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Drogas

O governo da Venezuela é tão corrupto que, basicamente, tem o seu próprio Cartel

Chamam-lhe "Cartel de los Soles" e não é uma brincadeira.

Por Deborah Bonello; Traduzido por Madalena Maltez
19 Março 2019, 4:48pm

Autoridades venezuelanas processam drogas apreendidas. (Foto por JIMMY PIRELA/AFP/Getty Images).

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US e faz parte de uma série intitulada "CARTEL CHRONICLES" dedicada ao tema da guerra às drogas na América Latina.

Quando, no mês passado, o director dos serviços secretos da Venezuela publicou um vídeo em que denunciava o presidente Nicolás Maduro, o Mundo ouviu-o. Numa série de declarações filmadas que circularam pelo Twitter e em comunicados à imprensa, Hugo Carvajal Barrios, de 58 anos, acusou o governo actual de tráfico de drogas, corrupção e repressão.

Barrios foi apenas a mais recente de um grupo de pessoas que serviram durante a presidência de Hugo Chávez a implicar membros importantes do governo no negócio dos narcóticos. Desde 2002 que um grupo de oficiais e agentes de alto escalão das forças armadas têm vindo a ser acusados ou mesmo punidos por tráfico de drogas pelos Estados Unidos.



Para aqueles que possam tentar desvalorizar as acusações e sanções com motivações políticas - os EUA há muito que são o inimigo da "revolução socialista" da Venezuela -, a verdade é que há provas. Como o avião da Air France que aterrou em Paris a 10 de Setembro de 2013, com cerca de 1.3 toneladas de cocaína a bordo (num valor de rua estimado em 270 milhões de dólares). O voo tinha saído do aeroporto internacional da Venezuela de Caracas, onde a Guarda Bolivariana Nacional da Venezuela (GNB) é responsável pela segurança. O vergonhoso incidente resultou numa série de detenções de militares, incluindo um tenente da unidade anti-droga da GNB, de acordo com relatórios posteriores.

E, depois, aconteceu o caso dos sobrinhos da primeira-dama (sim, a mulher do presidente Maduro), Celia Flores. Efrain Antonio Campo Flores e Francisco Flores de Freitas foram detidos pela Drug Enforcement Administration (DEA) norte-americana no Haiti, em finais de 2015, quando tentavam fechar um negócio de tráfico de 800 quilos de cocaína para os EUA. Ambos acabaram condenados a 18 anos de prisão por conspiração para importação de cocaína para os Estados Unidos.

O papel do estado no tráfico de droga é tão importante na Venezuela que até tem nome: Cartel de los Soles, que é a expressão usada para designar as redes que parecem existir entre o exército e outros aparelhos estatais que facilitam e incentivam o tráfico de drogas.


Vê: "'El Naya': a rota secreta do tráfico de cocaína da Colômbia"


Os seus membros incluem o ex-director da agência anti-droga do país, Nestor Reverol, que ainda está acusado pelos Estados Unidos num processo em curso por, alegadamente, receber dinheiro de narcotraficantes em troca de ajuda com o tráfico de cocaína destinada aos EUA, mais concretamente na passagem do produto através da Venezuela. Reverol, entre outras infracções, "alertava os traficantes para rusgas e dizia-lhes onde é que estavam a ser levadas a cabo actividades anti-droga pelos agentes oficiais, para que, assim, pudessem mudar a localização dos seus armazéns ou alterar as rotas de transporte", dizem os procuradores federais.

Diosdado Cabello, actualmente um oficial de topo do Partido Socialista da Venezuela e considerado uma das pessoas mais poderosas do país, pode também ser uma peça fundamental do Cartel de los Soles. Cabello foi sancionado pelos EUA o ano passado; na altura, Steven T. Mnuchin, o secretário do tesouro norte-americano, disse: "Vamos impor multas a figuras como Diosdado Cabello, que abusam das suas posições para fazer dinheiro com o tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, fraude fiscal e outras actividades corruptas.

Depois, temos o actual vice-presidente da Venezuela, Tareck El Aissami, que também foi sancionado pelo seu alegado papel no tráfico internacional de drogas. "Ele facilitou o envio de narcóticos a partir da Venezuela, incluíndo o controlo dos aviões que saem de bases aéreas da Venezuela, bem como o controlo das rotas de droga pelos portos venezuelanos", de acordo com a secretaria do Tesouro dos Estados Unidos. Na semana passada, El Aissami foi mencionado num processo norte-americano por, alegadamente, ter violado as sanções que lhe foram impostas.

O que Carvajal não explicou - compreensivelmente - enquanto implicava os seus ex-colegas, foi o seu próprio papel na rede, de acordo com pelo menos dois processos judiciais que tem a correr contra si nos Estados Unidos. Esses documentos alegam que ele foi pago por Wilber Varela, o líder de parte do Cartel do Vale do Norte da Colômbia, para ajudar nas suas actividades de tráfico através da Venezuela. Depois da morte de Varela em 2008, Carvajal continuou a trabalhar da mesma forma com o cartel colombiano e com outras organizações criminosas e, alegadamente, chegou até a vender-lhes quilos de cocaína, segundo os procuradores.

Carvajal escapou à extradição de Aruba em 2014 apesar das acusações. Na altura, ainda estava protegido pelo estado venezuelano, o que pode já não ser o caso dado o seu recente escândalo mediático (no mês passado, disse à imprensa que qualquer contacto que tenha tido com entidades ligadas ao tráfico de droga durante o seu tempo no cargo se ficou a dever às investigações que supervisionava na altura enquanto director dos serviços de inteligência).

Seja qual for a forma pela qual Carvajal tente justificar o papel que tinha, é obvio que o governo venezuelano está metido até ao pescoço no tráfico de drogas e noutras actividades económicas criminosas.

"Para nós, não há dúvida de que o estado da Venezuela é mafioso", afirma Jeremy McDermott, co-fundado da InSight Crime, que investiga o progresso do crime organizado sob o regime socialista criado por Chávez. "Só não usamos o termo narco-estado, porque há muitas mais actividades e economias criminosas na Venezuela que chegaram a altos escalões do governo, não é só o trafico de drogas. Incluem contrabando, combustível, mercado negro de comida e medicamentos, o saque sistemático dos cofres do estado e a manipulação das taxas de câmbio. Isto são as várias formas diferentes em que elementos criminosos do governo venezuelano roubaram ou usaram dinheiro do estado e das pessoas da Venezuela".

A posição geográfica da Venezuela coloca os seus lideres políticos numa situação tentadora, deixando-os expostos a um tipo de subornos a que, para muitos, é difícil resistir. Partilha a fronteira com a Colômbia, o maior produtor de coca do Mundo e a cocaína passa pela Venezuela para chegar aos EUA e à Europa. A corrupção é um problema crónico.

"Em termos políticos, se retirares a balança de poderes de uma democracia funcional, deixas de ter qualquer tipo de transparência", explica McDermott. E justifica: "A Nicarágua e a Bolívia estão a ir pelo mesmo caminho. Quando a transparência desaparece, abre caminho para os criminosos fazerem o que querem e isso, para mim, tem sido a história da Venezuela". Talvez, para o resto da região, a Venezuela seja um exemplo do caminho a não seguir. Uma prova do quão más as coisas podem chegar a ser.


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