Identidade

O enredo do Samba da Mangueira conta a história do Brasil que o racismo apagou

Nos sambódromos do Rio e de São Paulo, o apagamento da história negra levado pelas caravelas portuguesas está a perder força.

Por Ale Santos; ilustração por Felipe Pessanha
22 Março 2019, 10:16am

Ilustracão: Felipe Pessanha

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu. Nesta coluna, o autor de sci-fi e fantasia afro-americana e investigador, Ale Santos, aborda os contextos das causas raciais em questões culturais, políticas e até do entretenimento no país. Trata-se de um esforço de partilha de conhecimento numa época em que o negacionismo cresce e influencia directamente o imaginário das pessoas. Bem-vindos ao Guia Historicamente Correto do Brasil.

Se tiveres estudado numa escola pública brasileira na década de 90, deves ter ouvido que os negros foram escravizados e libertados pela benevolente Princesa Isabel; que as poucas rebeliões contra esse sistema desumano foram lideradas apenas por Zumbi após a traição do seu tio Ganga Zumba - dependendo do desprezo do professor para com essa parte da história brasileira, deves ter achado que Ganga Zumba e Zumbi eram a mesma pessoa.

Até que cresces e, de repente, te deparas com nomes que nunca ouviste antes como Dandara, a mulher de Zumbi e Chico da Matilde, o Dragão do Mar que aboliu a escravidão no Ceará quatro anos antes da Lei Áurea. Os anos passam e com eles chegam-te novas informações, novos nomes entram em cena na historiografia sobre a escravidão brasileira e, aquela ideia de que Isabel foi a redentora do povo negro, vai por água abaixo. Descobrimos que os próprios negros geraram tensões para a sua liberdade e, na sua maioria, já eram livres ainda antes de 1888. Mas, afinal, que confusão é esta na história do Brasil?


Vê: "Crianças brasileiras explicam o que significa para elas a consciência negra"


"História para Ninar Gente Grande", o samba-enredo vencedor do Carnaval 2019 pela Estação Primeira de Mangueira levantou as bancadas a cantar: “Brasil, meu dengo. A Mangueira chegou, com versos que o livro apagou”. Isso, estamos a falar de um apagar, um esforço colectivo para ignorar o ponto de vista de outros povos da colonização até à proclamação da República Brasileira, um apagar que foi trazido pelas caravelas portuguesas e filosofias europeias, mas que está a perder força como foi presenciado nos sambódromos do Rio de Janeiro e também de São Paulo, com a Mancha Verde que se consagrou este ano dando vida à poderosa Aqualtune, rainha de Palmares e a sua descendência que vai de Ganga Zumba até Zumbi.

Essas novas versões dos factos históricos surgem após um período tenebroso no Mundo. As grandes navegações trouxeram a morte às Américas - foram cerca de 90 milhões de ameríndios exterminados. Em África, algumas estimativas ultrapassam as 100 milhões de pessoas impactadas com a escravidão. Os efeitos contínuos criados além disso pelas invasões, guerras coloniais, violações e genocídios como os do Congo Belga (e por outras formas de opressão da dignidade do povo negro actualmente) ficou conhecido pelo termo suaíli Maafa, traduzido como o Holocausto Negro.

Toda essa violência promovida pelas elites brancas europeias precisava de um suporte moral, algo que diante de tamanha desumanização pudesse servir como justificação psicológica e ética. Esse suporte veio com a criação do Mito da Modernidade: a ideia de que a Europa estava “a levar a civilização” para lugares selvagens. Esse mito é descrito no livro 1492: o encobrimento do outro. A origem do "mito da modernidade", do autor Enrique Dussel. Esse imaginário colonial fundamentou as ideologias eurocentradas, aquelas que determinavam que a Europa era o centro da intelectualidade mundial.

“Os intelectuais europeus convenceram-se de que os objetivos, os conhecimentos, o poder e a riqueza da sua sociedade eram tão preponderantes que a civilização europeia deveria prevalecer sobre todas as demais”.

Joseph Ki-Zerbo, História Geral da África I - Metodologia e Pré História da África

O sociólogo e professor da Universidade de Coimbra, Boaventura de Sousa Santos, estuda essas ideologias hegemónicas que hierarquizaram ou subalternizaram outros saberes, culturas e memórias, numa lógica dominante e excludente. Ele chamou ao extermínio de outras culturas de epistemicídio.

Historiografia e antropologia com olhar racista

A partir desses conceitos, elaborados por via da convergência de correntes de pensamento de movimentos como o Renascimento e Iluminismo, os estudos das ciências humanas foram ganhando forma e a historiografia ganhou um olhar extremamente racista sobre os africanos e ameríndios. Na sua Filosofia da História, Hegel, um dos pensadores e filósofos mais influentes do século XVIII, defendeu que “África não é um continente histórico”. As suas ideias fundamentaram uma corrente filosófica, o hegelianismo, que ganhou um espaço amplo na cultura da época. Obviamente, quando ele se referiu à falta de história em África, estendeu o entendimento para as pessoas pretas, os africanos.

