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30 anos de dados mostram que migrantes e refugiados não são um fardo económico

Novo estudo mostra que abrir caminho para os migrantes conseguirem a cidadania teve um impacto económico positivo na Europa.

Por Daniel Oberhaus
28 Junho 2018, 11:14am

Imagem: Getty.

Este artigo foi publicado originalmente na nossa plataforma Motherboard.

Nos últimos dois anos, a administração Trump citou constantemente o alegado fardo que os imigrantes sem documentos representam para a economia norte-americana, como justificação para a política de “tolerância zero” nas fronteiras. Trump, pessoalmente, já apelidou os imigrantes latino-americanos de “animais”, que querem “infestar” os EUA, bem como se referiu repetidamente ao fluxo de refugiados que fogem da violência no Médio Oriente como um grande problema na Europa - o que é fake news - como justificação para a dureza da sua administração para com os imigrantes no país.

Na segunda-feira, 18 de Junho, Trump publicou tweets sobre um “grande erro cometido por toda a Europa ao permitir a entrada de milhões de pessoas que mudaram tão violentamente a sua cultura!”. No entanto, segundo uma nova investigação publicada dois dias depois, a 20 de Junho, pela Science Advances, os refugiados na Europa, na verdade, beneficiaram as economias dos países que os receberam.

O estudo foi conduzido numa parceria entre o Centro de Pesquisa Científica Nacional Francês, a Universidade Clermont-Auvergne e a Universidade Paris-Nanterre, e usa dados económicos dos 15 países do Ocidente Europeu com o maior número de pessoas a procurarem asilo entre 1985 e 2015.

Durante os anos 90, o Ocidente Europeu viu um grande aumento nos pedidos de asilo depois das guerras nos Balcãs. Nos últimos sete anos houve outro aumento na Europa, com as pessoas que fugiram da instabilidade em países afectados pela "Primavera Árabe" ou pela guerra civil síria. Ao mesmo tempo, apontam os investigadores, os fluxos de migrantes aumentaram quando a União Europeia se expandiu para o Leste em 2004.

Para ver o impacto que refugiados e migrantes têm em indicadores económicos, como o Produto Interno Bruto per capita, desemprego e finanças públicas, os investigadores usaram um modelo estatístico desenvolvido pelo economista vencedor do Nobel, Christopher Sims. Este modelo deu aos investigadores uma melhor imagem de como refugiados afectam as economias nacionais, comparando com outros modelos que consideram o impacto económico dos migrantes numa equação de input-output (ou seja, quanto lhes é pago pelo governo vs. quanto eles pagam em impostos), mas que não têm em conta outras interacções económicas abrangidas pelo modelo de Sims.


Vê: "Os jovens refugiados sírios que estão a crescer num limbo"


Os investigadores descobriram que migrantes permanentes tiveram, na verdade, um impacto de rede positivo na economia dos países que os receberam. O PIB per capita aumentou “significativamente” e as taxas de desemprego caíram. Além disso, os investigadores concluíram que “os gastos públicos adicionais, a que geralmente se chama o 'fardo dos refugiados', são mais do que compensados pelo aumento do rendimento de impostos”.

Os refugiados também tiveram efeitos de rede positivos nas economias dos países que os receberam, mas isso demora mais a aparecer. Segundo o estudo, para efeitos económicos positivos dos refugiados serem similares aos dos migrantes, têm de ser vistos entre três a sete anos depois da sua chegada, altura em que alguns deles se tornam residentes permanentes dos países.

“Os nossos resultados sugerem que a suposta actual crise de migração na Europa não vai provocar uma crise económica, na realidade pode ser uma oportunidade económica”, concluíram os investigadores. “Não negamos que grandes fluxos de refugiados na Europa apresentam muitos desafios políticos para os países que os recebem e com respeito à coordenação europeia de políticas nacionais. No entanto, esses desafios políticos podem ser mais facilmente abordados se o cliché de que a migração internacional está associada a um fardo económico for derrubado”.


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