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A incrível trajectória do craque de futebol que nunca jogou futebol

Ao longo de 20 anos, Carlos “Kaiser” Henrique assinou com alguns dos melhores clubes do Mundo... sem nunca jogar por qualquer um deles.

Por Hydall Codeen
22 Novembro 2018, 11:17am

Todas as fotos: Carlos Kaiser.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

A ideia de viver uma mentira é sempre apresentada como uma coisa sombria e negativa; é algo que as pessoas fazem nos filmes antes de se atirarem de prédios, de fazerem um discurso triste ou de perderem tudo. Mas, e se viver uma mentira for, na verdade, divertido? Não algo bom ou especialmente nobre, mas algo que traga alegria e luz às vidas de outras pessoas, assim como emoção, barulho, humidade, histeria, luxúria, fama e amizades.

Esta é a aproximação possível à vida de mentira de Carlos “Kaiser” Henrique, “o maior jogador de futebol que nunca jogou futebol”, como é conhecido – um homem nascido na pobreza das favelas do Rio de Janeiro, Brasil, que enganou e encantou o Mundo em duas décadas de absoluta falácia.

Armado apenas com um mullet, algumas sungas e um dom prodigioso para palrar, Kaiser – como insiste em ser chamado, provavelmente numa homenagem a Franz “Kaiser” Beckenbauer, ou talvez apenas em referência a uma marca de cerveja popular no Brasil nos anos 80 e 90 – foi contratado e afiliado aos quatro maiores clubes cariocas: Botafogo, Fluminense, Flamengo e Vasco, além de várias equipas estrangeiras pelas quais ele pode ou não ter realmente jogado.


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“Eu queria estar entre os jogadores”, diz Kaiser num novo documentário, Kaiser: The Greatest Footballer Never to Play Football, que passa um pente fino sobre o seu mito. O filme é hilariante, inacreditável, fascinante e triste em vários graus. “Eu só não queria era jogar”, sublinha Kaiser. E acrescenta: “Era um problema das outras pessoas se queriam que eu fosse um jogador”.

Em vez de ser desprezado como uma espécie de sanguessuga, Kaiser desfruta de consideração entre a maioria dos colegas – um tipo que, quando conseguia um contrato com um clube, fazia absolutamente tudo para continuar nele, desde que isso não envolvesse jogar futebol. No documentário há pouca mágoa para com um homem que decidiu operar como uma espécie de organizador de orgias, com um suplemento infinito de descaramento.

Falei com Louis Myles, realizador do filme, e com o autor Rob Smyth, que, paralelamente, escreveu um livro, para tentar entender como é que este homem conseguiu dar um grande golpe ao mais alto nível do desporto brasileiro durante 20 anos.

VICE: É difícil perceber por onde começar a contar a história de Kaiser. O que a torna tão especial?

Louis Myles: No caso de Kaiser, a duração da sua carreira é a parte realmente extraordinária. Tens um gajo que faz amizade com alguns jogadores muito influentes e famosos – Bebeto, Carlos Alberto, Renato Gaúcho. De repente, tens uma base de contactos com os melhores dos melhores. A questão é: o que fazes com isso. A maioria das pessoas pensaria: “Boa, sou amigo do Zico” e ficaria contente com as muitas festas e a possibilidade de fazer disso um negócio. Mas, Kaiser criou um sistema de troca, onde ele conseguia o que quer que essas pessoas precisassem – o que podia ser mesmo qualquer coisa – e, em retorno, ele pedia-lhes acesso a um teste para algum clube, ou que alguém jurasse que ele era um jogador profissional. E esses jogadores, os melhores do Brasil, compraram a ideia.

Ele era engraçado, charmoso e rápido; tinha aquela habilidade clássica de vigarista e conseguia voltar qualquer situação imediatamente a seu favor. Mesmo estando em perigo, essa capacidade de conseguir levar as pessoas para o seu lado era uma arte. Ele entrou para a máfia, assumiu a culpa por confusões, organizou orgias, fingiu infinitos ferimentos, convenceu jornalistas a escrever sobre ele, pagou a fãs para gritarem pelo seu nome em jogos. A única coisa que não ousou fazer foi jogar, porque aí seria exposto.

