Entrevista

Ana, Heidi e Inês. Elas podiam ser os nossos “Anjos de Charlie”

Duas actrizes de "Sara" e uma de "3 Mulheres" revelam à VICE as suas experiências no mundo do entretenimento, dão conselhos a quem queira apostar na área e partilham alguns dos seus objectivos até 2028.
actrizes portuguesas Ana Tang, Heidi Berger e Inês Aires Pereira​
(Da esq. para a dir.) Ana Tang, Heidi Berger e Inês Aires Pereira. Algo nos diz que qualquer uma delas está preparada para estar na pele de uma super-heroína. (Fotos cortesia Hit Management)

O mundo da representação em Portugal parece ter-se transfigurado para melhor. Apesar de termos um mercado exíguo e incapaz de ombrear com congéneres de maior dimensão, os resultados têm sido proveitosos. Vê-se qualidade nas séries e filmes produzidos nos últimos anos, o nível dos actores parece ter estabilizado em termos qualitativos e, mesmo as novelas, têm sido notícia com a conquista de prémios prestigiados – em Novembro último, Ouro Verde, da TVI, venceu o Emmy Internacional, na categoria de telenovelas.

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Há ainda muita coisa a melhorar no meio, é certo, só que também é de enaltecer o aparecimento de valor acrescentado que muitos desconheciam. Falando concretamente das actrizes aqui mencionadas, não é bem assim. Duas das três convidadas, já sabem o que é conviver com a fama em circunstâncias diferentes. A luso-austríaca, Heidi Berger, por ser filha do ex-piloto de Fórmula 1, Gerhard Berger e da ex-modelo portuguesa Ana Corvo; a nortenha, Inês Aires Pereira, como anfitriã do Curto-Circuito, na SIC Radical. Mas, concentremo-nos no seu registo nas séries da RTP, em que captaram a nossa atenção.


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Em 3 Mulheres – estória verídica sobre um trio de figuras femininas que marcaram o regime luso antes do 25 de Abril - Heidi Berger encarna impecavelmente a jovem Suzla, cunhada de Snu Abecassis (interpretada por Victoria Guerra). Um papel menor comparado com o de protagonista que desempenha em Onde Está Elisa? (da estação de Queluz), mas uma válida achega para se tirar a ilação de poder vir a ser um nome que marcará os ecrãs nos anos vindouros.

Ao personificar uma rapariga deslumbrada com os privilégios de ser uma star em ascensão, Inês Aires Pereira faz um brilharete em Sara (série cujo enredo tem como premissa basilar uma reputada actriz que não consegue chorar). A ginga que impõe à personagem "Actriz de Novela" - onde contracena essencialmente com Beatriz Batarda -, é deveras envolvente e inclui passagens caricatas (uma das quais no vídeo abaixo).

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Ana Tang pode não ter a “projecção suficiente para ter fãs” (ideia expressa pela própria), mas as aparições acutilantes em Sara mostram um talento a merecer mais palco. Há uma cena em que Tang e Bruno Nogueira (ele na pele de um life coach com paleio barato; ela como sua companheira e colaboradora) nos fizeram recuar ao clássico Duarte e Companhia. É fácil de deduzir qual a situação a que nos referimos. Uma pista: durante uma acalorada discussão, por breves momentos, é debatida a nacionalidade de um dos personagens… Que excelsa homenagem! – mesmo que não tenha sido propositada.

Nas respostas às questões colocadas pela VICE (e recebidas em separado por e-mail), entre outros assuntos, as três actrizes contam como correu a experiência nas séries em causa, dão conselhos preciosos a quem queira seguir uma possível carreira como actor e revelam os objectivos que têm em mente para o futuro. Depois de sabermos um pouco mais sobre elas, há duas certezas a reter: o trio mostra que tem os pés bem assentes na terra e, porque o audiovisual português carece de argumentos com super-heróis, elas bem podiam ser os nossos “Anjos de Charlie" - numa altura em que está a caminho um novo remake do clássico televisivo para o grande ecrã. Neste caso, seria uma série (tal como o original) com a idiossincrasia portuguesa. Sonhar não é proibido, certo?

Abaixo podes ver um pequeno perfil de cada uma das actrizes e ainda mais abaixo a entrevista.

