Viagens

Sair com lutadores de sumo quase me matou

Curtir como uma estrela rock não é nada. Curtir como um lutador de sumo é muito mais do que possas imaginar.

Por Robin Black; Como contado a Graham Isador
22 Janeiro 2018, 4:14pm

Cortesia de Shutterstock / Munchies.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Estou deitado com a cara no chão numa casa-de-banho de hotel em São Petersburgo, Rússia. O vinil barato da casa-de-banho cola-se à minha testa e dói-me o corpo todo. Como nunca antes me doeu. Pelo canto do olho consigo ver uma poça do meu próprio mijo, bastante amarelo, lentamente a aproximar-se do meu queixo. Tento levantar-me, mas as minhas pernas estão fracas. Caio na banheira e vomito. Uma tentativa de tomar banho é interrompida quando percebo que a água a cair na pele é como agulhas a serem espetadas por debaixo das minhas unhas.

Hoje vou ficar a cheirar mal, mas não importa. Agarro na camisa suja mais limpa que tenho na mala, antes de me aventurar a descer ao lobby do hotel, à espera de encontrar alguma coisa para combater a ressaca ou, no mínimo, algum hidrato de carbono que entupa a minha vergonha. Saio do quarto e a luz fluorescente do corredor atinge-me nos olhos. A minha dor de cabeça intensifica-se instantaneamente, um solo de bateria arrítmico dentro do meu crânio. A dor é tanta que, quando vejo o meu corpo nem sei se é real ou não.


Vê: "O que é preciso para ser um Campeão Mundial de Sumo"


No chão do corredor está o maior ser humano que já vi na vida real. O homem deve pesar na boa uns 180 quilos. Está deitado de costas, os membros prostrados, a barriga a aparecer por debaixo da camisa. O homem está inconsciente e a soltar pequenas respirações entre roncos de trovão.

Estou prestes a tocar-lhe, talvez na barriga, para ter a certeza que não é uma alucinação, quando, perto do elevador, vejo outro corpo ainda maior que o do gajo aos meus pés. O homem está caído e mergulhado num sonho estranho. De repente, rebola para o lado e vejo outros dois tipos, (ligeiramente) mais pequenos, também deitados. Como se fosse uma versão gigante das bonecas russas. Com a cabeça a latejar, tento entender o que está a acontecer.

Os quatro homens no chão são lutadores de sumo. O dia anterior foi o último de uma competição do World Combat Games. Na festa de encerramento muitos dos lutadores beberam quantidades heróicas de álcool. Os gajos à minha frente devem ter desmaiado quando tentavam entrar nos seus quartos. Nenhum deles foi suficientemente forte para mover o seu peso morto.

Alguém no corredor solta um peido. Enquanto tento escapar do cheiro começo a lembrar-me da noite anterior. Tentei acompanhar o ritmo de copos de homens com literalmente o dobro do meu tamanho, comi mais comida do que pensava ser fisicamente possível e ataquei carros estacionados na rua, qual Don Quixote pós-moderno. Quando chego ao fim do corredor a minha dor de cabeça intensifica-se - mais uma vez - e vomito. Saí com lutadores de sumo e quase morri.

Na verdade, a minha aventura com os lutadores de sumo começou como uma viagem de trabalho. Fui destacado pela estação de televisão por cabo onde trabalho para cobrir o World Combat Games. Foi o meu primeiro trabalho pago como analista de artes marciais e estava determinado a mostrar o meu valor.

Nos meses que antecederam o evento, dediquei a minha vida a estudar a beleza da luta competitiva. Passei horas a aprender a pronúncia correcta dos nomes dos atletas. Foram dias colados ao ecrã de um computador a ver centenas de vídeos de técnicas. Li livros que debatiam as origens ancestrais da luta "belt-and-jacket", experimentei estratégias de pontapé alto na minha sala e aborreci a minha mulher quase até à morte com estatísticas de jiu jitsu. Ainda assim, nada poderia ter-me preparado para o espectáculo puro do sumo.

A um nível conceptual, sabia que os lutadores de sumo eram grandes. Mas, até veres um Rikishi em pessoa, não fazes ideia do quão gigantescos e fortes estes atletas realmente são. Sob as camadas de gordura de cada competidor há poder corporal e velocidade. Quando uma luta começa, os lutadores disparam como balas a sair de uma arma.

O seu agarrar intenso seria suficiente para esmagar um humano normal, mas estes gigantes entregam-se com precisão e estratégia à mais violenta das danças. A aura que rodeia as lutas de sumo é eléctrica. A arena vibra com excitação, indo do silêncio de antecipação, às comemorações ensurdecedoras à medida que a competição avança. Os lutadores são tratados como estrelas rock e nenhuma estrela é maior que Byamba.

Byamba é duas vezes campeão mundial de sumo. Aparece em Ocean's 13. Apareceu em America's Got Talent. A VICE já fez o seu perfil para um episódio da série Fuel. Na verdade, se viste um lutador de sumo na televisão na última década, provavelmente era Byamba. Naquele dia, o campeão foi totalmente dominador na sua performance. Os seus combates acabavam em segundos, os opositores atirados com facilidade para fora do ringue.

Na assistência aos comentadores, pareço uma criança, a rir empolgado enquanto testemunho este mestre a levar a cabo a sua arte agressiva. Quando recebeu a medalha, todas as pessoas no ginásio estavam de pé. Naquela noite, a festa teve lugar no nosso hotel. O meu plano era simples: ia apertar a mão a Byamba, dar-lhe os parabéns por um trabalho bem-feito e deixar o homem em paz para a sua comemoração tão merecida. Mas Byamba tinha outros planos.