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O cartão oficial de jogador de Kaiser no Gazelec FC.

Como é que conheceste a história de Kaiser?

Louis Myles: Estava a fazer um documentário sobre os 20 anos da série de videojogos Football Manager. Alguém da equipa levou-me a um pub e contou-me esta história incrível que alguém tinha postado no reddit, traduzida de forma meio manhosa de um artigo em português. Depois de algumas cervejas, a coisa foi de “alguém devia fazer um filme desta história” para “nós deveríamos fazer um filme desta história”. Mais tarde, falei sobre isso com Tim Vickery, um jornalista de futebol que trabalha no Brasil para a BBC e os olhos dele brilharam. Disse-me que nos seus 21 anos a viver no Rio, aquela era não só a melhor história de futebol que já tinha ouvido, como era a melhor história que já tinha ouvido e ponto. Foi isso que me deu confiança. Os três anos seguintes, francamente, foram os mais alucinante da minha vida.

Sendo verdade ou não, quais são as tuas histórias favoritas de Kaiser?

Louis Myles: Há muitas. E foi por isso que falámos com o Rob para escrever um livro, porque há demasiada coisa para caber num filme. Fizemos sete viagens e, de todas as vezes, voavas para lá sem saberes o que ias conseguir.

Rob Smyth: A minha história favorita é, provavelmente, sobre uma vez em que ele jogou no clube carioca Bangu, quando deliberadamente foi expulso antes de entrar em campo, por andar à pancada com os adeptos da outra equipa enquanto fazia aquecimento como suplente. Estávamos bastante cépticos em relação a esta história, mas algumas pessoas juram que estavam lá. É uma história engraçada, mas também um pouco séria; ele poderia ter pago com os joelhos se tivesse realmente entrado em campo. O chefe não oficial do Bangu na época era Castor de Andrade, o mais perigoso mafioso do Rio de Janeiro. Adorava Kaiser, mas tinha caído numa história dele sobre estar aleijado. Se descobrisse que Kaiser lhe estava a mentir descaradamente, teria tido problemas.

Há várias histórias no filme sobre Kaiser andar com mafiosos e outros criminosos. Porque é que vocês acham que ele conseguia fazer amizade tão facilmente com estetipo de pessoas?

Rob Smyth: Na época, basicamente todos os grandes clubes do Rio eram comandados por "bicheiros". Os clubes precisavam do seu dinheiro e poder. Tendo crescido num ambiente perigoso, coisas que parecem aterrorizantes ou arriscadas para nós, para Kaiser eram algo normal. Acho que ele estava tão acostumado a viver no limite e a testar a sua sorte que tinha um conhecimento instintivo das coisas de que se conseguiria safar. Acho fascinante como ele se lembra de todas as mentiras e como fez malabarismos com diferentes histórias. Organizava orgias para a equipa inteira e Pinheiro, um bicheiro de 75 anos com uma prótese peniana, também participava. Kaiser simplesmente sabia o que as pessoas queriam – quando estava no Fluminense, um colega de equipa "apagou" alguém numa discoteca e Kaiser assumiu a culpa. Ele fazia o que tinha de fazer para agradar às pessoas.

Louis Myles: Falámos com Kevin Dutton, da Universidade de Oxford, em Inglaterra, que fez várias coisas para televisão analisando golpistas e é amigo de Frank Abagnale Jr., cuja história é a base de Catch Me If You Can. Dutton disse-nos que nunca tinha visto um trafulha que conseguisse gerar tanta simpatia como Kaiser. Ele fechou contratos reais com alguns dos maiores clubes de futebol da América do Sul.

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Still do filme onde Kaiser é entrevistado pelos realizadores.

O que acontecia no Rio de Janeiro na altura, que permitiu a Kaiser viver aquela vida?

