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Mulheres jornalistas e políticas recebem ofensas no Twitter a cada 30 segundos

Um estudo da Amnistia Internacional, supostamente o maior alguma vez feito sobre o tema, examinou o abuso que as mulheres sofrem online.
mulheres a olharem para os telemóveis

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Foram várias as vezes, ao longo da minha carreira, em que tive que desligar o telemóvel para que não aquecesse demasiado com o fluxo constante de notificações do Twitter - todas a destilar veneno contra qualquer coisa que eu tinha escrito, a maioria delas com insultos contra as mulheres. Tenho uma pasta separada para "e-mails de ódio". Tenho-os ali arrumadinhos (para o caso de alguém duvidar de que os recebo, ou não acreditar que contêm ameaças reais), mas as mensagens e as menções do Twitter continuam a chegar aos magotes.

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Um novo estudo da Amnistia Internacional descobriu que as mulheres - especialmente, políticas e jornalistas - receberam tweets abusivos a cada 30 segundos em 2017. Se isso soa a muito, garanto-te que também é muito para quem os recebe.


Vê: "Margaret Atwood sobre aborto, Twitter e prever tudo o que estamos a fazer mal"


Este estudo é suposto ser a análise mais extensa alguma vez feita sobre o abuso online a mulheres. A Amnistia Internacional e a empresa de software de Inteligência Artificial, Element AI, recrutaram 6.500 voluntários, de 150 países, para analisarem 288 mil tweets enviados a 778 mulheres, jornalistas e políticas, no Reino Unido e nos EUA. As jornalistas da amostra trabalhavam em publicações muito diversas, como o Daily Mail, o New York Times, o Guardian, o Sun, GalDem, Pink News e Breitbart. A investigação descobriu que mais de um milhão de "tweets abusivos ou problemáticos" tinham sido enviados às mulheres da amostra ao longo daquele ano - uma média de um a cada 30 segundos.

A Amnistia e a Element AI dividiram os tweets em dois tipo: "abusivos", os que violavam as regras do próprio Twitter e promoviam violência e ameaças com base na raça, sexo e outros factores; e os "problemáticos", que definiram como "hostis e ofensivos, especialmente se repetidos a uma pessoa em múltiplas ocasiões, mas que não chegam necessariamente ao nível de abuso".

Concluíram também que as mulheres negras tinham 84 por cento mais probabilidades de serem mencionadas em tweets abusivos ou problemáticos e que o abuso é bipartidário: liberais e conservadores, mulheres tanto de empresas de media ou de partidos, quer de esquerda quer de direita, enfrentam intimidação.

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A Amnistia Internacional já afirmou anteriormente que o Twitter recusou os seus pedidos para que reportasse a violência na sua plataforma. "Como empresa, o Twitter está a falhar na sua responsabilidade de respeitar os direitos das mulheres ao, de forma inadequada, não responder nem investigar a violência e o abuso de forma transparente", escreveu a organização em Março, no seu estudo "Toxic Twitter", que incluía uma visão geral sobre como as pessoas usam e são abusadas na plataforma, assim como comentários de utilizadores importantes.

Em Setembro, numa audiência perante o House Energy and Commerce Committee dedicada à censura de conservadores, a congressista Diana DeGette citou o estudo "Toxic Twitter" da Amnistia Internacional e pressionou Jack Dorsey, CEO da plataforma, ao perguntar-lhe se a sua empresa tinha dados demográficos sobre abuso. "Temos dados sobre todas as violações encontradas na plataforma e o contexto das mesmas", respondeu Dorsey. E acrescentou: "E tencionamos, como iniciativa deste ano, criar um relatório de transparência para que esses mesmos dados sejam públicos, para que todos possamos aprender com eles e possamos ser publicamente responsabilizados".

Na semana passada, o Twitter e Dorsey parecem ter cumprido essas promessas e a empresa publicou o Relatório de Transparência bianual - desta vez incluindo estatísticas detalhadas sobre denúncias e cumprimento das regras do Twitter. Mais de seis milhões de contas foram denunciadas devido a possível incumprimento das regras entre Janeiro e Junho de 2018, segundo o relatório, das quais 5.461 foram denunciadas por conhecidas entidades governamentais.

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A minha experiência pessoal de abuso online não é única e está muito longe de ser a pior coisa maligna que as mulheres recebem online. As mulheres falam sobre o quão mal são tratadas na Internet a toda a hora, por isso poucos de nós deviam surpreender-se com estes novos dados.

Muitos, se não a maioria, dos jornalistas que cobrem a cultura tóxica online são mulheres, cujos salários são mais baixos do que os dos seus colegas homens. O facto de ainda aqui estarmos, a reportar sobre esta merda, é prova da tenacidade das jornalistas. Mas, não devíamos ter que lidar com isto para podermos fazer o nosso trabalho.

Pelo menos, agora, temos alguns números como prova.


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