Fotografia por Anabel Navarro Llorens.

Como uma modelo plus size foi da vergonha profunda ao positivismo corporal

Ali Tate fala sobre as questões políticas relacionadas com a actividade de modelo fora dos padrões da indústria.

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mai 18 2018, 10:03am

Fotografia por Anabel Navarro Llorens.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma i-D UK.

Ali Tate nunca sentiu que encaixava na sociedade. Com um porte maior do que a média, sentia-se gorda, feia, isolada e deprimida. Mesmo quando a sua beleza lhe garantiu um contrato como modelo, continuava a sentir-se infeliz em relação à aparência. Odiava ser rotulada de “plus size”. Na cabeça de Ali, isso era uma confirmação de que seria maior do que o ideal. Mas, esse ponto de vista está a um mundo de distância da sua mentalidade actual. Seis anos depois, com campanhas para marcas como Mango e Reformation no CV, Ali nunca se sentiu melhor. A modelo contou-nos como se deu essa mudança radical de perspectiva.

Cresci numa cidadezinha no norte da Califórnia chamada Saratoga, no universo tecnológico de Silicon Valley. Os meus pais são donos de restaurantes e joguei futebol americano na universidade depois de treinar durante toda a minha infância. Frequentava uma escola excepcional e tinha muitos privilégios na minha vida familiar. Tive uma sorte espectacular de várias formas.

Mas, ao mesmo tempo, não tive sorte de tantas outras. Tal como muitas mulheres, era profundamente insegura com o meu corpo quando estava a crescer. A primeira vez que entendi o meu corpo de maneira negativa tinha apenas oito anos de idade. Não me lembro exactamente do momento em que me olhei ao espelho e não gostei do que via, mas sei que, ainda muito nova, já me sentia como um dos “gordos” rejeitados pela sociedade.

Por causa de jogar futebol americano, eu era mais do tipo tomboy do que as outras raparigas da escola, mas isso não me desviou de tentar fazer parte do grupo mais popular. No entanto, as miúdas mais populares eram todas muito magras. Nunca fui magra. Os meus ossos sempre pareceram maiores que os dos outros. Era rechonchudinha e mais alta do que a maioria dos meus pares. Adoptei uma postura corcunda para compensar algo que sentia ser uma estrutura corporal muito grande. Os miúdos gozavam comigo, às vezes às escondidas, às vezes na minha cara.

Lembro-me de uma vez em que a minha melhor amiga, Taylor, estava a dormir lá em casa e estávamos à frente do espelho a experimentar maquilhagem e a fazer as nossas melhores poses. Imaginava-me como uma das belas e desejáveis mulheres das capas das revistas que perdia tanto tempo a observar. Mas, depois de olhar para a minha barriga gorda através da t-shirt, percebi que isso não passava de uma fantasia distante. Nunca seria desejada – era gorda. Raparigas gordas não eram desejadas, acreditava eu. Taylor sentia a mesma coisa. Disse-me que jamais conseguiria sair de casa sem passar o dia todo a encolher a barriga. Tínhamos 10 anos e treinávamos futebol três vezes por semana – dificilmente poderíamos ser consideradas sedentárias.

A insegurança de sentir que o meu corpo ocupava muito espaço no mundo assombrou-me durante anos. Na verdade, não me abandonou mesmo quando já era uma atleta no auge da condição física. Às vezes, depois de um treino, ainda fazia uma corrida extra. Durante alguns meses tentava vomitar a comida, mas depois parava ao perceber que era algo que não conseguiria esconder dos meus amigos e família. Lembro-me de pessoas me dizerem que era linda, mas nunca acreditei. Pensava que estavam apenas a ser gentis, afinal, como alguém do meu tamanho podia ser bonita?

Mas, então, aconteceu algo realmente incrível, que me levaria a um novo estágio da minha vida. Fui para Londres, para estudar noutro país durante um ano e, enquanto lá estava, entrei num concurso de modelos curvilíneas, numa tentativa desesperada de validação. Apesar de não ter vencido, garanti um contrato com uma agência de modelos plus size. Estava feliz – aquilo sugeria-me que era bonita, algo que procurei a vida inteira. Ainda assim, sentia-me em conflito; ser chamada de modelo plus size era algo de que tinha vergonha. Parece que reiterava tudo o que sentia a respeito de ser gorda. Não me sentia uma modelo de verdade. Nas primeiras sessões fotográficas em que participei sentia-me muito envergonhada com as fotos.

Com o tempo, todavia, à medida em que via mais modelos curvilíneas na indústria, a minha mente começou a mudar. Todos os anos de tristeza a respeito do meu corpo, desejando mais que tudo no mundo que pudesse ser magra, começaram a ceder. Vi mulheres lindas na minha indústria e elas não eram magras! Isso significava que eu também podia ser bonita. Parei de me esconder; passei a vestir o meu tamanho de roupa com orgulho; parei de tentar ocupar menos espaço no mundo. Comecei a amar o meu corpo. Dizem que se fingires algo o suficiente, acaba por se tornar realidade. Bem, certamente é esse o caso quando se trata de amares o teu corpo.

Agora, enquanto modelo que trabalha na indústria plus size há mais de seis anos, vejo essa época em que o meu corpo era um fardo como um pesadelo que passou. Parece insano para mim ter conseguido desprezar-me tanto. Sinto-me mal pela minha versão mais nova e, às vezes, gostaria de voltar no tempo e contar-lhe a ela o que sei hoje. Que ter um corpo menor nunca te fará feliz. Que só serás feliz ao amares-te a ti própria. Sinto-me mal ao pensar no tempo e energia que gastei a tentar ser uma pessoa diferente de quem sou na realidade.

A indústria plus size está a evoluir. É bastante diferente de quando comecei. Modelos como Ashley Graham abriram as portas para mulheres que jamais seriam chamadas para trabalhar antes. A indústria plus size tem as suas próprias modelos “indie”, como Paloma Elsesser e Barbie Nox, "gatas sexy" como Tabria Majors e belezas exóticas como Sabina Karlsson. Há mais espaço do que nunca na indústria para todos os tipos de mulheres; grandes, pequenas, negras, brancas, tu escolhes.

À medida que mais mulheres percebem uma representação mais justa entre as modelos, a diversidade torna-se a norma. Raparigas mais novas podem agora olhar para as modelos e verem-se a si mesmas. Essa capacidade de normalizar um espectro diverso de mulheres tem sido extremamente benéfica para a saúde mental das novas gerações. Hoje, adolescentes têm uma hipótese de evitar o que eu passei, ao testemunharem uma maior diversidade de representação nos media.

Tenho esperança de que, quando virem uma dessas modelos nas revistas, consigam também ver um bocadinho delas ali e evitem todo esse doloroso processo de acreditar que nunca seriam dignas de amor ou admiração. Talvez a energia que seria devotada a tentarem encaixar-se nas visões estreitas da sociedade sobre o que é beleza, possa ser usada para, não sei, tornarem-se políticas ou cientistas. De certa maneira, nivelar o espaço entre homens e mulheres como líderes e inovadores dentro do campo do trabalho e mudar o mundo para algo melhor.


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