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Deficientes visuais criam seus próprios memes

Softwares de leitura de tela permitem que deficientes visuais usem a internet, mas eles encontram uma barreira intransponível quando se trata de memes.
3.5.19
A split image showing a braile keyboard and the "distracted boyfriend" meme
Colagem por Lia Kantrowitz de fotos de estoque via Getty and Shutterstock.

Em janeiro, uma foto de uma mulher com uma bengala olhando o celular viralizou no Facebook, com a pessoa que postou sugerindo que ela estava fingindo ser cega, considerando que ela com certeza não conseguiria ver a tela. Apesar de a imagem ter sido compartilhada milhares de vezes por pessoas que achavam que era uma piada, no final os comentaristas foram informados da realidade, que os cegos e pessoas de baixa visão dependem tanto de seus celulares quanto todo mundo.

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Configurações de acessibilidade podem aumentar a tela ou descrever verbalmente o que está acontecendo nela, comandos modificados de fala ou toque tornam possível navegar por softwares e sites sem realmente vê-los. Um punhado de aplicativos para cegos usam a câmera do celular para ajudar com tarefas como contar dinheiro e identificar cores, e podem até emprestar um par de olhos de uma pessoa com visão padrão. Teclados especializados em Braille, teclas grandes e softwares de leitura de tela significam que baixa visão não é um obstáculo para entrar na internet.

Mas tem um aspecto da cultura da internet com que os cegos têm problema: memes.

Desde os dias das imagens macro – aquelas imagens com uma piada simples na legenda – memes se tornaram um jeito universal de se comunicar online. Até o presidente norte-americano usa memes. Mas enquanto o meio progrediu para uma arte quase dadaísta, ficou cada vez mais difícil transmitir as piadas que eles contêm para aqueles que não estão por dentro da cultura da internet. Quem já tentou explicar um meme para um amigo que ainda não viu sabe como é difícil (e como você vai acabar se sentindo idiota). Agora imagine descrever um meme para alguém que não consegue ver e ponto.

“Tenho 25 anos, e como a maioria das pessoas da minha idade, estou sempre na internet”, disse Des Delgadillo, um apreciador de memes totalmente cego de Pico Rivera, Califórnia. “Mas quando se trata de memes, aqueles que estão sempre mudando, se sobrepondo, e ligados a assuntos de nicho, eles são muito difíceis de entender para alguém sem visão. Eles se tornam altamente visuais muito rápido. Para muita gente na minha situação, acho que isso dá uma grande sensação de que estamos perdendo alguma coisa, porque memes são uma grande parte do jeito como as pessoas da nossa idade conversam.”

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Delgadillo, como a maioria dos usuários de computador com baixa ou nenhuma visão, usa software de leitura de tela para grande parte da navegação pela internet. Esses softwares leem os textos, ícones e barra de ferramentas na tela em fala ou Braille, aparando floreios estéticos como animações para ajudar os usuários a focar no que é importante.

Mas os leitores de tela tropeçam em suas tentativas de capturar a essência de imagens. Um programa pode reconhecer o que é um sapo na tela e ler o texto ao redor dele, mesmo sem entender que está olhando para um painel do Foul Bachelor Frog. Mas como um programa poderia tirar sentido de uma renderização em 3D de um sapo num monociclo, ainda mais das variações do Dat Boi cheias de emojis de foguinho?

No passado, o software meramente lia o nome sem sentido do arquivo, deixando o usuário cego com pouca ou nenhuma informação sobre o que ele continha. Hoje muitas publicações online acrescentam manualmente descrições em alt-text em cada foto, para ajudar leitores cegos a entender o que está na cena, mas memes raramente ganham esclarecimentos assim. Esse processo se torna mais difícil e demorado para editores quando vai além de algumas imagens, por isso esses esforços provavelmente são mais paliativos enquanto AIs de geração de alt-text melhoram até poderem ser universalmente implementadas. Mas mesmo depois disso, os memes ainda poderão ser difíceis de analisar.

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“Quando uma empresa me manda uma screenshot, foto com instruções ou um infográfico, eu coloco a mensagem num dos muitos aplicativos de leitura de fotos que tenho, que me ajudam a decodificar esse tipo de imagem”, diz Delgadillo. “Esses aplicativos não funcionam bem com memes. Acho que uma vez escaneei um meme e o aplicativo disse 'Isso é um meme'.”

Como a maioria dos softwares de leitura de tela e imagem conseguem lidar com imagens baseadas em texto com relativa facilidade, memes escritos são relativamente mais simples para os cegos entenderem. Delgadillo aponta para isso como uma das muitas razões para ele e outros cegos serem mais ativos no Twitter, que usa mais texto, que em outras redes sociais. Fontes como o KnowYourMeme ajudam a preencher as lacunas de conhecimento, mas quando GIFs e composições estilo colagem com rótulos, texto não-uniforme e Photoshop são acrescentados na mistura, os programas de leitura logo atingem seu limite.

