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Viver como freelancer pode ser uma merda

Sem chefes, sem problemas? Não é bem assim, meu caro. A "economia do biscate" tem, em si, todo o tipo de armadilhas.

Por Melissa Kravitz; ilustração por Xavier Lalanne-Tauzia
21 Maio 2018, 10:35am

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Free.

Quando, há 15 anos, Heather McKay fundou a sua empresa de fotografia, o plano era simples: fotografar o máximo possível até consolidar a carreira e, depois, tal como tantos outros profissionais antes dela, vender a empresa a um fotógrafo jovem quando estivesse pronta para dar aulas, consultoria ou retirar-se.

Agora, já “não há qualquer possibilidade para isso”, diz a fotógrafa de 43 anos, que vive em Rochester, Nova Iorque. Graças ao facto de “toda a gente querer sacar um trabalho extra”, para além da popularidade do Instagram, da fotografia de smartphone e do conceito de branding pessoal, a empresa de McKay deixou de ser um activo que ela possa vender e esse é apenas um dos malditos efeitos colaterais da crescente "economia do biscate".

Mais de 57 milhões de norte-americanos, à volta de um terço da força de trabalho do país, trabalha como freelancer. O número pode crescer para 43 por cento, de acordo com um estudo recente da Intuit and Emergent Research [em Portugal, de acordo com dados da Pordata, em 2017 contabilizavam-se cerca de 785 mil trabalhadores por conta própria]. O freelance é muito popular entre os jovens, com cerca de metade dos millennials a trabalharem dessa forma hoje em dia.


Vê: "A Terceira Revolução Industrial: uma nova e radical economia de partilha"


Enquanto as vantagens de ser o próprio patrão são muitas – uma agenda flexível, a inexistência de regras no local de trabalho e a liberdade para trabalhar em qualquer lugar, são apenas algumas – também há um sem-número de consequências negativas, numa economia cada vez mais baseada em trabalhos com contrato de curta duração, especialmente quando muito do sistema económico – de alugar uma casa a conseguir um seguro de saúde – parte da premissa que tens um trabalho estável, com uma rendimento previsível.

“A organização da nossa sociedade é baseada no salário fixo, não no biscate”, diz Robert McGuire, editor do Natio1099, um site dedicado a educar freelancers, empreendedores e biscateiros. “Tudo – saúde, planos de poupança reforma, etc. – é construído em torno desse modelo. Vender as próprias capacidades [ou produtos] por dinheiro é uma maneira diferente de trabalho: é possível ser bem sucedido, mas é preciso estar de de olhos bem abertos para as potenciais armadilhas e desvantagens”.

E, à medida que os freelancers se tornam mais fáceis de encontrar – qualquer um com um carro e uma carta de condução válida pode conduzir para a Uber ou Cabify, só para dar um exemplo – a oferta aumenta e os preços caem. Quando toda a gente é condutora, jornalista, fotógrafa ou massagista, é difícil separar os profissionais dos amadores e o valor do trabalho diminui.

O dinheiro não é assim tão bom quando pensas nos benefícios de um "empregado normal"

Freelancers contribuíram com 1,4 biliões de dólares para a economia dos EUA em 2017, mas o dinheiro está em todo o lado, com condutores em part-time da Uber a facturarem "meia dúzia de tostões" por mês e freelancers da indústria da tecnologia a sacarem até 150 mil dólares por ano [cerca de 130 mil euros]. O freelancer norte-americano ganha em média 31 dólares por hora [à volta de 26 euros], mas é complicado meter um preço no tempo para ir ao médico, cuidar dos filhos doentes ou tirar férias.

Num mês lento, um freelancer pode conseguir um biscate a fazer entregas, por exemplo, enquanto um motorista da Uber pode passar o tempo sentado no carro a escrever poesia na esperança de um dia a vender. Cerca de 85 por cento dos "freelas" em part-time facturam uma média de 500 dólares por mês [cerca de 425 euros], de acordo com uma análise publicada em 2017 pela Earnest, o que significa que as pessoas que vendem serviços via Airbnb, Etsy, Glovo e outras apps populares para ganharem algum, na verdade estão a usar estas conveniências modernas como uma entrada adicional de rendimento, ao invés de tentarem criar uma carreira juntando diferentes tipos de trabalho.

