A beleza das travestis brasileiras quebra padrões
Identidade

A beleza das travestis brasileiras quebra padrões

Do barbear em frente ao espelho até as unhas dos pés sendo pintadas, a carioca Ana Carolina Fernandes clicou momentos preciosos.
27.9.18

No ensaio fotográfico Mem de Sá, 100, a carioca Ana Carolina Fernandes documenta o dia a dia de uma comunidade de travestis em um casarão na Lapa, na região central do Rio de Janeiro.

A ideia do projeto surgiu 11 anos antes da realização do mesmo, quando Ana Carolina conheceu Luana Muniz, a “Rainha da Lapa”, dona do casarão onde alugava quartos para outras travestis morarem e, eventualmente, fazerem programas, uma vez que todas as meninas eram prostitutas. No período em que se conheceram, a fotógrafa trabalhava em um jornal diário, sem horário fixo, não sendo, então, o melhor momento para se dedicar a um trabalho autoral que exigiria um envolvimento maior. “Eu e Luana ficamos amigas e ela sempre me dizia que as portas de sua casa estavam abertas para mim”, lembra Ana Carolina.

No final de 2010, quando já não trabalhava mais no jornal, a fotógrafa reencontrou Luana por acaso e retomaram a ideia do ensaio, que teve início em abril de 2011.

“Cheguei ao casarão sem nenhum julgamento ou moralismo e só comecei a fotografar depois que elas passaram a ter confiança em mim, o que aconteceu muito rápido”, conta.

Já na primeira foto estabeleceu-se a cumplicidade e a confiança que as seguiriam no decorrer do trabalho. “Luana e eu tomávamos café e conversávamos quando Fabiana passou e cruzou os braços. Ali, tive a certeza de que queria mostrar a beleza e a sensualidade de corpos ao mesmo tempo femininos e masculinos”, menciona a fotógrafa, que, nessa foto, pediu a Fabiana para fotografá-la sem mostrar seu rosto e ela topou.

Dessa forma, além de dar voz a esse grupo de mulheres colocadas à margem da sociedade, o objetivo foi lhes dar um corpo belo e sensual, mas, principalmente, instigar pessoas acostumadas a pensar o mundo e a sexualidade a partir de padrões pré-estabelecidos a refletirem.

Ana Carolina conta que, durante o período em que fotografou dentro do casarão, tudo foi acontecendo naturalmente, de acordo com seu estado emocional. “Às vezes, sentia que não ia render e ia embora, outras vezes, ficava oito horas fotografando direto. Ia três vezes em uma mesma semana, assim como passava mais de um mês sem ir”, lembra.

Nesse universo vasto e particular, Ana Carolina foi muito bem recebida desde o começo, e acredita que isso se deva ao fato de ser mulher e também por ter se mostrado muito à vontade, respeitando as que não queriam ser fotografadas ou as que queriam estar "montada" para a foto. “É com respeito que se deve se comportar em qualquer lugar onde se é convidada, sobretudo para fotografar livremente’, explica.

São pessoas em sua intimidade diária, corpos transitando na casa onde moram, recortados pelo olhar caloroso de Ana Carolina, que, nesse trabalho, encontrou também uma causa de vida, pois, desde então, nunca deixou de fotografar o universo e a causa das travestis.

Luana Muniz, dona do casarão, acreditava que o trabalho de Ana Carolina havia contribuído para que ela pudesse se posicionar na luta pelos direitos básicos dos LGBTs, como, por exemplo, o nome social, que, atualmente, é uma obrigação, fato que emocionava a fotógrafa.

A amizade entre Luana e Ana Carolina se tornou algo muito forte. Luana morreu em 2017. Mas, além das fotos, Ana Carolina tem outra lembrança. Na passagem de 2016 para 2017, ela ligou para Luana e disse que iria até o casarão desejar feliz ano novo a todas as meninas. E foi.

Mais fotos da Ana Carolina Fernandes no Instagram.

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