Evandro do Dendê, personagem do ator Raphael Logam
Raphael Logam interpreta Evandro. Série Impuros / Divulgação
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Série 'Impuros' une doses de clichês estéticos a personagens complexos

Produção originalmente brasileira sobre narcotráfico carioca nos anos 90 faz sua noite de sexta-feira valer à pena com histórias dramáticas e elenco bem resolvido.

“Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci. E poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. Este clássico da música brasileira , "Rap da Felicidade", é a trilha sonora da série Impuros, que estreia hoje.

Impuros. Talvez o nome já dê alguma dica sobre a trama estar longe das clássicas dicotomias “bem versus mal” ou “bandido versus vilão”. O cenário é Rio de Janeiro, anos noventa, Morro do Dendê e o tráfico de drogas. Com direção de René Sampaio e Tomás Portella, a série aposta nas relações humanas, com personagens cujos dramas pessoais e familiares se entrelaçam no decorrer das cenas.

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É 1989, aniversário do jovem Evandro, interpretado por Raphael Logam que, junto com seu irmão, acabam de completar 18 anos. Um sonha em ser empresário e ganhar dinheiro com o próprio negócio. Já o irmão quer entrar para o exército e seguir carreira. Ambos desejam uma vida melhor daquela predestinada para muitos que na favela moram. Mas as coisas não seguem como planejam. E é a partir daí que as histórias se cruzam.

Além de Evandro, outro protagonista é um policial alcoólatra de meia idade interpretado por Rui Ricardo Dias, que logo entra na trama expondo seus dilemas pessoais. Sua missão é crucial na trama. Destaque para a atriz Cyria Coentro, que constrói de forma densa a mãe de Evandro, uma mulher de personalidade forte que luta para educar seus dois filhos na ausência do pai.

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Policial Victor Morello, interpretado pelo ator Rui Ricardo Dias

Histórias profundas e alguns clichês estéticos

Impuros poderia ser mais uma série retratando o tráfico em uma favela qualquer do Rio Janeiro. Poderia ser mais uma produção sobre os dilemas de um jovem negro pobre brasileiro e sua relação complicada com a mãe, um pai ausente etc. Nada de novo quando o assunto é periferia no Brasil, não é mesmo? E é.

Acontece que o universo do tráfico e das favelas do Rio de Janeiro já faz parte do nosso imaginário e um dos grandes responsáveis por essa construção é o cinema brasileiro. Ao ver Impuros é impossível você não lembrar de Cidade de Deus e o personagem Zé Pequeno, interpretado pelo ator Leandro Firmino, que integra o elenco da produção.

Falar em estética negra é necessário mencionar Zózimo Bulbul, cineasta e ator negro, que dirigia seus próprios filmes. A busca por uma nova estética e outras representações dos corpos negros em cena fez com que Bulbul marcasse seu nome na cinematografia brasileira. Mas por que falar em de Bulbul? Respondo com outra pergunta: por que mais um protagonista negro quando o assunto é favela e tráfico? Respeitemos a verossimilhança e as estatísticas, mas em tempos de debates raciais, o cuidado se faz necessário.

Problemáticas estéticas à parte, Impuros avança alguns degraus e mostra-se como uma série bem produzida e de roteiro maduro. Com personagens bem construídos para além de alguns clichês, a série aborda complexidades de pessoas comuns que têm desejos e conflitos.

As gravações de Impuros duraram cerca de dois meses em locações no Brasil e Uruguai, a carga dramática das cenas é um ponto forte, fator esse acrescido por conta do elenco, com nomes como André Gonçalves (O Homem do Ano), Fernanda Machado (Confia em Mim), Antônio Carlos Santana (Força do Querer), João Vitor (Rock Story), Cadu Favero (Tropa de Elite 2), Peter Brandão (Babilônia), Sérgio Malheiros (Malhação), Leandro Firmino (Cidade de Deus), Lorena Comparato (Rock Story), Gillray Coutinho (#MeChamadeBruna), Vinícius Patrício (A Menina Índigo), Karize Brum (Rebelde), o uruguaio César Troncoso (Infância Clandestina).

Impuros será exibida semanalmente, toda sexta-feira, às 22h.