Para Hegel, “os povos negros são incapazes de desenvolver e receber uma educação”. Mais tarde, Richard Francis Burton, fundador da Sociedade Antropológica de Londres escreveu na sua obra Mission to Gelele, King of Dahomey - que deveria explorar com respeito um dos últimos Impérios Africanos da história -, “O negro puro coloca-se na família humana abaixo das duas grandes raças, árabe e ariana”.

O eurocentrismo sempre foi intenso em todos países que foram colónias europeias desde as suas fundações, mas o racismo científico que surgiu no século XVIII tornou-se um movimento no Brasil em 1910, com Raimundo Nina Rodrigues como um dos seus maiores defensores. Numa das suas obras, intitulada “Os Africanos no Brasil” e publicada em 1932, ele discursa abertamente:

“Não o pode deter a confusão pueril entre o valor cultural de uma raça e as virtudes privadas de certas e determinadas pessoas. Se conhecemos homens negros ou de cor de indubitável merecimento e credores de estima e respeito, não há de obstar esse facto o reconhecimento desta verdade - que até hoje não se puderam os Negros constituir em povos civilizados”.

Nessa altura, o olhar prejudicado pelo racismo fez com que os historiadores desprezassem os negros e dessem palco nas suas obras apenas aos pontos de vistas e personagens brancos. Facto verificável também na obra de Gilberto Freyre, Casa Grande & Senzala, que chega a romantizar a escravidão com trechos como “O que a negra da senzala fez foi facilitar a depravação com a sua docilidade de escrava”.

É provável que quase todos os grandes nomes da elite intelectual branca e brasileira estivessem alinhados com as orientações racistas dessa historiografia europeia. Só que isso, (muito) recentemente, começou a mudar.

Negros libertam-se para reconstruir o seu conhecimento histórico

Nos EUA aconteceu um movimento único para a intelectualidade negra, talvez o mais antigo desde a abolição da escravatura. Várias entidades negras envolvidas na luta dos direitos civis e contra o preconceito iniciaram as suas próprias universidades e desenvolveram o seu próprio conhecimento, isento do racismo científico. A Morris Brown College foi a primeira universidade historicamente negra do país (1881), anos antes da abolição brasileira. Em 1888, outra universidade negra, a Fisk University, formou o pai da intelectualidade negra norte-americana William Edward Burghardt "W. E. B." Du Bois.


Vê: "Como é ser um estudante branco numa histórica universidade negra dos EUA"


África ainda estava dividida entre os vários impérios Europeus, que impediram a produção intelectual africana por muitos anos, até que o Gana rompeu os laços e se tornou o primeiro país livre, a carregar o lema “"é melhor ser independente para governar sozinho, bem ou mal, do que ser governado pelos outros". Isto é muito recente, aconteceu em 1957. Iniciou-se então um movimento rumo à descolonialização. O termo refere-se, basicamente, a um esforço que reconheça a existência de múltiplas visões que contribuam para o alargamento dos horizontes de experiências e práticas sociais e políticas alternativas, desmontando a exclusão dos conhecimentos de outros povos promovidos pelo monopólio europeu/colonial.

Esse movimento intensificou-se na América Latina por volta de 1990. Porém, grande parte das bibliografias brasileiras ainda apresenta a visão única, protagonizada pelo ponto de vista da colónia, império e militar. Durante a ditadura, os militares limaram muitos esforços de revisitar a historiografia nacional. O grande problema desse período de apagamento histórico é que as provas foram destruídas. Exploradores, historiadores e antropólogos com uma visão racista não estavam interessados em catalogar a vida e a cultura de índios e negros. Eles destruíram a maioria dos documentos, esculturas, registos, artefactos religiosos, mocambos, aldeias e até nomes em língua nativa foram alterados ou silenciados, pois acreditavam que nada tinha valor. O resgate é demorado, requer uma investigação minuciosa das entrelinhas e das narrativas que foram mantidas pelas tradições orais - essas que a historiografia tradicional insistiu em ignorar.

Existe um ditado africano que diz “Até que os leões tenham os seus próprios historiadores, as histórias de caça continuarão a glorificar o caçador”.

O que é o enredo da Mangueira se não um rugido dos próprios leões? Segundo a sinopse oficial do enredo da escola “Levando em conta apenas pouco mais de 500 anos, a narrativa tradicional escolheu seus heróis, selecionou os feitos bravios, ergueu monumentos, batizou ruas e avenidas, e assim, entre o 'quem ganhou e quem perdeu', ficamos com quem 'ganhou'. Índios, negros, mulatos e pobres não viraram estátua. Seus nomes não estão nas provas escolares. Não são opções para marcar 'x' nas questões de múltiplas escolhas”.

Estamos a viver um momento em que a historiografia brasileira está a ganhar novos nomes, novas narrativas e a dar vida e memória a todos aqueles que sofreram nas senzalas e foram mortos a defender o povo negro do país. Temos espaço e autonomia para erguer os novos monumentos para personalidades como a bandeira levantada em homenagem a Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada em Março do ano passado. Novos leões estão a ganhar força no Brasil e o nosso rugido vai contar toda a nossa história e erguer das cinzas um império cultural afro-brasileiro.


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