Jon, um homem cego da Colúmbia Britânica que pediu para não ter seu sobrenome divulgado, demonstrou pelo chat do Skype quão longe os leitores de tela modernos estão de entender a grande forma de arte da nossa era. Quando Jon fez seu leitor analisar a postagem abaixo do grupo do Facebook Illegal Doggo and Puppo Meme Distribution, ele conseguiu o seguinte resultado:

Imagem contém: 1 pessoa

Análise completa: preto, escuridão, branco, céu

Quando recebe uma leitura desse tipo, Jon usa pistas de contexto como o título do post e comentários para ajudar a pintar o resto da imagem. Isso nem sempre é tão fácil quanto parece. No Reddit, sua plataforma preferida para memes, a ambiguidade dos títulos das postagens geralmente só dificulta as coisas, porque “títulos para memes não são nada descritivos, são mais como um remate da piada ou anedotas, então não sei se o meme em questão é superinapropriado ou não”.

Para testar o software, mandei alguns memes para Jon, para que o leitor dele os analisasse e descrevesse os memes, para vermos quão errado o leitor entendia as piadas.

Neste, o leitor do Jon confundiu a palavra “garbage” com “carriage”, tornando a piada ininteligível.

Aqui o leitor deu a Jon apenas o remate, o que obviamente não é ideal.

E o leitor não conseguiu ler nada deste texto.

Mesmo quando o software acertava, como lendo os emojis corretamente, o relacionamento atípico de Jon com os pequenos símbolos o impede de ser totalmente alfabetizado nesse fenômeno cultural. Quando ele disse que tinha entendido que “berinjela e pêssego são usados para bunda”, expliquei que ele estava só meio certo, descrevendo como o emoji de berinjela geralmente é usado. Naquele momento, parece que caiu a ficha para Jon de que ele passou anos entendendo só parte das piadas e comentários.

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Como com qualquer subcultura, a comunidade cega tem seus próprios memes e piadas internas, compartilhadas em chats e plataformas que abordam suas dificuldades e experiências mais comuns – como uma rivalidade entre usuários dos dois leitores de tela mais populares, JAWS e NVDA (similar, me disseram, aos comentários que você pode ver entre usuários de Mac e PC, ou Xbox versus Playstation). No extremo mais sem tato do espectro, há piadas sarcásticas sobre padrões de fala percebido como estranhos e falta de jeito social entre os “sheltereds” ou “blindies” – outros indivíduos com deficiência visual vistos como tendo sido muito mimados em seu tempo na escola para cegos.

Outro tropo comum são os indivíduos bem-intencionados mas irritantes que insistem em orar sobre os cegos quando eles estão em público. “Eles não tendem a invadir seu espaço, ou te tocar, mas a essência do que eles estão fazendo é 'Você está quebrado, deixa eu te consertar'”, disse o usuário do Reddit MostlyBlindGamer, que não quis dar seu nome verdadeiro, mencionando paranoia com privacidade online. “Isso e aquela coisa 'Nossa, você é tão corajoso'. A gente adora ouvir isso.”

Tem uma conta no Instagram dedicada a criar e fazer curadoria de “memes com que os deficientes visuais podem se identificar”, com descrições detalhadas em texto para cada imagem. Algumas pessoas criam esquetes em áudio com as próprias vozes, leitores de texto em fala e arquivos tirados da internet. As criações mais grosseiras dessa leva são postadas no anyaudio.net, que Jon compara com o 4chan.

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MostlyBlindGamer disse que sempre quis fazer um subreddit de memes de cegos, para juntar essas experiências compartilhadas num lugar onde mais pessoas cegas possam encontrá-las, porque “sendo cego, tem muita coisa com que você quer chorar ou rir. Você fica puto ou transforma isso numa piada. Prefiro essa última abordagem”.

Deficiência visual é um espectro, e para os legalmente cegos que ainda possuem alguma visão, pensar em memes é um pouco mais fácil. MostlyBlindGamer tem uma visão de 20/400, o que permite que ele enxergue seu celular e computador com ferramentas de aumento. Ele também elogia a universalidade do modo noturno, que permite inverter o fundo branco da tela para preto, já que muitos usuários de baixa visão têm problemas vindos de sensibilidade a luz. Mas mesmo pra ele, vídeos e GIFs são difíceis de entender.

“Na maioria das vezes, eu pauso e dou zoom, dou play, pauso, dou zoom, dou play, e você simplesmente cansa depois de um tempo”, ele diz. “Quando aquela cena do Hitler [do filme A Queda!] estourou como meme, odiei de morte.”

MostlyBlindGamer, como outras pessoas com quem falei para esta matéria, está otimistas que as AIs vão continuar melhorando até o ponto onde ele consiga entender toda a variedade de memes como uma pessoa com visão padrão. Mas no momento, é muito difícil para ele realmente sacar memes como uma pessoa que enxerga consegue. Quando alguém tenta mostrar a ele algo que ele não entende realmente, ele prefere fingir que entendeu.

“A cultura dos memes é uma questão de compartilhar e espalhar alegria e risadas”, ele diz. “Você não quer ser, tipo, 'Cara, não consigo gostar dessa coisa que você gosta. É uma bosta. Desculpa'. Ao mesmo tempo, você não quer dizer 'Ei, dá pra você pausar esse vídeo que estamos assistindo em cada fala para eu conseguir ler a legenda?'”

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Matéria originalmente publicada na VICE US.

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