Como centenas de mulheres se uniram para denunciar os abusos de James Toback
(Foto por Hubert Boesl/picture-alliance/dpa/AP Images). Imagem por Lia Kantrowitz.)
reportagem

Como centenas de mulheres se uniram para denunciar os abusos de James Toback

Um grupo de 200 mulheres acusa o diretor de assédio sexual. Explicamos por que elas não irão desistir até que ele vá preso.
MS
Traduzido por Marina Schnoor

Matéria originalmente publicada na VICE US.

Ambika Leigh se mudou para Los Angeles para tentar a carreira de atriz em 2007, e quase que imediatamente sua visão idealizada de Hollywood não combinou com a realidade do lugar. Algumas de suas primeiras lembranças da indústria incluem o pedido para que ela fizesse uma cena de sexo com o diretor de elenco, além de fazer um boquete para um empresário no banheiro de um restaurante. Mas a pior das lembranças talvez seja a de quando o diretor que bancava seu mentor há meses se esfregou na perna dela até gozar na calça.

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Hoje, Leigh é uma cineasta de sucesso graças ao seu próprio mérito. Mas ela nunca esqueceu aqueles primeiros episódios, e depois que o escândalo de Harvey Weinstein estourou no começo do mês, ela decidiu compartilhá-los com o mundo. Num post do Facebook publicado em 8 de outubro — dias depois da campanha #MeToo ganhar atenção internacional —, Leigh nomeou James Toback como o diretor que abusou dela. E mesmo depois que a postagem recebeu uma cascata de compartilhamentos e comentários de mulheres com experiências similares, a solidariedade não durou muito: três dias depois, o Facebook tirou o post do ar em nome de suas diretrizes antiassédio.

"O maior gatilho para mim foi escrever o post inicial", me disse Leigh. "Postar foi empoderador, mas ser censurada pelo Facebook me fez chorar." (O Facebook se desculpou e voltou a postagem de Leigh ao ar depois de pedidos. Um porta-voz da rede social esclareceu que nenhuma lei contra assédio foi violada.)

Ainda assim, nos últimos dias, um grupo cada vez maior de mulheres que acusam Toback de cometer assédio sexual — segundo o LA Times, o número já está em 300 — percebeu que não precisa contar com uma postagem nas redes sociais para atrair atenção para os supostos crimes cometidos pelo diretor. Em vez disso, elas começaram um fórum privado online para juntar acusações individuais e trabalhar com a mídia e a polícia. Se essas mulheres conseguirem que Toback seja acusado de algum crime sexual, objetivo final da reunião de mulheres, suas histórias podem servir como mapa para vítimas que querem denunciar homens poderosos do entretenimento e outras indústrias nos EUA. (De sua parte, Toback ainda não negou as acusações e não comentou sobre sua conduta sexual, ele também não respondeu os pedidos de entrevista para esta matéria.)

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O repórter do LA Times Glenn Whipp começou a cutucar as histórias em torno de Toback por volta da mesma época em que Leigh e outras mulheres passaram a postar relatos nas redes sociais e plataformas como o Medium. Ele conversou com algumas vítimas, e logo estava recebendo uma avalanche de telefonemas. "A impressão que eu tinha era que essas mulheres queriam contar uma história que tenha um peso coletivo maior, em vez de procurar meios separados", me disse Whipp. Sua matéria enorme sobre as 38 mulheres que acusam Toback de assédio foi finalmente publicada no último 22 de outubro.

Em entrevistas, as mulheres que acusam Toback confirmaram o palpite de Whipp. A esperança era que contar histórias muito parecidas para um único repórter pudesse fazer promotorias de Nova York ou LA agirem, especialmente diante do ultraje com a história de Weinstein, que está sendo investigado agora pela polícia de pelo menos três cidades.

Apesar do argumento de que procurar a imprensa antes da polícia pode reduzir a credibilidade de uma pessoa diante do júri, Jane Anderson, consultora de direito da AEQuitas — um grupo que ajuda promotores a montarem casos de assédio sexual — disse que histórias com várias fontes ajudam a mudar a opinião pública sobre o comportamento das vítimas. A ideia é que se pessoas comuns descobrirem através da mídia que as vítimas frequentemente se sentem intimidadas para falar com a polícia logo depois do incidente, elas podem acabar servindo como jurados mais simpáticos com a ideia da vítima vir a público anos ou décadas depois.

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Anderson acrescentou que falando em número significativo, as vítimas também podem fazer outras pessoas bloqueando seu abuso perceberem que não são loucas — e também contar seus próprios segredos.

"O trauma engana seu cérebro para pensar que ele não foi tão sério assim ou que o abuso não aconteceu", me disse Anderson. "Se outra pessoa diz que isso aconteceu com ela também, isso valida a experiência. A eficiência dessa terceirização faz sentido para mim."

