Colagem: Marta Parszeniew

A grande actualização da cultura lésbica e a entrada definitiva no mainstream

É assim que as pessoas heterossexuais se sentem sempre? É surpreendente que consigam sequer funcionar.

Por Daisy Jones; ilustração por Marta Parszinew; Traduzido por Madalena Maltez
|
10 janeiro 2019, 3:04pm

Colagem: Marta Parszeniew

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Não sei como era a cultura lésbica nos anos 2000, porque estava ocupada a fazer cosplay de heterossexual, mas se me pedisses para desenhar a minha ideia, provavelmente teria feito uma mulher de cabelo curto, jardineiras de ganga e sandálias "à turista" (eu sei, mas continua comigo, não te vás já). No entanto, à medida que os anos foram passando, talvez mencionasse The Real L Word, mostrasse uma foto da Ellen e da Portia De Rossi, ou um livro da Sarah Waters. Claro que havia muitas mais coisas – muitas mais –, mas era preciso procurar, ou pelo menos eu tive de procurar. Não sentia que houvesse muitos marcos culturais a que me agarrar. A cultura lésbica não era exactamente mainstream.

Hoje, todavia, a cultura lésbica é totalmente diferente. Ou, mais especificamente, nos últimos anos a cultura lésbica atualizou-se e expandiu-se para algo tangível, em vez de existir apenas em facções de nicho. A cultura lésbica actual é Villanelle a ameaçar Eve com uma faca. É a luva de Carol. É o elenco todo de Ocean's 8, mais os figurantes. É o cuspo de Rachel Weisz. As ex-namoradas de Cara Delevingne. Os vídeos de Janelle Monae. É a Chloë Sevigny com um machado a descer lentamente as escadas em Lizzie. São maçãs do rosto definidas, coletes e cabelo preto penteado para trás. Os fatos de Blake Lively. É convidares a tua ex para almoçar num restaurante vegan. É voltar a ver Duck Butter. E a Cate Blanchett, claro.


Vê o primeiro episódio de "Slutever"


A cultura lésbica pode ser muito bem resumida pelo tweet abaixo, “re-imagine Coachella”, de Jill Gutowitz, que rodou pela internet a semana passada e que inclui referências que, aos olhos de um qualquer cidadão comum, vão parecer aleatórias, mas que têm uma linha lésbica invisível que une tudo, tal como Hideko é amarrada em A Criada.

Antes de mais, no caso de, sei lá porquê, não seres lésbica, vou explicar algumas destas referências:

O cuspo de Rachel Weisz

Desobediência (2018) é um filme sombrio, que consegue fazer o norte de Londres parecer ainda mais deprimente do que já é. Mas acontece que entram lésbicas, uma delas é Rachel McAdams (Regina George a regressar como uma 'sapatona' reprimida de Londres é um acontecimento inacreditável sobre o qual devíamos falar muito mais) e a outra é Rachel Weisz. Não acontece muita coisa, tirando essa cena de sexo em que Rachel cospe na boca da outra Rachel e que se tornou imediatamente icónica.

A Rapariga do Pescoço Torto (Bent Neck Lady)

Se a cultura gay no geral pode ter o Babadook, então nós podemos ficar com a Rapariga do Pescoço Torto. Ela encaixa-se bem.

Sandra Oh a chorar

Da forma como Sandra Oh interpreta Eve na série Killing Eve, da BBC Drama, também eu choraria se estivesse a ser perseguida pela sociopata assassina Villanelle, só que não pelas razões que estás a pensar.

Os fatos de Blake Lively

Ally em "Assim Nasce Uma Estrela"

Não sei explicar porque é que a Ally de Assim Nasce Uma Estrela é cultura lésbica. Simplesmente é. Talvez porque usa botas de motoqueiro castanhas e calções de ganga cortados e é interpretada por Lady Gaga, que sabemos que não é hetero. Ou talvez, porque o filme é muito camp e, como vou explicar, a cultura lésbica e o camp não são a mesma coisa, mas são seguramente melhores amigos.

Num artigo excepcional para o The Outline, publicado no ano passado, Mikaella Clements escreve sobre cultura lésbica e a forma como esta se sobrepõe e diverge da cultura gay masculina. Chama-lhe "dyke camp", um movimento estético a florescer na música, cinema e moda. “O camp lésbico funde-se com o camp em algumas áreas, claro”, escreve. E acrescenta: “Mas, noutras, é algo completamente diferente; tem a sua própria visão eléctrica. Se o camp é o amor pelo não-natural, o dyke camp é o amor pelo ultranatural, de natureza reconstruída e reclamada, de roupas que poderiam ser extensões do corpo, do desejo que se torna obsessivo, dos gestos e maneirismos lésbicos maximizados em mil”.

Clements explica que o que separa o “dyke camp” do erotismo lésbico directo – como, digamos, a Madonna, a Britney e a Christina a beijarem-se no palco dos VMA em 2003 – é o ser inteiramente livre do olhar masculino. “O dyke camp é explicitamente dominado por mulheres que sabem exactamente como tocar e desejar outras mulheres”, aponta. E sublinha: “Se mulheres heterossexuais fazem demonstrações públicas de lesbianismo para chamar a atenção masculina, o dyke camp pega no contacto lésbico privado e torna-o público – para outras mulheres. É menos sobre ter um corpo sensual e mais sobre saber usá-lo”.


Vê: "'Girls Just Wanna Have Girls': Fim-de-semana na maior festa lésbica do Mundo"


Este texto de Clements saiu em Maio do ano passado, assim que Janelle Monae lançou Dirty Computer, dois meses depois de Hayley Kiyoki ter lançado o seu disco de estreia e alguns meses depois de Masseduction, de St Vincent. Desde então, vimos o lançamento de Killing Eve, Lizzie, A Favorita, Desobediência, O Mau Exemplo de Cameron Post e Rafiki. O que tudo isso tem em comum é que são obras centradas na experiência queer do ponto de vista feminino. Rachel Weisz a marchar até Olivia Colman em calças do século XVIII e a esganá-la contra a cabeceira da cama em A Favorita, por exemplo, é um movimento tão queer que, no espaço de três segundos, se tornou num momento icónico da cultura lésbica.

O que estou a querer dizer é que a quantidade de acção e narrativas lésbicas de alta qualidade que agraciaram os nossos ecrãs, Internet e auriculares no último ano foi uma chuva nos jardins de uma cultura que precisava muito de água – assim como todas as culturas. Claro que ícones lésbicos existem há muito tempo (se não viste o filme de 1981 Liquid Sky, nem nunca deste uma olhada nos arquivos da revista lésbica de culto On Our Backs, pára o que estiveres a fazer e vai atrás disto, já) e vão existir no futuro. Mas, indiscutivelmente, até agora, a cultura lésbica nunca tinha sido tão mainstream, tão acessível, entregue com uma piscadela e um empurrãozinho, em vez de apresentada como nicho, underground ou quase vergonhosa.

Se Chloë Sevigny e Kristen Stewart – duas das actrizes mais conhecidas do século XXI – podem fazer sexo lésbico num celeiro, num filme que passa em cinemas do Mundo inteiro, eu diria que podemos esperar mais. Que venha 2019.


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.

Mais da VICE
Canais VICE