Games

A conexão entre 'Zelda' e 'Twin Peaks' é real

Eu não tinha ideia que 'Link’s Awakening', do Game Boy, era influenciado pela série de David Lynch.
28.6.17

Esta matéria foi originalmente publicada no Waypoint.

Voltei a explorar a Hyrule de Breath of the Wild novamente nas últimas semanas. Encontrei os últimos shrines e dei um jeito nas missões paralelas. Já estou me preparando para mais, assim que a expansão "Trial of the Sword" estrear nesta sexta, dia 30.

O primeiro Zelda que ganhei na vida foi Link's Awakening, apesar de ter jogado antes The Adventure of Link e A Link to the Past nos consoles de amigos, mas o clássico do Game Boy foi primeiro que pude chamar de meu.

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Há anos eu não pensava no jogo, mas só de ouvir a música – primitiva, restrita, mas incrivelmente mágica –, eu imediatamente lembrei das memórias na Ilha Koholint e o seu exuberante Wind Fish, sem princesa Zelda alguma a vista, e de todos os personagens inspirados em clássicos da Nintendo. Aquele cara era o… Kirby? Sim. Sim, é ele mesmo.

Sempre soube, obviamente, que a história inteira de Link's Awakening é um sonho – isso fica claro quando se termina o jogo, caso você não tenha sacado as referências até o clímax da história, em que tudo começa a ficar embaçado e Link, de volta ao mundo real, percebe que está perdido no meio do oceano. O que eu não sabia, até descobrir ouvindo o episódio 102 do podcast Retronauts, é que a série Twin Peaks tem uma conexão com Link's Awakening.

Aparentemente, essa é uma curiosidade já bem conhecida na comunidade de Zelda – mas, por alguma razão, não foi até uns dias atrás que descobrir que esse jogo, de 1993, que inclusive joguei algumas vezes durante a vida, era diretamente influenciado pelo trabalho de David Lynch. Mas realmente: esse é um episódio estranho da franquia Zelda. Por mais que essa ligação pareça estranha, ela faz sentido na tela monocromática do Game Boy.

Se você seguir as pistas dessa história, a maior prova dessa conexão está em uma das antigas entrevistas feitas pelo falecido presidente da Nintendo, Satoru Iwata, mais especificamente, em um Iwata Asks de 2010 (eu acho). Na conversa, Iwata discutia sobre a história dos jogos de Zelda para portáteis com Toshihiko Nakago (programador do primeiro The Legend of Zelda, de 1986), Eiji Aonuma (produtor e diretor de longa data da série) e Takashi Tezuka (diretor de A Link to the Past e Link's Awakening).

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Aqui está uma parte da conversa (editada para resumir a história).

Aonuma: Você disse que queria criar um mundo inspirado em Twin Peaks?

Nakago: Você disse isso?

Tezuka: Ah, é verdade! Que bom que disse isso lá atrás, porque sempre esqueço desses detalhes.

Aonuma: Eu lembro de você dizer isso, mas não sabia o que significava. Eu queria saber mais sobre isso. Você queria criar algo como Twin Peaks, mas os personagens pareciam com o Mario e o Luigi.

Tezuka: Sim, e o Kirby também. Era no Game Boy, então pensamos, "Ah, vai dar tudo certo".

Aonuma: Vocês tiveram a permissão do HAL Laboratory?

Tezuka: Não sei. Acho que eles aprovaram, mas…

Iwata: Hoje, se você simplesmente usasse personagens que parecessem com Mario e Luigi – mesmo que seja para um jogo da Nintendo – seria um problemão. [Mas em] Link's Awakening, o Tezuka-san fez o que queria, e isso teve uma grande influência nos outros jogos de Zelda.

Tezuka: Não foi de propósito. Sobre Twin Peaks. Estávamos falando sobre isso antes de você chegar [Iwata]. Estava falando sobre criar Link's Awakening com a mesma ambientação de Twin Peaks. Na época, Twin Peaks era super popular. Era o drama de poucos personagens em uma cidade pequena. Então, eu queria fazer algo parecido, com um foco pequeno o bastante para que todo mundo possa entender, [cada personagem] teria características profundas e distintas.

Aonuma: Na época, eu não sabia do que ele estava falando. Eu pensava, "O que esse cara tá falando?", mas já que Twin Peaks era popular na época…

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Iwata: Você achava que ele só estava tentando entrar na moda.

Aonuma: Sim. Eu pensava, "Você realmente quer fazer um The Legend of Zelda assim?". Agora o mistério está resolvido.

Iwata: Isso faz sentido. Tezuka-san, você aumentou as fronteiras do que era possível fazer em The Legend of Zelda sem mesmo perceber que estava fazendo isso.

Tezuka: Acho que sim. Que bom que consegui contribuir.

Não é incrível essa história? Eu não tinha ideia. Talvez eu já devesse saber disso – mas foi por conta do episódio do Retronauts (que recomendo para todos que falam inglês, porque explora várias outras curiosidades sobre o primeiro jogo de Zelda nos portáteis) que esse fato agora faz parte do meu conhecimento sobre Zelda. Também recomendo a leitura da entrevista completa do Iwata Asks, porque é brilhante.

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