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ANA TANG

“Para ser bom actor, é preciso carisma, personalidade e uma visão própria do Mundo”

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Personagem Li Jing, em “Sara”. (Cortesia Ministério dos Filmes)

Naturalidade: Macau. Idade: 27. Trabalhos na área da representação em 2018: Séries – Sara e Sul (ambas na RTP); Publicidade – Vaqueiro e McDonald’s. Canção, frase e lugar (preferências este ano): “As três estão relacionadas a um ‘ganda’ casamento de um amigo. Canção – ‘ Gasolina’, de Daddy Yankee (percebi que sabia a letra de cor, tendo sido um dos pontos altos da noite). Frase - qualquer coisa como ‘que poderíamos mais querer, se já somos felizes?’, dito pelo pai desse amigo. Lugar - Atenas, à pala do casamento. Fiquei apanhadíssima pela cidade”.

HEIDI BERGER

“A representação é um trabalho de equipa, por isso o respeito pelos outros é fundamental”

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Personagem Suzla Abecassis (à dir. na foto), em “3 Mulheres”. (Cortesia David & Golias)

Naturalidade: Monte Carlo (Mónaco). Idade: 21. Trabalhos na área da representação em 2018: Séries 3 Mulheres (na RTP) e Onde Está Elisa? (TVI). Canção, frase e lugar (preferências este ano): “É tão difícil escolher. Tenho tantas canções que adoro… Agora, ando a ouvir em loop a ‘Shallow’, da Lady Gaga com o Bradley Cooper. Deve acontecer o mesmo com toda a gente que viu o filme, A Star is Born. Frase – ‘ To be soft is to be powerful’. Lugar - Hawaii. Estive lá duas semanas no Verão e não me importava nada de ir para lá viver!”.

INÊS AIRES PEREIRA

“Devíamos dar mais amor aos outros. Não só aos nossos. Se não nos virássemos tanto para nós, iríamos facilitar a vida de todos. A vida das pessoas mais velhas, dos carenciados, dos refugiados, das pessoas com deficiência e dos animais”

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Personagem "Actriz de Novela", em “Sara”. (Cortesia Ministério dos Filmes)

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Naturalidade: Foz do Douro (Porto). Idade: 29. Trabalhos na área da representação em 2018: Séries - Sara e Idiotas, Ponto (ambas na RTP); Teatro - A Pior Comédia do Mundo (no Teatro da Trindade/Lisboa) e Avenida Q (Teatro Sá da Bandeira/Porto); Telenovela - Paixão (na SIC); Publicidade - Frize. Canção, frase e lugar (preferências este ano): “A canção é ‘ Taste’, de Rhye; a frase ‘Nós amamos-te assim como és’; e voltaria a Telavive a toda a hora”.


VICE: Em 2018, Sara e 3 Mulheres foram algumas das séries que estiveram em plano de evidência no panorama nacional. Como descrevem a vossa participação nestes projectos transmitidos pela estação pública?

Ana Tang (AT) em Sara: Muito fixe. Toda a gente me deu espaço para estar à vontade e para interpretar as coisas à minha maneira. Tive liberdade para fazer alguns improvisos e houve receptividade instantânea das pessoas com quem estava a representar (as minhas cenas foram todas com o Bruno Nogueira e a Beatriz Batarda). Atrás das câmaras, percebia-se que todos estavam habituados a trabalhar em conjunto há muito tempo e o diálogo era rápido, por já se conhecerem tão bem. E o catering era muito bom! Quando me alimento bem fico sempre feliz.

Heidi Berger (HB) em 3 Mulheres - Foi um projecto diferente para mim e a primeira vez que fiz uma série de época baseada em factos e pessoas reais. Foi um grande desafio e uma experiência óptima. Sempre vivi fora [actualmente, Heidi frequenta o curso de teatro no Wynn Handman Studio, em Nova Iorque], então não conhecia muito a história de Portugal. Acabei por estudar e aprender imenso, quando estava a preparar a personagem.

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Inês Aires Pereira (IAP) em Sara – Muito bom e muito diferente daquilo que tinha feito até agora, porque tive imensa liberdade criativa. Não foi de todo uma personagem fechada ao texto. Fomos improvisando e criando ao mesmo tempo. Tenho de agradecer ao Marco [Martins, realizador], ao Bruno e à Beatriz, não só pela oportunidade, mas também pelo processo, que foi maravilhoso.

Falemos da génese do vosso percurso. O que vos levou a ambicionarem serem actrizes? Têm alguma referência em particular nesta área?

AT: Não tive nenhuma referência. Desde sempre desejei sê-lo, por ser uma profissão em que posso tanto estar na torre de marfim a fantasiar, como a lidar com pessoas e contextos muito diferentes. É um trabalho muito volátil e isso tem as suas vantagens e desvantagens. Não conseguiria ter um trabalho das 9 às 5. Para não estar sempre dependente de ter ou não ter trabalho como actriz, tenho um part-time como recepcionista num restaurante. O que ajuda imenso, porque aí estou a lidar com pessoas e problemas a sério. E, por sua vez, isso enriquece qualquer coisa que faça como actriz.

