Morrissey e o quarto dos sonhos pop
O imberbe Steven Patrick a criar incessantemente entre a música e os livros. Foto cortesia Entertainment One.

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cinema

Morrissey e o quarto dos sonhos pop

"England is Mine" revela-nos uma uma adolescência e início de juventude de desejos, aborrecimentos e as mulheres que rodeavam o co-fundador dos The Smiths. Estreia a 16 de Novembro nas salas portuguesas.
6.11.17

Os The Smiths são obrigatórios para quem procura uma fuga "indiependente" da rotina. Se houve quem afirmasse que todos, um dia, deviam contactar com a obra de Bob Dylan, o mesmo se deve aplicar a nomes como Leonard Cohen, The Velvet Underground, Patti Smith, Stevie Wonder, Kraftwerk, Billie Holliday, ou aos autores do seminal álbum The Queen is Dead.

Ver o biopic England is Mine é, por isso, uma oportunidade de descobrires por onde deambulava a mente do ex-frontman da banda de Manchester antes de usar a conhecida poupa (vê o trailer abaixo).

O quarto do teen Morrissey (numa interpretação razoável de Jack Lowden) é o centro nevrálgico do argumento. A máquina de escrever, os discos de vinil, os livros, os posters de Oscar Wilde e James Dean, ou as folhas onde apontava os pensamentos e os poemas, são o pilar central no exercitar dos seus dreams & wishes.

Um refúgio protegido pela mãe e criticado pela irmã - as duas pessoas com quem vivia antes de o pai abandonar o lar. São elas - e mais outras três - que servem de suporte a um rapaz que se divide entre a sede de escrever (em tudo o que é local) e a arrogância e insatisfação para com a realidade que o rodeia.

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O lado materno que o encoraja; a sister com quem invariavelmente discorda; a friend racional que se cansa de o ver fechado sobre si próprio; a colega "chatinha" que anseia por algo íntimo; e a amiga artista com um look a fazer lembrar um outro Smith - o Robert, dos The Cure. E é esta última, Linda Sterling (papel desempenhado por Jessica Brown Findlay), que o trata carinhosamente por "Shakespeare" e com quem partilha uma amizade cheia de referências literárias e o gosto pelas artes.

Das bandas improváveis, até à visita inesperada de Johnny Marr

Com alguma surpresa - pelo menos para quem não conheça o passado longínquo de Morrissey - , a força do universo feminino está igualmente patente na admiração por girl groups como The Shangri-Las e The Marvelettes. Nomes que estavam fora dos modernismos daquela época (final dos anos 1970), mas com os quais também se identificava fortemente, casos dos The New York Dolls, Roxy Music e The Clash. De certo modo, a simplicidade pop de temas como Give Him a Great Big Kiss, das Shangri-Las - vê o vídeo abaixo -, mostra a sua tendência para desejar o outro e não a outra.

Neste domínio, quando a colega de escritório o tenta seduzir para sua casa e ele foge sem nenhum sinal de arrependimento, dissipam-se as dúvidas quanto à sua orientação sexual - se bem que a rejeição podia ser pelo facto de ela ser intelectualmente enfadonha. Noutro campo de preferências, e sabendo a sua actual repugnância em relação ao consumo de carne e ao abate de animais, há uma cena em que vemos cenouras, ervilhas e empadão de batata no seu prato. Elucidativo, não?

A obra de Mike Gill está longe de atingir a solidez de outros filmes biográficos sobre personalidades da música como Walk The Line (de James Mangold, em 2005), centrado em Johnny Cash, e Control (Anton Corbijn, 2007), à volta de Ian Curtis, mas tem o condão de mostrar as particulares escolhas do imberbe Steven. Não deixa de ser curioso que o recente single, Spent The Day In Bed, critique um facto que o atormentava já nessa altura.

Linda Sterling e Morrissey. Uma amizade "baptizada" por heróis como Shakespeare e Oscar Wilde. Foto cortesia Entertainment One

Ao ouvirmos "Eu passo o dia na cama, enquanto os trabalhadores são escravizados" e quando canta repetidamente "no bus, no boss, no rain, no train", confirmamos o que se vê no grande ecrã. O emprego aborrecido, o patrão irritante e um ambiente de trabalho que despreza. Uma actividade profissional que, por outro lado, tinha a sua utilidade. Em diversos momentos, serve para a sua imaginação fluir no caderno de apontamentos e, além de contribuir para as despesas familiares, sustenta a ida a concertos – o dos Sex Pistols é um dos exemplos mais notórios. E, com o intuito de ver a criatividade pessoal ao serviço de "outros palcos", vemo-lo a perseguir os anúncios na imprensa que procuram músicos para formar uma banda em Manchester.

Quando esse objectivo se torna real (o de ser vocalista e a possibilidade de mostrar as suas palavras), a decepção acontece e com ela aparece a fase depressiva. Anos mais tarde (em 1982), inesperadamente, Johnny Marr - com quem formou os Smiths - bate à sua porta. A partir daí, é a história que se conhece.

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England is Mine tem o sal necessário para veres as linhas com que se cosia um dos ilustres compositores contemporâneos, antes de saltar para as primeiras páginas do Melody Maker e do New Musical Express. A estreia em Portugal acontece a 16 de Novembro e no dia seguinte é lançado o novo álbum de Moz, Low in High School.

O título do filme é baseado num verso da canção Still III, incluída no primeiro e homónimo LP editado há quase trinta e quatro anos. Podes ouvir This Charming Man, uma das canções mais conceituadas desse disco, no videoclip abaixo. Por fim, não tenhas problemas em venerar o artista em si, apesar de algumas das suas opiniões pessoais sobre o Mundo serem no, mínimo, execráveis…

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