Os freelancers também têm despesas extras que pessoas empregadas não têm, incluindo materiais e espaço de escritório (um badalado espaço de coworking, por exemplo), assinaturas (incluindo publicações, aplicações e ferramentas como o Microsoft Office), além de tudo o mais de que necessitam para o trabalho (como ferramentas reais, um veículo, material de limpeza, equipamento, etc.).

E esquece outros benefícios dos contratados, como férias remuneradas, idas ao médico ou licença de maternidade e paternidade. Uma semana com gripe ou uma emergência familiar é, pelo menos, uma semana sem salário – e normalmente mais que isso, dependendo das consequências de adiar o trabalho ou ficar sem adicionar novos projectos quando se trabalha à comissão. Freelancers também estão "despidos" em relação a seguro de saúde, poupanças para a reforma e custos de deslocação.

Direitos do trabalho vão pelo cano abaixo

Apesar da ideia de não ter patrão soar maravilhosa, ela vem com um preço: não existe protecção ao trabalhador, especialmente no caso de assédio sexual. Como Nathan Heller descreveu na The New Yorker em Janeiro, “freelancers estão altamente vulneráveis [ao assédio]. Têm pouquíssimo apoio institucional e poucos (ou nenhuns) supervisores”.

Estes trabalhadores estão, também, mais susceptíveis à discriminação por género, diz o site The Conversation. Isto porque as normas de trabalho estão mais bem definidas dentro de uma relação patrão-empregado. “Na medida em que as relações tradicionais entre patrão e empregado são substituídas por transações peer-to-peer a uma escala global, a aplicação de leis do trabalho anti-discriminação torna-se um desafio”.

Existem “diferentes estruturas e dinâmicas hierárquicas entre freelancers e os seus clientes” em relação a pessoas em situações de trabalho mais formais, explica Jaime-Alexis Fowler, fundador do grupo de apoio a trabalhadores, Empower Work. "Numa situação em que, por exemplo, um empregado pode entrar com uma reclamação nos Recursos Humanos, freelancers não contam com essa oportunidade”, explica Fowler.

Isto está a piorar a vida de todos

Podes pensar que um trabalho em part-time como "freela" pode ser bom para ti e para a economia – tendo em conta que possas imaginar que quanto mais facturas, mais podes gastar –, mas existem consequências inesperadas para os teus vizinhos. Isto vai desde os serviços de motorista a entupirem as ruas das cidades, ao aumento do custo da habitação devido ao arrendamento de curto prazo.

O lucrativo negócio dos arrendamentos via Airbnb já foi apontado como culpado de todo o tipo de problemas, do aumento das rendas à falta de casas, de Nova Orleães, a Nova Iorque, passando por Lisboa. Enquanto isso, a cidade de Vancouver impôs recentemente regulações estritas a utilizadores do Airbnb, permitindo que anfitriões coloquem apenas a sua residência primária disponível no site, prevenindo que os ricos estabeleçam um monopólio de habitação, ao comprarem propriedades como investimento, anunciando-as para arrendamento no site.

“O Airbnb afecta as taxas de renda ao reduzir a oferta de casas no mercado de longo prazo”, explica Davide Proserpio, professor assistente da Marketing University of Southern California, que tem estudado estes efeitos. À medida em que os senhorios mudam os seus arrendamentos de longo prazo para curto prazo, há uma redução na oferta do mercado de longo prazo e isso, por sua vezes, aumenta os preços.

O representante do Airbnb, Cristopher Nulty, defende a plataforma dizendo que ela reduz os custos de habitação, ao permitir que as pessoas arrendem parte da sua casa. “Olhamos para a partilha de casa como uma oportunidade económica realmente importante para toda a gente, em todas as comunidades”, diz.

Além disso o Airbnb pode aumentar o valor de um imóvel na vizinhança, explica ainda Proserpio, na medida em que “o acréscimo no preço das rendas é capitalizado para o valor dos imóveis em si”. Mas, se és um trabalhador independente a fazer das tripas coração na tentativa de ganhar uns trocos simplesmente para viver, isto não parece de grande consolo.


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