O futebol feminino do Brasil agora é tipo exportação
Andressa e Stefane começaram no Team Chicago Brasil e agora integram a seleção nacional. Crédito: Confederação Brasileira de Futebol
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O futebol feminino do Brasil agora é tipo exportação

Na brecha da falta de apoio dos clubes grandes para a modalidade, time amador manda talentos para os EUA e já conta com 16 convocadas para seleção brasileira.​
4.4.18

É uma tarde de tempo nublado e chuva fina no Aterro do Flamengo. Em frente ao Palácio do Catete, antiga sede do governo brasileiro, um parque público divide espaço com vias expressas que ligam a Zona Sul ao Centro do Rio de Janeiro. Desde os anos 1960, boleiros amadores ocupam os oito campos de futebol society em busca de diversão. Mas, naquele dia, notou-se que o berço das peladas cariocas também abria espaço para trinta meninas que não viam o esporte apenas como lazer: sonhavam ser jogadoras profissionais.

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São adolescentes entre 13 e 20 anos, de classes sociais distintas, que vêm de diferentes cantos da cidade – e até de outros municípios – para jogar bola. Os treinos ocorrem três vezes por semana religiosamente no mesmo horário: das 15h às 17h. Nos uniformes de cor lilás, assim como no escudo do time, nenhuma menção a clubes brasileiros, e sim a quem é referência no futebol feminino: as americanas. Elas representam o Team Chicago Brasil, equipe fundada em 2002 pelo treinador Alexandre Mathias.

No começo, era apenas uma brincadeira. “Tenho um grande amigo americano, o Hudson Fortune, quando morava no Rio sempre trazia as três filhas para jogar futebol comigo”, conta Mathias. “Na época, ele propôs uma parceria com o seu time nos Estados Unidos, o Team Chicago Soccer Club. Na verdade, era algo mais na base da amizade, com fornecimento de uniforme e possibilidade de intercâmbio de jogadoras.” Com o tempo e os talentos lapidados, a equipe se tornou mais séria.

Até então, Alexandre treinava somente equipes masculinas e qualquer garota que se interessasse pela modalidade, como as filhas de Fortune, era obrigada a jogar ao lado dos meninos. Por isso, assim que surgiu a proposta de montar um time feminino, a adesão foi imediata. No início do projeto, o treinador diz que chegou a organizar atividades para mais de cem jovens.

Alexandre Mathias instrui a goleira Stefane, hoje na seleção. Crédito: Arquivo pessoal

A estrutura é simples, e os treinos são gratuitos. Tampouco há despesas com a utilização dos campos de futebol no Aterro. Em compensação, a equipe necessita de recursos financeiros, entre outras coisas, para viajar e disputar campeonatos. As doações de amigos e familiares são fundamentais para a sequência desse trabalho. Mas, ao longo dos anos, o que realmente ganhou forma foi um plano que unisse esporte e educação.

Inspirando-se no modelo universitário americano, que oferece bolsas de estudos a jovens com talento esportivo, Mathias procurou expandir sua rede de relacionamentos e viabilizar a ida de algumas jogadoras para os Estados Unidos. O objetivo era que elas pudessem concluir os estudos e atuar profissionalmente por lá. Para que a iniciativa desse certo, a partir daquele momento, o treinador passou a exigir que todas as integrantes da equipe se matriculassem em cursos de inglês e apresentassem a ele seus boletins escolares.

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“O foco principal é o estudo. Ninguém viaja para os Estados Unidos sem falar inglês ou tirar boas notas. Sabemos que muitas delas têm sonhos e, ainda que não consigam ir para o exterior, teremos contribuído para o seu desenvolvimento cultural.”

Segundo Alexandre, desde sua criação, o Team Chicago Brasil já levou mais de cinquenta atletas para estudar em high schools e faculdades americanas. Com o diploma universitário em mãos, elas passaram a vislumbrar novos rumos profissionais. A maioria permanece vinculada ao ambiente do futebol, trabalhando como fisioterapeutas, árbitras e treinadoras. É o caso de Christiane Lessa, que em janeiro de 2018, após mais de uma década nos Estados Unidos, foi convidada para ser técnica do Avaldsnes, da Noruega, clube que disputa regularmente a Uefa Champions League feminina.

“Fui descoberta em um jogo de beach soccer”, conta ela. “Era a única menina em campo. O Alexandre recebeu um grupo de treinadores americanos que estava participando de um seminário no Brasil e me ligou para que eles pudessem me ver jogando. Acabei conhecendo um treinador de Ohio, fui convidada a morar lá e a aprimorar o meu inglês até surgir uma chance na universidade.”

O próprio Alexandre Mathias seguiu o mesmo caminho. Em 2016, ele aceitou convite para trabalhar em uma faculdade na Califórnia e, no ano seguinte, virou treinador da escolinha de futebol do ex-atacante Ronaldo Fenômeno, a R9 Academy, em Orlando. Ainda que siga à frente do projeto, essa mudança alterou a dinâmica da equipe. Os treinos agora são comandados pelo professor de educação física Alex Luiz, que tem ao seu lado a companhia dos pais de duas jogadoras: Rose Moreira e William Teodoro. A primeira é uma espécie de “faz-tudo”: comparece às atividades, filma jogadas, corre atrás das bolas que saem de campo, conversa com os responsáveis pelas meninas e, ainda, envia relatórios semanais para Alexandre. William, por sua vez, é quem cuida da parte administrativa, resolvendo, por exemplo, trâmites burocráticos que envolvem a ida das adolescentes para os Estados Unidos. Ambos realizam um trabalho voluntário.

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É importante frisar que as trajetórias de sucesso do Team Chicago Brasil não se limitam às histórias de meninas que se formaram nos Estados Unidos. Quem permanece no Rio de Janeiro também consegue destaque no futebol. O exemplo mais recente são as gêmeas Andressa e Stefane, zagueira e goleira, respectivamente, que integram a seleção brasileira sub-20.

Team Chicago Brasil. Crédito: Divulgação

“Nunca imaginei que pudesse ser convocada”, revela Andressa, que já disputou o Sul-americano da categoria e agora se prepara para o Mundial, em agosto. “Nossa meta era conseguir uma bolsa e jogar no exterior, mas percebemos que era possível conseguir muito mais. No ano passado, terminamos o Ensino Médio e, agora, o nosso foco é só o futebol.”

Alexandre relembra como as irmãs foram descobertas. “Às vezes, somos convidados para disputar amistosos com a seleção brasileira. As duas tiveram oportunidade de jogar no centro de treinamento da CBF, a Granja Comary, e a comissão técnica aproveitou para observar as nossas jogadoras”, conta. “A Stefane é um caso interessante. Quando enfrentamos a seleção sub-20, ela era reserva. Mas avisei ao supervisor da CBF que tínhamos uma goleira muito boa e que a colocaria para jogar uns 15 minutos. Ao final da partida, ela estava convocada.”

Andressa e Stefane não são as primeiras jogadoras da equipe a representarem a seleção brasileira. De 2002 para cá, o Team Chicago Brasil registra 16 atletas convocadas, comprovando, mais uma vez, o êxito do projeto.

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