HB: Sempre quis ser actriz, desde cedo que tenho esta paixão. Tenho várias referências de actores e actrizes que admiro, tanto na ficção, como na postura que têm na vida real.

IAP: Nunca soube ser outra coisa. Não sei de onde veio. Desde que me lembro que digo que vou ser actriz [por estes dias, também faz locução].

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Mesmo sabendo que a representação em Portugal tem um mercado limitado, há muitos jovens que pretendem apostar nesta arte. Quais os três conselhos que lhes dariam?

AT: Primeiro, não decidam ser actores só porque foram negligenciados emocionalmente em casa e precisam de atenção. Não vai correr bem em termos de satisfação pessoal. Há coisas mais importantes do que aparecer. Segundo, só vão ser bons actores se tiverem carisma, personalidade e uma visão própria do Mundo. Viver a vida para além da representação é o mais importante. Terceiro, não corram atrás do primeiro fogo-de-artifício. É importante que uma carreira tenha uma narrativa coerente e trabalhar com pessoas cujo trabalho e presença respeitam dá sempre bom resultado.

HB: Se for mesmo uma paixão, acho que devem apostar! Mas, é preciso estar preparado, porque não é fácil. Pode ser muito duro emocionalmente. É importante sabermos equilibrar tudo de uma maneira saudável, para depois conseguirmos relaxar e divertirmo-nos. Porque é, na essência, um trabalho muito bom! Nesta área, como em tantas outras deste género, há muita rejeição. É normal…

O importante é lidar com isso de uma maneira positiva e não desistir. Quando estamos no início da carreira, desconhecemos o processo dos castings e ele é longo. Há muitos factores que influenciam uma decisão, não é apenas o talento. O facto de não sermos escolhidos para determinado trabalho, não significa que sejamos maus actores. Apenas que não somos os adequados para aquele papel. Eu penso sempre: vou dar o meu melhor no casting, se não conseguir o papel é porque vem aí outro ainda melhor. Os três conselhos mais importantes que dou a quem está a começar é ser forte, humilde e educado. A representação é um trabalho de equipa, por isso o respeito pelos outros é fundamental.

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IAP: Acho que devem trabalhar para isso. Ter talento é importante, mas também o é estudar, ir ao teatro e rodearmo-nos de pessoas que nos aguçam. Eu, por exemplo, preciso de ser constantemente espicaçada para mexer cá dentro e descobrir coisas, sensações, sentimentos… Isso mexe comigo, com a minha imaginação e faz-me criar… Não sei ao certo o quê, nem se é bom, mas sei que preciso disso para me desenvolver como actriz.

Afinal, 'Cidade de Deus' alterou a realidade da favela?

Para o comum dos mortais, participar numa série, entrar numa peça de teatro ou fazer parte do universo cinematográfico, é a mesma coisa. Tudo se resume a decorar as falas e encarnar uma determinada personagem. Mas, há quem diga que não é bem assim… Na vossa opinião, o que diferencia estas disciplinas? Têm predilecção por alguma?

AT: Por acaso, para mim, é mais ou menos a mesma coisa. Há diferenças, mas são irrelevantes e não lhes ligo muito. Não prefiro uma coisa a outra. O mais importante são os criadores em si, a minha vontade de querer cooperar e aprender com eles e com as outras pessoas que fazem parte dos projectos. Se for bom é bom. Se for mais ou menos é mais ou menos. Se for mau é mau. Não interessa o meio.

HB: Participar numa série, no teatro ou fazer um filme são tudo experiências muito diferentes. Eu, infelizmente, ainda não tive a oportunidade de fazer cinema, mas reconheço a diferença. Claro que é muito mais do que “decorar as falas”… Como diz o Al Pacino, The actor becomes an emotional athlete [O actor torna-se um atleta emocional]. Para fazermos um bom trabalho, é necessário muita preparação.

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IAP: Se calhar os meus colegas vão dizer que sou louca, mas no fundo é capaz de ser a mesma coisa. Tudo se resume a entrar num universo, numa personagem, acreditar e fazer ou ser. São todos diferentes, ou seja, o processo é diferente mas, no fundo, quando dizem “acção”, ou quando estás em cima do palco, estás a acreditar da mesma maneira. Agora, as técnicas até lá chegar são diferentes. Eu gosto muito de fazer teatro, mas tenho que fazer muito cinema e muita televisão para conseguir escolher de caras.


Vê: "Gaspar Noé conta tudo sobre 'Climax'"


Thomas Edison, um histórico empresário norte-americano, disse que o talento vinha de 99% de trabalho e 1% de inspiração. Como é que interpretam essa percentagem, na realidade onde se inserem, e como a encaram pessoalmente?

