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Viver de frila pode ser uma bosta

Sem chefes, sem problema? Não é assim, meu consagrado. A economia do biscate tem todo tipo de armadilhas.

Quando Heather McKay começou sua empresa de fotografia 15 anos atrás, o plano era simples: fotografar o quanto a sua carreira fosse viável e seguir os passos de fotógrafos experientes antes dela, vendendo a empresa para um fotógrafo jovem quando ela estivesse pronta para dar aulas, consultoria ou se aposentar.

Agora “não existe nenhuma chance para isso”, diz a fotógrafa de 43 anos baseada em Rochester, Nova York. Graças a “todo mundo quer descolar um trabalho extra”, além da popularidade do Instagram, da fotografia de iPhone e do conceito de branding pessoal, a empresa de McKay não é mais um ativo que ela possa vender, e isso é apenas um dos malditos efeitos colaterais da crescente economia pejotinha.

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Mais de 57 milhões de norte-americanos, algo em torno de um terço da força de trabalho do país, trabalha como freelancer. O número pode crescer para 43%, de acordo com um estudo recente da Intuit and Emergent Research. No Brasil, estima-se que 32 milhões de pessoas trabalham sem carteira assinada. Frilar é um lance muito popular entre os jovens, com cerca de metade dos millennials trabalhando dessa maneira hoje em dia.

Enquanto as vantagens de ser o próprio patrão são muitas – uma agenda flexível, a inexistência de regras no local de trabalho e a liberdade para trabalhar em qualquer lugar são apenas algumas – também há um sem-número de consequências negativas em uma economia cada vez mais baseada em trabalhos com contrato de curta duração, especialmente quando muito do sistema econômico – de alugar uma casa a descolar um plano de saúde – parte da premissa que você tem um trabalho estável com uma renda previsível.

“A organização da nossa sociedade é baseada na CLT, não no pejotinha”, diz Robert McGuire, editor do Natio1099, um site dedicado a educar freelancers, empreendedores e biscateiros. “Tudo – saúde, planos de aposentadoria, etc. – é construído em torno desse modelo. Vender suas habilidades [ou produtos] por dinheiro é uma maneira diferente de trabalho: é possível ser bem sucedido, mas é precisa ficar de olho aberto para as potenciais armadilhas e desvantagens.”

E na medida em que os freelancers ficam mais fáceis de se descolar – qualquer um com um carro e uma carteira de motorista válida pode dirigir para o Uber ou 99 – a oferta aumenta e os preços caem. Quando todo mundo é motorista, jornalista, fotógrafo ou massagista, é difícil separar os profissionais dos amadores, e o valor do trabalho diminui.

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A grana não é tão boa quando você desconta os benefícios que um empregado normal desfruta

Freelancers contribuíram em US$ 1,4 trilhão para a economia dos EUA em 2017, mas o dinheiro está em todo lugar, com motoristas em meio expediente do Uber faturando um punhado de dólares por mês e freelancers da indústria de tecnologia levantando até US$ 150.000 por ano. O freelancer norte-americano ganha em média US$ 31 por hora, mas você não consegue colocar o preço no tempo para ir ao médico, cuidar do filho doente ou tirar férias.

Num mês lento um freelancer pode descolar um trampo fazendo entregas, enquanto um motorista do Uber pode gastar tempo sentando em seu carro escrevendo poesia na esperança de vendê-la um dia. Em torno de 85% dos frilas em meio expediente faturam uma média de US$ 500 por mês, de acordo com uma análise publicada em 2017 pela Earnest, o que significa que as pessoas que estão vendendo serviços via Airbnb, Etsy, Doordash e outros aplicativos populares pra levantar uma grana na verdade estão usando essas conveniências modernas como uma entrada adicional de renda, ao invés de tentarem criar uma carreira juntando diferentes tipos de trabalho.