Quero deixar aqui uma nota em jeito de prefácio, para esclarecer que, naquela noite, eu estava muito, muito bêbado. Provavelmente mais atordoado que nunca, o que é muito, tendo em conta que passei mais de uma década a tocar numa banda glam e uma vez passei três dias seguidos em festa com Nikki Sixx. Apesar de não saber se esses fatos se sustentariam num tribunal, e as coisas aumentam ou encolhem dependendo de quando reconto o evento, sei no meu coração que o tom geral do que estou prestes a dizer é verdade. Vou chamar de não-ficção bêbada. A versão blockbuster do que aconteceu.

Quando cheguei ao bar, Byamba estava agarrado a uma corda de linguiças. Na outra mão tinha uma garrafa de vodka Russian Standard. Aproximei-me do campeão. O homem apontou na minha direcção. Outro lutador de sumo pegou num sinal de reservado de uma mesa (os sinais de reserva de mesas russos têm o formato de um chapéu de burro) e arrancou a ponta para criar um funil improvisado. De repente o funil estava na minha boca. Byamba riu-se e despejou meio litro de vodka directamente na minha garganta. Era o início das festividades e eu já estava destruído.

Depois disso, como grupo, cambaleámos para outra parte do bar. À minha frente, uma mesa enorme: pernil de porco, chucrute, sopa, montanhas de linguiça e pão. Byamba fez uma pilha no seu prato e gesticulou para eu fazer o mesmo. Toda a gente puxou uma cadeira. À cabeceira da mesa - na noite em que ganhou uma medalha -, Byamba queria que todos tivessem lugar lugar. O campeão era humilde e engraçado. Impossível não gostar dele. A sua mensagem era simples: com a equipa certa e o treino certo, toda a gente pode atingir a grandeza. Quando lhe pedi para falar sobre essa ideia, bebeu mais vodka e acabou o meu prato. Engoli uma dúzia de linguiças e bebi pelo menos outro meio litro de vodka. Comi chucrute até os meus poros vazarem vinagre. Com o volume de consumo, comecei a acreditar que, também eu, poderia ser um lutador de sumo. Decidimos testar a teoria no estacionamento.

Bem, já fiz muita merda nesta vida. Mas, posso dizer com certeza absoluta, que enfrentar lutadores de sumo profissionais num estacionamento de um hotel russo foi uma das maiores. Byamba oficializou o evento. Explicou-me que o homem contra qual eu competiria pesava uns meros 113 quilos. Cento e treze. Isso dá 45 quilos a mais que eu? Eu consigo. O que Byamba se esqueceu de me dizer foi que o meu oponente também era, por acaso, o campeão mundial de sumo peso-médio. Abastecido por adrenalina e álcool, estava prestes a fazer sparring contra o meu oponente, com espectadores por todo o lado.

Colocámos as mãos no chão, o que significa o arranque da luta. Byamba gritou alguma coisa e disparei o mais rápido que consegui. Chocar contra o corpo do lutador foi como atingir um enorme pedregulho. Empurrei. Agarrei. Tentei levantar uma perna. Nada do que fazia tinha qualquer efeito. Depois de uns 15 segundos, o campeão de sumo peso-médio atirou-me ao chão com uma risada jovial. Bati no asfalto com força e ouvi um som de algo a estalar nas minhas costelas. Para aliviar a dor, alguém decidiu dar-me mais vodka.

Byamba disse-me que, para primeira vez, tinha ido bem. Perguntou-me depois se queria ver o que os lutadores de sumo realmente fazem. Temi estar a entrar noutro round e abanei a cabeça, mas nessa altura já ninguém estava a prestar atenção. Os lutadores viraram os seus copos e começámos a empurrar os carros no estacionamento, como uma pessoa normal empurra um carrinho de supermercado. Tentei fazer avançar um de tamanho médio, mas as minhas costelas doíam demasiado. Para compensar, fui à procura de mais bebida, mas tinha acabado. Por isso os lutadores de sumo decidiram saquear um restaurante nas proximidades.

Na melhor das hipóteses, a aparição de 30 pessoas sem reserva num restaurante é sinónimo de caos. Mas, quando pensas que a maioria dessas 30 pessoas são lutadores de sumo, transforma-se num completo pandemónio. A comida apareceu do nada e foi consumida tão rapidamente como antes. Começámos uma competição improvisada de agarranços e caímos sobre as mesas. Quando a bebida não estava a ser servida suficientemente depressa, um dos lutadores foi ao bar, pegou num barril de cerveja e saiu pela porta. A última coisa de que me lembro antes de apagar é de Byamba a tirar fotos com os funcionários do espaço.

A minha ressaca daquela noite durou umas duas semanas. Seguiu-me da Rússia até ao Canadá e, se tossia com um bocadinho mais de força as costelas ainda me doíam. Até hoje o cheiro de Russian Standard dá-me vontade de sorrir e vomitar ao mesmo tempo. Enquanto a memória da noite está queimada a ferros no fundo do meu crânio, todas as provas do evento perderam-se para sempre, juntamente com o meu telefone, num qualquer beco de São Petersburgo. Mas, o que posso dizer com certeza é o seguinte: depois daquela noite, sempre que ouço alguém usar a expressão “curtir como uma rock star”, não consigo deixar de me rir na cara da pessoa. Curtir como uma estrela rock não é nada. Curtir como um lutador de sumo é muito mais do que consegues imaginar.

Robin Black é comentador de MMA. @robinblackmma.

Detalhes das próximas aparições de Black podem ser encontradas aqui.

Graham Isador embebada-se com meia taça de chardonnay: @pressgang.


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.