Fotografia

Um retrato surreal da classe média alta no Dubai

As fotos de Nick Hannes captam a vida “num universo paralelo onde toda a gente é feliz”.

Por Stuart Brumfitt
26 Julho 2017, 10:05am

Todas as fotos por Nick Hannes

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Amuse.

O fotógrafo Nick Hannes conquistou o prémio de fotografia documental da Magnum and LensCulture Awards de 2017. A série vencedora deste belga de 43 anos capta a cultura do Dubai e foi a mais votada por um painel que incluiu fotógrafos da Magnum, como Alex Soth, David Hurn e Susan Meiselas.

A série de Hannes estará em exposição na London's Photographer's Gallery no final do ano, juntamente com os outros vencedores das categorias Rua, Retrato, Fotojornalismo, Aberta e Artística.

Hannes formou-se na Academia Real de Belas Artes (KASK) em Gante, na Bélgica, em 1997, onde é agora professor de fotografia documental. Depois de anos a trabalhar como fotojornalista nos Balcãs e Médio Oriente, começou a focar-se nos seus projetos documentais em 2006, tendo publicado livros sobre a ex-União Soviética, Flandres e Mediterrâneo.

Hub Zero, Dubai, Janeiro de 2017. Rapazes dos Emirados jogam snooker no Hub Zero, um centro de entretenimento imersivo, situado no shopping City Walk. © NICK HANNES
Festa na praia, Dubai, Janeiro de 2016. Russas no brunch de sexta, num clube de praia no Dubai. © NICK HANNES

Antes do Dubai, o fotógrafo passou um ano a viajar pela Rússia num autocarro para levar a cabo o projecto Red Journey, que, segundo salienta, "cimentou as bases da minha abordagem fotográfica, onde ironia, ambiguidade e metáforas visuais têm papéis fundamentais". O seu trabalho pessoal tem uma linguagem fortemente política e social, em que tenta "desassociar-se do momento para criar uma imagem mais universal, que lida com as relações problemáticas que temos uns com os outros, com o nosso ambiente e com o nosso mundo em geral".

Hannes explica o projecto premiado sobre o Dubai.

VICE: O que é que estavas a tentar captar através desta série?
Nick Hannes: A rápida transformação do Dubai de um posto comercial regional nos anos 60 para a metrópole ultramoderna que é hoje, um estudo fascinante sobre urbanização regida pelo mercado. A indústria de entretenimento e lazer, um dos principais pilares da economia do Dubai, tem um grande impacto no desenvolvimento da cidade. Temas relacionados, como turismo, consumismo, prestígio e luxo, também têm um papel importante na série.

O tema Dubai é tão fascinante, como controverso. A cidade tem fãs e críticos. Não gosto de decidir o que os espectadores devem ver ao olhar para o meu trabalho; eles têm de preencher a história de acordo com as suas próprias visões e conhecimento. Não tenho o monopólio da verdade e, portanto, não é minha intenção dar respostas. Prefiro levantar questões sobre sustentabilidade, igualdade, mercantilização da sociedade, autenticidade e ganância.

Global Village, Dubai, Janeiro de 2017. Global Village é um destino de entretenimento familiar, que oferece uma experiência de compras ao longo de 32 pavilhões que representam mais de 75 países. Grandes réplicas de marcos turísticos de todo o Mundo foram aqui construídas. © NICK HANNES
Chillout Ice Lounge, Dubai, Janeiro de 2016. Turistas sauditas bebem chocolate quente no primeiro bar de gelo do Médio Oriente, com esculturas, cadeiras e mesas feitas de gelo, a uma temperatura abaixo de zero. © NICK HANNES

Podes falar um pouco sobre os contrastes da vida que conseguiste enclausurar nestas fotos?
Os estrangeiros são 90% por cento da população do Dubai. Dentro desse grupo extremamente heterogéneo, decidi focar-me principalmente no seguimento da classe média alta da sociedade. Fui a lugares onde as pessoas dessa faixa se divertem: clubes nocturnos, praias, parques temáticos, hotéis, shoppings. Muitos desses lugares pareciam surreais, como se tudo acontecesse num universo paralelo onde toda a gente é feliz. No entanto, se olhares mais de perto, há muita ambiguidade no meu trabalho. Se explicasse isso em detalhe, destruiria as minhas imagens.

Quem são os teus ídolos na fotografia e porquê?
Enquanto estudante, fui muito influenciado por Henri Cartier-Bresson e a geração mais velha de fotógrafos documentais que usavam o preto e branco. O seu legado (o momento decisivo, as composições bem equilibradas, etc.) ainda tem um papel na minha fotografia. Também sinto uma grande afinidade com o cineasta Jacques Tati, quando se trata de composição e recurso ao humor.

Outros fotógrafos importantes para mim são Ed Van der Elsken, pela sua vida e dedicação sem nunca comprometer os seus ideais. Robert Frank, pelo seu trabalho emocionante - não me emociono facilmente com fotos, mas Frank consegue ter esse impacto em mim. Além disso, American Power, de Mitch Epstein, The Last Resort, de Martin Parr, e Carl De Keyzer e Simon Norfolk pelo seu trabalho político e socialmente relevante.

Em que outros projectos andas a trabalhar agora?
Estou a terminar um livro sobre herança cultural na província belga de Limburgo, um livro encomendado pela Public Art Collection Flanders. Ou seja, no ano passado estive a trabalhar em dois livros: um sobre o Dubai e outro sobre o meu próprio país.

Oasis Mall, Dubai, Janeiro de 2016. © NICK HANNES
Clube nocturno, Dubai, Setembro de 2016. © NICK HANNES
Ilha Bluewaters, Dubai, Setembro de 2016. Fogos de artifício sobre a ilha artificial Bluewaters, por ocasião do banquete islâmico de sacrifício. © NICK HANNES

magnumphotos.com

lensculture.com

Tradução: Marina Schnoor

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