Freelancers também têm despesas extras que pessoas empregadas não têm, incluindo suprimentos e espaço de escritório (um badalado espaço de coworking), assinaturas (incluindo publicações, aplicativos e ferramentas como o Microsoft Office), além de tudo o mais que precisar para o trabalho (como ferramentas reais, um veículo, material de limpeza, equipamento, etc.).

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E esqueça de outros benefícios dos CLTistas, como férias remuneradas, idas ao médico ou licença-maternidade. Uma semana com gripe ou em uma emergência familiar é ao menos uma semana sem salário – e normalmente mais que isso, dependendo das consequências de adiar o trabalho ou ficar sem adicionar novos trampos quando se trabalha por comissão. Freelancers também estão num mato sem cachorro em relação a plano de saúde, economias para a aposentadoria e custos de deslocamento.

Direitos trabalhistas vão pelo ralo

Apesar da ideia de não ter patrão soar maravilhosa, ela vem com um preço: não existe proteção trabalhista, especialmente no caso de assédio sexual. Como Nathan Heller descreveu na New Yorker em janeiro, “freelancers estão altamente vulneráveis [ao assédio]. Eles têm pouquíssimo apoio institucional e poucos (ou nem têm) supervisores”.

Esses trabalhadores também estão mais suscetíveis à discriminação por gênero, diz o site The Conversation. Isso porque as normas de trabalho estão mais bem delineadas dentro de uma relação patrão-empregado. “Na medida em que as relações tradicionais entre patrão e empregado são substituídas por transações peer-to-peer em uma escala global, a aplicação de leis trabalhistas anti-discriminação se torna um desafio.”

Existem “diferentes estruturas e dinâmicas hierárquicas entre freelancers e seus clientes” em relação a pessoas alocadas em situações de trabalho mais formais, explica Jaime-Alexis Fowler, fundador do grupo de apoio a trabalhadores Empower Work. “Em uma situação em que [um empregado] pode entrar com uma reclamação do RH, [freelancers] não contam com essa oportunidade”, diz Fowler.

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Isso está piorando a vida de todos

Você pode imaginar que um frila de meio expediente pode ser bom pra você e para economia – imaginando que quanto mais você fatura, mais pode gastar – mas existem consequências inesperadas para seus vizinhos. Isso varia de serviços de motorista entupindo as ruas das cidades ao aumento do custo de moradia devido a aluguéis de curto período.

O lucrativo negócio dos aluguéis via Airbnb já foi apontado como culpado de todo tipo de problema, do aumento do custo dos aluguéis à falta de moradia em New Orleans e Nova York. Enquanto isso, a cidade de Vancouver recentemente impôs regulações estritas a usuários do Airbnb, permitindo que anfitriões coloquem apenas a sua residência primária para locação no site, prevenindo que ricos estabeleçam um monopólio em moradia ao comprar propriedades como investimento e anunciá-las para aluguel no site.

“O Airbnb afeta as taxas de aluguel ao reduzir a oferta de moradias no mercado do longo prazo”, explica Davide Proserpio, professor assistente da Marketing University of Southern California, que tem estudado esses efeitos. Na medida em que senhorios mudam seus aluguéis de longo prazo para curto prazo, há uma redução na oferta do mercado de longo prazo, e isso, por sua vez, aumenta os preços.

O representante do Airbnb Cristopher Nulty defende a plataforma dizendo que ela reduz os custos de moradia ao permitir que as pessoas aluguem parte da sua casa. “Enxergamos o compartilhamento de moradia como uma oportunidade econômica realmente importante para todo mundo, em todas as comunidades”, ele diz.

Além disso o Airbnb pode aumentar o valor de um imóvel na vizinhança, explica Proserpio, na medida em que “o acréscimo no preço dos aluguéis é capitalizado para o valor dos imóveis em si”. Mas se você é um autônomo apenas se estrepando na tentativa de ganhar um troco para viver, isso não parece um grande consolo.

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