AT: É mesmo assim. Mas, marrar a mais também não traz bons resultados. Há que ter prazer em actuar, mesmo quando é difícil. Quaisquer recursos básicos para se ser bom no que se faz, levam tempo e muito trabalho a adquirir e, depois, também é preciso saber deixar-se ir.

HB: Não concordo completamente com as percentagens, acho-as exageradas. Há outra citação dele, The value of an idea lies in the using of it [O valor de uma ideia reside no uso dela], que ajuda a explicar um pouco as percentagens. Acho que o que ele queria dizer, é que é preciso muito trabalho. Mesmo para termos inspiração, é preciso estimularmos a nossa imaginação de diversas maneiras. Sem trabalho, nada feito…

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IAP: Não tenho uma opinião concreta em relação a isso, então custa-me dar uma resposta. Acho que somos todos diferentes e nem todos acendemos luzes da mesma maneira. Acho que através do trabalho, chega a maior parte da inspiração. Parece que as coisas estão ligadas umas às outras, então não as consigo dividir. Sinceramente, sou uma pessoa preguiçosa, que tem de lutar muito contra isso. Quando trabalho e vou a fundo no processo, corre sempre melhor.

A sociedade portuguesa não é a mesma de há trinta anos, existindo hoje uma maior preocupação na defesa de causas sociais. No vosso caso, há alguma causa que gostariam que tivesse maior apoio de anónimos ou de instâncias públicas? Porquê?

AT: Não vender Lisboa à “turistada”. Por razões óbvias (#subirascalças).

HB: Tenho várias que me interessam, mas se tivesse de escolher uma, de repente, seria defender os direitos dos animais. É lutar por quem não tem voz…

IAP: Poderia falar em algumas. Na verdade, em muitas acho que vai tudo dar ao amor. Acima de tudo, acho que devíamos dar mais amor aos outros. Não só aos nossos. Se não nos virássemos tanto para nós, iríamos facilitar a vida de todos. A vida das pessoas mais velhas, a vida de pessoas carenciadas, dos refugiados, de pessoas com deficiência, dos animais e por aí fora.

Agora, vocês e as redes sociais. Utilizam para os fãs terem notícias vossas, é uma forma de massajar o ego (dizem que a auto-estima agradece), uma ferramenta de trabalho, ou pelas três razões e mais alguma?

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AT: Não tenho projecção suficiente para ter fãs. As minhas contas são privadas e o que está em modo público são, maioritariamente, publicações relacionadas com trabalho.

HB: Acho importante como ferramenta de trabalho e gosto de poder comunicar directamente com os meus fãs. Reconheço que as redes sociais, por vezes, são utilizadas de forma errada. O instagram, por exemplo, pode ser um instrumento de trabalho poderoso, se usado de maneira positiva. Mas, se for apenas para sermos mais "populares", acho que é perigoso para a saúde mental e para a auto-estima. Acabamos por, inevitavelmente, comparar as nossas vidas e a nossa aparência física com as dos outros, que muitas das vezes nem são reais.

IAP: Pelas três razões e mais alguma!

É conhecido o vosso trabalho em 2018. Centremo-nos agora no passado e no futuro. Quais eram os sonhos há dez anos e o que desejam concretizar até 2028?

AT: Os sonhos que tinha há dez anos já se concretizaram. Sou actriz e trabalho regularmente com as pessoas que mais admiro criativamente. Agora, o que segue pela frente é cimentar o meu trabalho e fazer ainda mais o que me apetece.

HB: O que ambicionava há dez anos era, simplesmente, ser actriz. Só não estava à espera que acontecesse tão cedo… Em 2028, gostava de conseguir viver apenas da carreira de actriz e poder inspirar e ajudar as pessoas através do meu trabalho. No entanto, ainda tenho muito caminho a percorrer e muito para aprender.

IAP: Há dez anos, sonhava ir para o Rio de Janeiro trabalhar e ser mãe. Por agora, o Rio de Janeiro não é opção (está difícil também para o povo brasileiro), mas continua dentro de mim essa vontade. Quanto a ser mãe, gostava que acontecesse, mais tarde ou mais cedo. Por isso, em 2028, vou estar cheia de filhos, uns atrás dos outros (todos “seguidinhos”), vou estar apaixonada pelo pai dos meus filhos e cheia de trabalho. Dito assim parece fácil, não é? Dai-me força Senhor!

A VICE agradece à Hit Management, agência que representa as três actrizes, a preciosa ajuda na concretização destas entrevistas.


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