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Identidade

Anti-semitismo: ataques a judeus em Nova Iorque duplicaram em 2019

Extrema-direita, extrema-esquerda e gentrificação. Na narrativa da História do Mundo, o Homem branco é o herói... E o resto são bichos.

Por Inês Costa Monteiro; fotos por Inês Costa Monteiro
27 Novembro 2019, 6:46pm

Cheguei a Nova Iorque a 5 de Novembro. Uma semana antes, uma amiga tinha visitado a cidade e disse-me que do que eu mais ia gostar era de Williamsburg. “Uma verdadeira viagem no tempo”, descreveu. Fiquei com aquilo na cabeça, mas não dei muita importância — até porque nem compreendi bem.

Depois de acordar cheia de jet lag, fui dar uma volta pelas redondezas do meu hotel, em Brooklyn. Sem internet no telemóvel (aka sem mapa) e num bairro acabado de despertar, dei por mim na zona de que ela me tinha falado. Seria? Efetivamente, havia pessoas que pareciam vindas de outro mundo, mas como em Nova Iorque nunca se sabe muito bem o que é que se está a ver, não dei muita importância. Até que comecei a andar. Foi aí que dei conta das subtis nuances: casas de tijolo; mães à porta enquanto as crianças entravam no grande e vistoso autocarro escolar amarelo com caracteres hebraicos; as roupas pretas de corte direito, os chapéus, os cabelos encaracolados, as barbas compridas.

Não fotografei por respeito. Não parei para apreciar porque não quis que se sentissem peça de museu. Também não meti conversa para que não se sentissem invadidos. Continuei a minha vida nos dias que se seguiram, mas sempre com aquelas imagens desse primeiro dia na cabeça. Todas as noites, antes de adormecer, ligava a televisão do hotel e corriam notícias sobre a duplicação de ataques a judeus. Onde? Em Brooklyn.

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Todas as fotografias são da autoria de Inês Costa Monteiro.

Parecia uma notícia falsa lançada por Donald Trump. Mas não era: uma pesquisa rápida pela Internet mostrou-me que não eram só os canais de notícias judaicos que falavam disto. A CBS, o New York Times ou o Bklyner davam conta do mesmo.

De acordo com a NYPD (o departamento de polícia da Nova Iorque), houve um aumento de 82 por cento nos ataques anti-semitas, em relação a 2018. Além de agressões físicas e dos pseudo-assaltos — em que os ladrões não levam nada —, vários jornais locais relatam outro tipo de violência. Gritos de “Allahu Akbar” ao longe, conversas como “Conhecem Hitler? Nós adoramo-lo” ou suásticas desenhadas em parques infantis são só alguns dos exemplos do que já aconteceu este ano. Aqui, a idade também não é um fator decisivo para se traçar o alvo de um ataque: das crianças aos idosos, todos são potenciais vítimas. O critério é só um: basta serem judeus.

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Todas as fotografias são da autoria de Inês Costa Monteiro.

Mas porque é que isto está a acontecer? E quem é que são os atacantes?

No último dia, antes de seguir viagem para São Francisco e ainda com esperança de ter tempo para perceber o que se estava a passar, fui outra vez parar a Williamsburg. Não foi planeado, aconteceu. O destino tem destas coisas: ia com um amigo em direção a Dumbo para vermos a Brooklyn Bridge e o Google Maps (já a funcionar) decidiu levar-nos ao bairro onde tudo começou — e que era, precisamente, o palco destas notícias.

O vírus do anti-semitismo parece estar de volta com a ascensão da extrema-direita, extrema esquerda e radical islâmico, como indica a historiadora Deborah Lipstadt. Mas, no coração deste bairro de NY, os ataques à minoria judaica são exercidos por outras minorias — sobretudo adolescentes, muitos afro-americanos. O contínuo crescente dos que erguem a bandeira da supremacia branca parecem, afinal, não ser a única raiz do problema.

Ao contrário do que se passa noutras cidades, os ataques à comunidade judaica que aqui acontecem parecem ser os únicos cometidos por uma minoria jovem que, sendo também um alvo da supremacia branca, ataca um judeu física e psicologicamente, proferindo frases como “Hitler devia ter terminado o seu trabalho” — ignorando que, caso este o tivesse feito, o atacante também teria morrido.

