Sociedade

O difícil percurso de um jovem soldado vegan no exército espanhol

"É como se fosses um extraterrestre".
8.1.18
Um membro das Forças Armadas a inspeccionar um local em Guadalajara. Héctor Montufo/EPA

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma VICE News em espanhol.

"Ser vegan no exército é duro, é como se fosses um extraterrestre; os teus camaradas passam-se, não entendem e os teus superiores colocam até a hipótese de que te cause alguma espécie de debilidade ou dificuldade em cumprires as tuas obrigações profissionais", explica Vicente* à VICE News, um soldado vegan que utiliza este pseudónimo para evitar que as suas declarações lhe valham repreensões no seio das Forças Armadas de Espanha (FAE).

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Vicente está há oito anos no exército espanhol e adora o que faz. "Nunca me neguei a nada e sempre me destaquei como bom soldado devido à minha atitude, em provas físicas…", garante. Um historial que, agora, choca com as suas convicções éticas. Para este militar do exército, as opções morais e a sua forma de vida "parecem cada vez menos compatíveis" com o seu trabalho.

Os problemas começaram há três meses, quando decidiu abster-se definitivamente de comer produtos de origem animal. "Até essa altura era vegetariano, mas decidi dar este passo, porque sou contra os maus tratos de que os animais são vítimas para que se produzam alimentos", explica.


Vê: "A síndrome do Iraque no exército espanhol"


O verdadeiro problema, detalha o jovem vegan, não ocorre no dia-a-dia. "Nunca como no quartel, vou sempre a casa, portanto, o problema dá-se quando tenho de ausentar-me para manobras e esse tipo de eventos", justifica. A primeira saída para a realização de exercícios tácticos depois de ter renunciado ao consumo de produtos de origem animal foi "bastante dura". "Antes de arrancarmos fui falar com o meu superior e disse-lhe que tinha um problema, que era vegan e que queria saber se, durante aqueles dias, me conseguiam oferecer uma alternativa ao menu habitual. Disse-me que iria consultar e o pedido acabou por chegar a um tenente-coronel", relata. Todavia, a resposta não apresentou qualquer solução.

O tenente-coronel sugeriu que, se o soldado quer outro tipo de comida, deveria apresentar uma declaração médica, ou solicitar um menu para muçulmanos. "Porque é que se se respeitam as crenças religiosas, como as da comunidade muçulmana, adaptando os menus a essas crenças, não se aplica o mesmo tratamento quando se trata de uma opção moral?", lamenta o militar.

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Jorge Sadaba, presidente da Unión de Militares de Tropa (UMT), é da mesma opinião. Consultado pela VICE News em relação ao caso concreto de Vicente, sublinha: "É uma opção que deve ser respeitada, porque é um direito constitucional [em relação à não discriminação, tal como estabelece o Artigo 14] e porque assim dizem as normativas militares". Sadaba refere-se ao Artigo 185 das "Reales Ordenanzas", de 1978, e ao Artigo 73 do Decreto Real 96/2009, que estabelecem que nenhum membro das FAE poderá ser objecto de discriminação por razões de sexo, ideologia ou religião.

De resto, o Articulo 4 da Lei dos Direitos e Deveres das FAE estabelece também que, nas Forças Armadas, "não há lugar a qualquer discriminação por razões de nascimento, origem racial ou étnica, género, sexo, orientação sexual, religião ou convicções". Contudo, não existe qualquer regulamento específico sobre a forma de garantir a não discriminação e, consequentemente, não há forma de assegurar que se dê cobertura às necessidades especiais de alimentação doas diferentes comunidades, como a dos militares muçulmanos. Esta comunidade recebe um tratamento especial, graças a uma espécie de ordem catalogada como mensagem não classificada, que, a dada altura, foi distribuída por todas as unidades das FAE, informando-as que deveriam ofereceu um menu adaptado àqueles que a requeiram por professarem esta fé.

O presidente da UMT assegura que, ainda que o exército costume aceder a este tipo de solicitações, no caso de Vicente uma das melhores vias para se fazer ouvir depois de ter recebido respostas negativas por parte dos seus superiores, passa por levar o caso a alguma das várias associações dos profissionais militares. Estas organizações, como a própria UMT, encarregam-se de fazer chegar as questões que afectam a vida pessoal dos militares ao Conselho de Pessoal das Forças Armadas.

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"Não se podem reconhecer direitos relativos à orientação religiosa e, ao mesmo tempo, não atender àqueles que têm a ver com convicções laicas", acrescenta Sabada, que considera que dar resposta ao caso de Vicente é uma questão de previsão e não uma questão económica, porque "não há que supor que haja um custo adicional".

No entanto, nem todas as associações profissionais têm a mesma opinião. Antonio Martínez, presidente da Asociación de Militares de Tropa y Marinería (AMTM), afirma que nunca tinha tido conhecimento de qualquer caso semelhante ao de Vicente. Neste sentido, argumenta que é muito difícil atender a todos os pedidos de todos os militares e recorda que, neste âmbito, não há lei ou norma militar que regulamente de maneira expressa os direitos dos soldados em relação à sua "orientação moral" e aos pedidos ou necessidades associadas a essas convicções.

Além disso, Martínez considera que um pedido com estas características deveria ser dirigida directamente ao pessoal da cozinha. Nas manobras fora do quartel, a função de cozinheiro é assumida internamente por pessoal militar. Vicente alargou também o seu pedido ao serviço de cozinha durante esses dias de manobras.

"Disse-lhes para não me meterem molho na massa, que me separassem o arroz, mas perguntaram e disseram-lhes que não havia nada que os obrigasse a fazê-lo, nada que os obrigasse a preparar uma refeição para um vegan como eu", recorda Vicente.

E reconhece: "Cheguei a sentir raiva". Vicente, que acabou por levar consigo algumas provisões, como bolachas e verduras, tinha que colocar-se na fila para lhe servirem a refeição, mas, ou a dava a algum dos seus camaradas que queria repetir, ou tentava trocar vegetais e pão por carne, ovos e outras coisas que não come. "Havia quase sempre alguém que vinha ter comigo e me dava parte das suas reservas", afirma. O problema, conclui, é que se a situação continua, Vicente vê o seu caminho futuro no exército como praticamente impossível.


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Luis Gonzalo Segura contribuiu para a elaboração deste artigo.

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