Rob Smyth: Essa é uma das coisas mais interessantes do filme, acho eu. Parece uma história que não poderia ter acontecido em nenhuma outra parte do Brasil, quanto mais do Mundo. A cultura do Rio é muito informal e oral, o que lhe permitiu abordar as pessoas sem ter que passar por todas as burocracias. As coisas eram feitas verbalmente, por confiança e ninguém fazia muitas perguntas. Isso mostra a importância de ter uma sabedoria de rua. Ele era e ainda é extremamente inteligente, mas, principalmente, é só um tipo que viveu da sua lábia e viu até onde conseguia chegar.

Louis Myles: Além disso, os brasileiros estão acostumados a ter figuras deste género na sua cultura; o "malandro" ou "171", que é o código nacional para o crime de fraude. Eles existem por necessidade; actualmente, tens 65 por cento das crianças a viverem em extrema pobreza e, mesmo se tens dinheiro, a burocracia é uma loucura. Eles têm essa coisa chamada de "jeitinho brasileiro", que é a filosofia de tirar o que puder de qualquer situação. Kaiser é um clássico malandro vezes mil. Os brasileiros apreciam que haja pessoas, especialmente no Rio, que conseguem contar uma boa história, divertir e manipular certas situações.

No filme, dizem que Kaiser jogou 30 partidas na sua “longa carreira”. Já viram alguma filmagem dessas participações em jogos?

Não. Quer dizer, é isso que os documentos dizem, mas, pessoalmente, acho que ele nunca jogou.

E a mulher no filme que diz que ainda tem um vídeo que Kaiser lhe deu dos destaques dele nos anos 80 e 90? Acho que era para a equipa argentina Independiente...

Louis Myles: Havia um jogador chamado Carlos Henrique a jogar nessa equipa na época e “Carlos Henrique” é o nome verdadeiro de Kaiser. Esse gajo tinha o mesmo nome que ele, tinha o mesmo corte mullet... Percebes o que ele fez? Mas, a mulher ainda acredita que o Kaiser com quem ela foi para a cama era o que aparece a marcar os golos na cassete.

Rob Smyth: Acho que muitos jogadores sabiam que Kaiser não era um verdadeiro jogador. Mas, ele foi muito esperto ao travar amizade com pessoas poderosas – Bebeto, por exemplo, vencedor do Mundial e com quem jogou no Vasco da Gama algumas vezes. Ao mesmo tempo, tenho a certeza de que muita gente não fazia ideia do que ele estava a fazer, ou talvez soubessem, mas era um tipo de chantagem tácita, porque ele sabia os podres de muitos deles... Algumas coisas não pudemos colocar no livro ou no filme por razões legais. Toda a gente fala sobre ele com muito carinho e acho que a maior parte disso é genuíno, mas ficas a pensar que, agora que estes homens são mais velhos, casados ou até deputados, em que medida é que se preocupam com os danos que ele poderia causar?

Se alguém passa os principais anos da sua vida a fingir ser alguém ou algo que não é, pode imaginar que isso vai voltar para o assombrar. Em que ponto do filme perceberam que Kaiser não era diferente e que essa história acabaria por mostrar a diferença de quem ele era na época, quem ele é agora e a dor de viver no meio disso?

Rob Smyth: Acho que tens uma lenta revelação. Acho que foi na quarta viagem que a história dele começou a desmoronar um pouco e ele foi sendo levado a fazer certas coisas, o que mudou muito o tom do filme, acrescentando nuances e deixando de ser só a fantasia de um gajo. Em certo ponto ele fala sobre um israelita dono de um restaurante de marisco. Depois, sugeriu que o pessoal do filme falasse com um homem chamado Fabinho, que jogava no AC Ajaccio, em França. Quando falámos com ele acho que Kaiser percebeu que não poderia ditar tudo no filme, que não seria só "O Mundo Segundo Kaiser". Acho que aí o filme começou a explorar um território com que ele não estava totalmente confortável. Também teve muitas perdas. E acho que não queria necessariamente falar sobre isso.

As suas duas mulheres e um filho morreram...