E também faz sentido para Becka Thompson. Ela conta sua "história com Toback" para amigos há anos, mas sempre deixou alguns detalhes de fora para dar um tom irônico em vez de horror para o incidente. Thompson estava nas primeiras semanas na Julliard em 1998, quando Toback cruzou com ela durante um intervalo. Ele perguntou se ela era atriz e disse que queria que ela lesse seu último roteiro, disse Thompson. Ela quase não acreditou — especialmente porque estava usando um conjunto de moletom na hora —, mas o colega de Julliard Wes Bentley tinha recentemente sido escalado para Beleza Americana, então ela achou que às vezes coisas assim podiam acontecer.

Avançando para alguns dias e algumas reuniões depois, segundo Thompson, Toback a convidou para jantar em seu apartamento com a esposa dele. Claro, quando a jovem de 23 anos chegou lá, o lugar estava com uma iluminação suave — e Toback era o único em casa.

Segundo Thompson, ele começou a perguntar quanto ela se masturbava e quanto pelo pubiano ela tinha, espelhando parte de uma história que a atriz Rachel McAdams contou a Vanity Fair semana passada. Quando ele perguntou se ela era virgem, Thompson pensou que seria estuprada. Ela fugiu pela porta enquanto Toback dizia que ela estava cometendo o maior erro de sua vida, ela relembra.

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Thompson lembra de se virar saindo do prédio para ver se ele não estava atrás dela, e pensar "Você é só uma garota assustada de Minnesota". Mais tarde, ela assistiu o colaborador de Toback Robert Downey Jr. estourar com Homem de Ferro, e passou boa parte de sua vida adulta imaginando se não tinha perdido sua grande chance por não ter passado em algum tipo de teste.

Agora ela é parte do grupo de apoio das vítimas de Toback, e Thompson, hoje com 42 anos, não consegue deixar de pensar que se salvou sendo uma pessoa desencanada que não usa bolsa e pode fugir rapidamente de uma sala.

No momento, o grupo de acusação de Toback — que usa uma plataforma cujo nome as membros me pediram para não revelar — está tentando estabelecer como proceder. Isso não é fácil quando tanta gente está determinada a finalmente ser ouvida. Algumas estão desesperadas em busca de justiça imediata, enquanto outras pedem paciência. Como nenhuma mulher acusou Toback publicamente de um crime óbvio como estupro, as mulheres estão tentando descobrir a jurisdição certa para montar um caso.

Recentemente elas vêm trabalhando com a Rede Nacional de Estupro, Abuso e Incesto (RAINN em inglês) para criar uma hotline específica para vítimas de Toback.

A longo prazo, elas também querem ir atrás de algumas pessoas e instituições que elas acreditam que permitiram que Toback fizesse essas coisas, como amigos poderosos e organizações da indústria de que ele faz parte. Em sua postagem no Facebook, Leigh escreveu que ela estava na casa do megaprodutor Brett Ratner quando Toback abusou dela. (Apesar de ele não estar na casa na hora do incidente, Gal Gadot se recusou a ir a um jantar celebrando Ratner na sexta passada.)

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Não importa para onde elas vão daqui, essas mulheres estão gratas por finalmente terem um meio para conseguir alguma cura.

"Em vez de encerramento, temos catarse", explicou Leigh, que conseguiu encontrar o grupo depois que o Facebook tirou seu post do ar. "Isso está deixando muitas mulheres acordadas à noite imaginando como essa história vai terminar. Acho que muito do silêncio em torno disso foi por vergonha. Ele é claramente um pervertido. Ele parece muito um pervertido. Que mulher em seu juízo perfeito olharia para ele e pensaria 'Sim eu quero ir para o seu quarto de hotel?' Que personagem desagradável ele é. E que alívio é ver que — caralho — há literalmente centenas de mulheres que acreditaram nesse mestre da manipulação."

O grupo de apoio até gerou um encontro no mundo real, do qual participei em Manhattan na última terça (31). Um punhado de mulheres se reuniu em um bar em Midtown, trocando histórias e fantasiando sobre o que pode acontecer com o homem cujo abuso — em alguns casos — consumiu o que parecia ser a vida inteira delas. O clima era alegre mas tenso: quando um homem aleatório apareceu oferecendo cupons para drinques grátis, uma delas disse que se arrepiou. Mas no final, como com o grupo online, o número delas ali trazia uma certa segurança.

Várias mulheres aceitaram os cupons do bar e pediram taças de vinho. Depois continuaram comemorando o fato de terem se encontrado, e vislumbraram o que elas esperam que seja muito mais que o final da carreira desse homem.

"Nos chamávamos de As 7 Magnificentes, depois de As 38 Originais, e agora temos um exército de mais de 200 pessoas", disse Starr Rinald, estilista e planejadora de eventos. "Somos espartanas. O que você acha de nós agora, James Toback?"

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