as mulheres, eu simplesmente fingia. Isso era especialmente verdade durante o coito PV.

Quando eu "gozava" durante o sexo PV, era mais forçando o assoalho pélvico, como se estivesse empurrando um cocô. Aí meu corpo tinha aquela sensação de ondulação interior que diminuía com a minha excitação. Hoje em dia, ouço minhas clientes usarem quase a mesma linguagem que eu usava para descrever um clímax sexual pré-orgasmo, nunca alcançando o topo da montanha e caindo num prazer menor. Como eu também fiz, elas escolheram colocar uma cara feliz e desfrutar dos elementos mais psicológicos da penetração em vez de atingir aquela sensação profunda, uterina que você consegue com um vibrador.

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A razão para a Magic Wand conseguir criar orgasmos tão intensos é porque seus motores potentes proporcionam vibrações sem paralelos. Esses motores grandes são a razão para o tamanho, que contrasta tanto com o de vibradores menores e em formato de bala.

Você pode rastrear a tecnologia dos vibradores que usamos hoje de volta ao século 19, quando os aparelhos originais foram patenteados. Sem surpresa, os vibradores surgiram como uma ferramenta do patriarcado, com um propósito particularmente misógino. Médicos homens desenvolveram o aparelho para "aliviar a histeria", uma condição inventada usada para infantilizar e controlar mulheres. Claro, as mulheres amaram os vibradores, mas sua atração por essas primeiras máquinas sexuais não era vista como uma forma de liberação — era uma confirmação de sua "condição médica" comprometida.

Depois da Grande Depressão, vibradores entraram para o mainstream. Mas foi só no final dos anos 60 que a Norelco criou um massageador cor de mostarda e a Hitachi criou sua icônica Magic Wand. As pessoas adoraram o estilo do brinquedo erótico porque era muito menos complicado que os modelos anteriores, que pareciam secadores de cabelo steampunk ou trambolhos de metal amarrados na sua mão.

A autora e sua Magic Wand.

O fato de que esses vibradores continuam no mercado, quase sem mudanças no design 50 anos depois, é um testemunho de quão incrível as pessoas se sentem com eles. Acho bastante irônico que um aparelho criado por homens para fazer as mulheres relaxarem agora é um monstro para eles, instilando medo de que seu pênis será eclipsado por sua grandeza.

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Mas há métodos para conseguir que um cara supere a fobia de vibradores. Segundo a educadora sexual e autoproclamada Rainha dos Vibradores, Carly S., um jeito fácil de familiarizar os caras com o mundo dos vibradores é lembrá-los que aqueles brinquedos menores, que todo mundo acha que são para casais, na verdade são "mais difíceis de manusear". Vibradores estilo Magic Wand são mais fáceis de segurar e controlar. Os caras também precisam ser lembrados que a penetração não é a única opção. "Achar que esse vibrador grosso e longo pode entrar numa mulher pode ser incrivelmente [broxante] para os caras", ela diz. Em vez disso, mostre a ele "como o vibrador pode ser prazeroso e versátil".

O pornô também é uma boa maneira de aclimatar o pessoal. "Tem muitos pornôs onde os homens usam um vibrador nas mulheres, e eles se divertem muito!", diz Carly. Se eles não "sacam" os vibradores, tente usar um neles. "Você coloca o vibrador embaixo da cabeça do pênis, é incrível. Quando os homens percebem o potencial de prazer, eles parecem mais dispostos a tentar."

O que me ajudou a ir de "Eu não deveria impor isso na intimidade com o meu parceiro usando um vibrador", para finalmente ser dona da minha própria sexualidade, foi conhecer um cara que se importava mais com o meu prazer que com seu ego.

Depois que meu relacionamento com o cara que odiava vibradores terminou, dei um tempo em paus de carne e nas bobagens que vêm com eles. Mas quando voltei aos pênis recentemente, decidi tentar algo diferente desde o começo. A primeira vez que fiquei com meu novo amante, eu disse de cara: "Preciso disso para gozar. Podemos transar, mas quando for minha vez de gozar, esse é o jeito certo de fazer". Entreguei para ele o bom e velho Doxy rosa, que pode chegar a 9 mil RPM. Esse é meu outro vibrador favorito, e é ainda maior que o Hitachi.

Diferente de amantes anteriores, isso não foi problema para ele, que curtiu porque eu estava curtindo. Garantir com confiança suas necessidades pode não transformar um cara inseguro no rei do vibrador, mas quando você encontra a pessoa certa, pode fazer toda a diferença. Sexo com esse parceiro ocasionalmente envolvia PV, mas o vibrador sempre fazia uma aparição especial. Às vezes o vibrador roubava a cena, mas ele nunca se importou. Às vezes eu gozava e ele não. Às vezes ele gozava e eu não. Às vezes nenhum de nós gozava. De qualquer maneira, era sempre bom porque nunca era uma coisa unilateral.

Nosso relacionamento acabou durando pouco, mas me ajudou a passar para o outro lado. Descobri como pedir minha necessidade de vibrador, e percebi que o que acho sexualmente atraente num parceiro homem é seu desejo de me dar os melhores orgasmos.

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