Sim, e novamente, toda a gente te vai dizer coisas diferentes sobre o que aconteceu. Acredito que a primeira mulher dele, Marcela Mendes, morreu; toda a gente o confirma. Os outros, bem, é difícil saber com certeza. Há poucas fotos. Ele era vago sobre os detalhes. Penso se, por vezes, ele não usava o termo, simplesmente para dar a entender que eles estavam mortos para ele. Mas, a Marcela morreu. E essa é, provavelmente, a parte mais triste da história, porque parece que eles estiveram juntos muito tempo, que ele realmente mudou e se tornou uma pessoa diferente – mas quando ela morreu, ele não tinha para onde ir, portanto voltou a ser Kaiser. O problema é que já não tinha 25 anos, já não era tão bonito e não estava rodeado de amigos famosos.

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Kaiser (à direita) com a lenda do futebol brasileiro Carlos Alberto Torres.

Como foi filmar essas cenas, Louis?

Louis Myles: Foram os dias mais difíceis de filmagem da minha vida. A entrevista inteira tem três horas e meia, passadas no apartamento dele no Flamengo. Não sabíamos que teria essa mudança de ritmo. Estávamos todos a rir, mas, num piscar de olhos, tudo mudou. Isso aconteceu durante dois dias – sabíamos que havia algo errado na nossa terceira viagem, mas sabíamos que para conseguir o que queríamos, tínhamos que encontrar o Fabinho. Assim que a entrevista aconteceu, Kaiser ficou maluco; descobriu de alguma forma. Fomos ao apartamento dele – nunca lá tínhamos entrado em todos aqueles anos a filmar. Quando chegámos ele estava num estado horrível. Era o fim de um grande jogo de gato e rato entre nós e Kaiser. Mas, mesmo então, foi difícil. Era um homem a desnudar a sua alma – a meio da filmagem, pensavas: “Bem, quanto disto é verdade?”.

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Kaiser (à direita) com Renato Gaúcho, ex-jogador profissional e agora treinador do Grêmio.

Quanto do que ele diz no filme é verdade, na tua opinião?

No fim de contas, como algumas pessoas dizem, a verdade não importa – o que importa é a história deste homem que criou um verdadeiro conto de fadas dentro do futebol, ou pelo menos uma narrativa para si mesmo. Essas histórias agora são folclore. Recebemos um telefonema de um tipo do Museu Nacional do Futebol no Brasil a dizer que querem fazer uma secção inteira sobre ele. Literalmente, Kaiser vai entrar para a história do futebol. O gajo disse: “Como é que o devemos chamar?”. Eu respondi que não sabia, pois a minha opinião sobre ele muda de cada vez que vejo o filme. Ele é o grande farsante do futebol? O maior mentiroso? O maior mito ou contador de histórias? Ele é a grande falácia do futebol?

Poderia ter sido só um burlão – e isso é algo em que acreditámos durante algum tempo. Mas, depois houve esse tipo com quem falámos no Vasco que disse que não, que eles o contrataram para cuidar de um jogador da selecção brasileira que era alcoólico e estava com muitos problemas, e que Kaiser fez um trabalho brilhante. Ele não é só uma dessas coisas – é tipo um Lobo de Wall Street misturado com Walter Mitty misturado com Forrest Gump... Podias costurar todos esses personagens juntos e ainda não chegariam perto de Kaiser, porque ele é único. Alguém no filme diz: conta uma mentira quatro vezes e ela torna-se verdade.

O que é que Kaiser achou do filme?

Não o viu todo, em parte por causa dos seus problemas de visão e, por outro lado, porque ainda não voltamos lá desde que acabámos de filmar. Estamos à espera que o clima político acalme. Mas, Kaiser viu a maior parte e contámos-lhe como termina. Ele sabe. Não o julgo; falo com ele quase todos os dias e ele está óptimo. Acho que quem vir o filme vai tirar a sua própria versão da história. E isso era muito importante para nós. Respondemos a muitos questionários sobre o filme agora e as reações são sempre diferentes; tens um cinema com 300 espectadores onde todos abandonam a sala a odiá-lo. Alguns dias depois, tens outra exibição e acontece o oposto. Ele é, ao fim e ao cabo, quem acreditas que ele é.

Kaiser: The Greatest Footballer Never to Play Football está disponível em streaming e DVD. Compra o livro Kaiser! de Rob Smyth aqui.


@hydallcodeen

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