Almoço no Palácio dos Bandeirantes, 1979. Foto: João Bittar

As fotografias de João Bittar contam a história recente do Brasil

"É impossível fazer fotojornalismo sem carácter".

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ago 8 2018, 1:42pm

Almoço no Palácio dos Bandeirantes, 1979. Foto: João Bittar

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

“É impossível fazer fotojornalismo sem carácter”, é uma afirmação conhecida do fotógrafo e editor brasileiro, João Bittar, que, aos 15 anos, foi pedir um emprego à Editora Abril, porque queria ser jornalista. Na ocasião, conseguiu uma vaga de office boy e foi parar ao sector de fotografia onde, no laboratório, passou por todas as fases do processo, para além de ter contacto com o trabalho de fotógrafos de todo o Mundo. Assim, aos 17 anos, teve a sua primeira máquina fotográfica.

Bittar passou pelos principais meios de comunicação do país, como a Folha de S.Paulo, Diário de S. Paulo, Veja, Exame, Gazeta Mercantil, Época, IstoÉ, entre outros. Na Folha, foi o responsável por implantar o processo de digitalização fotográfica. No final de 1982, fundou a agência Angular juntamente com Marisa Carrião, José Luiz Bittar, Cristina Villares, Marcos Rosa e Wagner Avancini, com a intenção de se basearem em agências pioneiras do exterior, como a Magnum. A Angular defendia o direito de autor do fotógrafo e eram os próprios fotógrafos quem agendavam os seus trabalhos e vendiam o material a jornais e revistas, ganhando todos por igual.

Cartola, 1978. Foto: João Bittar

Dono de imagens históricas, Bittar, que faleceu em 2011, era querido e respeitado no meio e considerado um profissional gentil pelos colegas de profissão. A fotojornalista Eliária Andrade, que trabalhou com Bittar no Diário de S. Paulo quando este era editor de fotografia do jornal, fala do fotógrafo com admiração: “Era um editor sensível e tranquilo com quem trabalhar. João produziu material extraordinário, como a famosa foto de Lula a mostrar o umbigo”, referindo-se à icónica e nada convencional fotografia do ex-presidente, numa convenção nacional de metalúrgicos, em Abril de 1979. Nessa fotografia, Lula desafiou o fotógrafo, levantou a camisola e, quando pediu para o fotografar, Bittar já tinha clicado.

Diretas Já em São Paulo. Foto: João Bittar

João, que também deu cursos de fotojornalismo na Imã Foto Galeria, entre 2002 e 2011, é recordado pelo fotógrafo Apu Gomes, que foi seu aluno, como uma pessoa aberta, de muita cultura e que gostava de ajudar as pessoas.

Em relação a este período, Apu recorda: “Íamos para o curso cheios de dúvidas e ele discutia as nossas questões de uma maneira que nos fazia sair de lá sem saber o que fazer, diante das inúmeras possibilidades que nos fazia contemplar”.

Jânio Quadros. Foto: João Bittar

Apu realça também a falta que Bittar faz no cenário actual da fotografia no Brasil: “Deixou um vazio muito grande, principalmente neste momento em que muitos se auto-intitulam fotógrafos, editores, curadores e críticos. Falta-lhes cultura e bagagem. O João deixou saudades”.

Fernando Costa Netto, actualmente sócio da DOC Galeria, relembra que os dois conversavam muito na altura em que João era editor de fotografia da Folha e ele dirigia o jornal, agora extinto, Notícias Populares. “João era um entusiasta do NP, que tinha uma estética própria e diferente do que se fazia na época. Era um homem maravilhoso, um professor crítico e positivo”, afirma.

O ex-presidente Lula, 1979. Foto: João BIttar

Com a intenção de preservar o trabalho e a memória de João Bittar, a fotógrafa Thays Bittar, sua filha, criou uma página no Instagram com o nome De Pai pra Filha, na qual tem publicado o trabalho do pai, como forma de organizar o arquivo e divulgá-lo junto de uma geração que não conheceu a sua produção.

“Segundo diversas entrevistas que o meu pai deu, a fotografia mais importante que tirou na vida foi a do ex-presidente Lula a mostrar o umbigo, que só divulgou 25 anos depois, em 2004, quando era editor da Época".

Lula e os seus filhos Sandro e Luiz, 1979. Foto: João BIttar

Na página da rede social, Thays procura contextualizar as imagens com o momento político actual, mas conta que também pretende publicar fotos de músicos, como Cartola e Adoniran Barbosa, entre outros tesouros escondidos, já que há muita coisa produzida que precisa de ser divulgada. "O trabalho dele conta a história do nosso país, algumas vezes esquecida. Para além disso, o meu pai era muito a favor da tecnologia e do conhecimento acessível, por isso vi nesta plataforma uma forma de manter o seu legado vivo”, completa.

A intenção da fotógrafa é que, em algum momento, se possa inscrever nalgum edital com a finalidade de organizar esse arquivo, para que seja preservado em devidas condições. “O arquivo do meu pai nunca foi organizado, catalogado nem guardado em locais adequados. Poucas foram as fotos que ele digitalizou a partir dos seus negativos ao longo dos anos”, explica Thays.

Viúva de Santos Dias da Silva, metalúrgico morto por um polícia militar, enquanto participava numa das primeiras greves dos metalúrgicos de São Paulo. Foto: João BIttar

Sempre que pode, ela expõe o trabalho do pai em feiras de fotografia, livros, mostras colectivas e artigos. Logo após a morte de João, a filha realizou com o fotógrafo Egberto Nogueira, uma exposição na Imã Foto Galeria com os últimos trabalhos de rua que ele publicava no Facebook, mas tem o desejo de expor muitos outros e, para tal, espera oportunidades e parcerias que possam fazer com que tal aconteça.

“O meu pai dizia sempre que a fotografia era profética, pois, com o tempo, as imagens podem ter ainda mais força”, afirma Thays, que encontra no progenitor uma inspiração constante.


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