A polícia classifica, assim, estes ataques como “ignorantes”, afirmando que a maioria dos que os praticam “nem consegue identificar uma suástica”. Só que a violência persiste, nesta espécie de “velho-novo anti-semitismo”. Não existindo razões para discriminar uma parte da população que integra a sociedade há milhares de anos, os motivos para estes atos erguem-se, agora, sobre um ódio injustificado, que nasce da ignorância e do fanatismo, absolutamente pacóvios e gratuitos. Como veículo de disseminação, contam com a falta de conhecimento e de compreensão da diferença.

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Todas as fotografias são da autoria de Inês Costa Monteiro.

Para este retrocesso de 75 anos, contribuem os fatores pós-crise de 2008. Williamsburg parece ser uma vítima por si só: além dos ataques violentos, esta comunidade sofre também dos efeitos da gentrificação e do consequente aumento de tours turísticas na zona. O “NY Post” escreveu, a 7 de setembro, que os judeus ortodoxos estavam cansados de serem fotografados “como animais” por turistas.

Não são só os judeus que estão fartos. Quando em julho visitei Marraquexe, em Marrocos, sempre que passava por alguém, além do véu que tinha na cabeça, também as mãos lhes tapavam o rosto. No último dia de viagem, um rapaz veio ter com o grupo em que eu estava e explicou os motivos: “Nós somos diferentes para vocês, mas vocês também são para nós. Acho que não iam gostar de serem fotografados apenas por isso. Vão chegar ao vosso país e dizer ‘olha um muçulmano que vi na rua?”.

É verdade. Eu não ia gostar de ver um grupo de turistas chineses a fotografarem-me no Martim Moniz — que por mais que seja a zona de Lisboa onde eles estão fixados, é também o sítio em que eu vivo e onde faço a minha rotina diária. Imaginem um grupo de pessoas oriundas de África a fazerem uma tour porque nunca viram pessoas brancas? Tendo em conta as circunstâncias, seria justo. Mas não acontece, porque na narrativa da História do Mundo o Homem branco é o herói... E o resto são bichos.

Com o evoluir da economia e com os consecutivos governos a perceberem que o turismo é uma fonte de receita vital para as finanças de um país, é impossível que não se venda tudo aquilo que possa ser comprado — seja um souvenir chupa-chupa com a cara do Trump, seja uma visita guiada a um bairro que, efetivamente, parece ter parado no tempo. Mas para quem? O The Post participou numa destas tours e deu conta de que, nestes passeios, são comuns os comentários que reforçam estereótipos desatualizados. Quando o autocarro entrou em Williamsburg, o guia comentou o estilo de vida ortodoxo utilizando frases como: “É considerado errado tocar nos corpos. Como é que podem procriar? ou “Vejam esta mulher, tão nova e já com tantos filhos.”

O problema parece residir na ausência de interesse em conhecer a cultura, em prol de uma curiosidade superficial. O caso de Max Hauer, 41 anos, residente deste bairro, serve de prova: conta que se tentou envolver com os participantes destas tours, mas que estes não estavam interessados em aprender mais sobre a cultura.

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Todas as fotografias são da autoria de Inês Costa Monteiro.

Sábado parece ser o dia com mais fluxo e, por coincidência, foi também o dia em que percorri o bairro, desta vez ciente de onde estava. Os homens usam grandes chapéus de pele, chamados shtreimels e vão à sinagoga. Há quem lhes peça para tirar fotografias, mas a resposta é sempre não, dado que um dos valores mais fortes desta religião reside na modéstia.

Eu não pedi autorização, confesso. Também não levantei a máquina fotográfica ao nível dos meus olhos. Fui tirando fotografias com ela pendurada no pescoço — como é pequena, muitos nem se aperceberam, ou seja, não se sentiram incomodados. Nesse dia, não havia muitos turistas na rua. Senti-me realmente diferente. Sabia que não pertencia àquele bairro, sabia que era impossível passar despercebida. Se calhar houve quem tivesse comentado o meu cabelo, a minha roupa justa e o meu grande casaco vermelho. Mas o que é um dia comparado com uma vida?

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Todas as fotografias são da autoria de Inês Costa Monteiro.
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Todas as fotografias são da autoria de Inês Costa Monteiro.
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Todas as fotografias são da autoria de Inês Costa Monteiro.

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