Drogas

Intimado, maior pesquisador de maconha do Brasil diz: “não podemos ser um país da Idade Média”

Dono de currículo extenso, Elisaldo Carlini conversou sobre a investigação de apologia ao crime, falou das dificuldades de fazer ciência no país e avisou: “não ficarei quietinho”.
Crédito: José Luiz Guerra - Imprensa/Unifesp

Aos 88 anos, Elisaldo Carlini é um dos maiores pesquisadores do mundo quando o assunto é maconha. Ele estuda a planta e seus potenciais efeitos medicinais em seres humanos há meio século. Os feitos não passaram batidos no Brasil em tempos passados. Foi condecorado duas vezes pelo então presidente da república Fernando Henrique Cardoso, eleito presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), membro do Conselho Econômico Social das Nações Unidas (ECOSOC/ONU) e doutor honoris causa em universidades brasileiras e internacionais. Hoje é professor emérito da Unifesp e da Escola Paulista de Medicina, diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) e está no sétimo mandato como membro do Expert Advisory Panel on Drug Dependence and Alcohol Problems, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

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Embora seja um cientista internacionalmente reconhecido, Carlini foi parar na delegacia devido a uma investigação de "apologia ao crime". O Ministério Público de São Paulo abriu uma investigação a respeito de um simpósio realizado no ano passado, chamado 5º Congresso Maconha - Outros Saberes. O pesquisador desejava que Ras Carlinho, fundador da primeira igreja rastafári do Brasil, participasse do evento. O detalhe é que Geraldinho está preso por tráfico de drogas e corrupção de menores desde 2012. Por isso, Carlini enviou uma carta ao Centro de Progressão Penitenciária, em Hortolândia, onde o rastafári cumpre sua pena. A presença do religioso foi negada pela justiça. Mas, mesmo assim, o MP decidiu abrir a investigação. Carlini foi chamado a depor, investigado por apologia ao crime.

O constrangimento ao professor foi repudiado por diversas organizações, como a própria Unifesp, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Em entrevista por telefone ao Motherboard Brasil, Elisaldo Carlini falou das dificuldades em pesquisar maconha no Brasil, discorreu sobre a falta de verba em seu centro de pesquisa e afirmou estar preocupado com a situação do país.

MOTHERBOARD: Como foi a intimação da polícia?
Elisaldo Carlini: Ele queria que eu entregasse o vídeo de um simpósio feito um ano atrás. Um ano depois eles resolvem fazer isso? O que será que eu fiz? Falei com meu advogado. Eu estava meio desesperado, meio nervoso. Isso é maneira de um ser humano tratar o outro? Convidar um cara sem saber quem ele é, sem saber que as posições que ele tem no mundo? Sem saber que ele tem câncer? Eu tenho dois cânceres. Meu advogado disse: não fique nervoso. O senhor não tem nenhuma obrigação de levar o vídeo, falou. A prova do crime cabe ao acusador. Fiquei quieto. Na segunda convocação, quando prestei depoimento, fui bem-recebido, fui tratado com uma fria polidez. Foi tudo muito bem.

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Foi uma surpresa?
Nunca recebi uma comunicação científica a respeito do trabalhos que fiz. No ano passado, dei 23 conferências em universidades e sociedades científicas do Brasil. Foi uma surpresa muito grande. Eles não sabiam quem eu era.

O senhor se sente injustiçado?
Não mereço mesmo o que aconteceu. Eles não têm nem ideia do que eu fiz. Essa é a visão deles. Isso não pode continuar. O Brasil não pode ser um país da Idade Média. É um país em que, por ser negro, você pode ir para a cadeia. Agora, com a recessão baixando, saiu na Folha hoje: a abertura do mercado [está acontecendo] de novo, mas a preferência é do branco; o negro não está tendo muita chance.

O que o senhor vai fazer a respeito disso?
Penso em gozar a vida e só. Não quero mais falar sobre maconha. Acabou. Eu já disse tudo de ciência, de medicina. Sou um professor emérito recebido duas vezes com condecorações pelo Presidente da República. Quero ver se vou na faculdade de direito falar sobre o que é a maconha e a verdade sobre ela. O que é a lei sobre a maconha? É uma vergonha. É isso que eu pretendo continuar fazendo. Acho que vou fazer [isso] e acho que vou ser ouvido, junto com todo mundo que vai formar um grupo grande. Quero lutar junto aos sociólogos, junto aos advogados, aos filósofos. A maconha não é o veneno que dizem, não é a droga que gera loucura e crime, de jeito nenhum. Todas as drogas geram efeitos secundários, mas isso é comum de qualquer medicamento, sem exceção. É a isso que vou dedicar meu tempo.

O senhor sempre encontrou dificuldade pesquisando maconha?
Como eu teria de fazer se quisesse importar maconha do exterior? É difícil conseguir. A pesquisa não pode ser cerceada. Tem uma lei que impede você de trabalhar, de falar, de prescrever maconha. Se você fizer isso, vai ser um apologista do crime, como eu. Como um médico que teria prescrito a maconha.

Isso tem a ver com a situação geral da pesquisa e do ensino universitário, na sua opinião?
Nos últimos anos, a vida na universidade no Brasil se tornou um autêntico sacrifício. Cortaram todos os auxílios que davam, pesquisas deixaram de ser feitas. Tenho projetos que pretendo continuar, mas não estou conseguindo. Pesquisamos muito pouco [as propriedades medicinais das plantas]. Nós somos vistos com desconfiança por sermos da universidade. Eu tenho que ajudar, com meu salário de aposentado, um ou outro aluno que não tem dinheiro para o almoço porque a verba foi reduzida. O meu centro de pesquisa, o Cebrid, nós não sabemos o que fazer daqui para a frente. A última verba que nós temos vai terminar em março. Estou tentando fazer um pedido de auxílio à cidadania. Se você acredita que precisa haver ciência no Brasil, então auxilie a gente. Vejo com muito medo nuvens escuras que começam a se formar no Brasil. Não vou ficar quietinho.

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