Sexo

Quando a fantasia de corno dá muito errado

Histórias de quem pediu para ser chifrado e se fodeu.
12.4.18
Imagem via Shutterstock.

Desde que um certo astro de reality começou sua campanha para se tornar presidente dos EUA, a palavra “cuckold” [corno] ressurgiu de uma maneira muito estranha e inevitável. No caso de você ter perdido os muitos anos do discurso da direita, a chamada alt-right usa “cuck” para insinuar que os liberais são subservientes ao politicamente correto. Isso, claro, é uma apropriação incorreta da versão completa da palavra, que aparentemente é derivada do nome do pássaro cuco. Algumas fêmeas de cuco trocam de parceiros machos e botam os ovos em outros ninhos — um ato humilhante de traição (se é que pássaros podem se sentir humilhados). Isso de alguma maneira é análogo à situação onde um homem não sabe que está sendo traído pela mulher. Daí a palavra 'cuckold'.

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Historicamente, ser corno indicava um casamento involuntário com uma mulher adúltera — algo indesejável, segundo a maioria. Mas apetites sexuais mudam. Uma pesquisa rápida no seu site pornô favorito vai revelar uma variedade de vídeos com inspiração em corno — de encontros amadores num hotel a conteúdo profissional. Com milhões de visualizações nos grandes sites pornô e crescendo ano a ano nas buscas do Google, a fantasia do corno está bem viva. O fetiche, geralmente, envolve um homem (o “corno”) assistindo sua companheira (a “esposa gostosa”) transando com outra pessoa (o “ricardão”), muitas vezes enquanto o corno é humilhado (ou seja, enquanto dizem que o pinto dele não é satisfatório).

"Com milhões de visualizações nos grandes sites pornô e crescendo ano a ano nas buscas do Google, a fantasia do corno está bem viva."

Isso pode acontecer na vida real ou como pura fantasia masturbatória. David Ley, um terapeuta sexual e autor da etnografia corna Insatiable Wives, sugeriu várias razões para um homem encorajar sua parceira a entrar num quarto não familiar. Pode ser o desejo de que a parceira se sinta sexualmente satisfeita, um senso de empoderar as mulheres, a adrenalina do tabu e uma cultura de voyeurismo pornificado. Para homens com preferências masoquistas, o desejo de negação e humilhação também pode levar a fantasias de corno. Ley disse recentemente para a CNN: “Nossas imaginações eróticas têm a capacidade de transformar limões de vergonha numa deliciosa limonada."

A fantasia de corno parece ser principalmente masculina, apesar das teorias do motivo não terem bases bem estudadas. Ley já propôs que os homens podem sentir que têm um status social melhor se sua parceira é considerada sexualmente desejável por outros homens. Ele também fez referência à teoria da “competição de esperma” — a ideia testada em laboratório de que se um homem assiste outro homem transando com sua parceira, seu corpo é biologicamente estimulado a produzir maiores quantidades de esperma eficiente. Por quê? Porque assim seu esperma vence a “competição” para engravidar a parceira.

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Independente dos motivos de um homem para ter a fantasia de corno, opiniões de especialistas sugerem que essa é uma experiência positiva para os casais envolvidos. O Dr. Justin Lehmiller, um pesquisador do Instituto Kinsey e autor do livro que sai em breve Tell Me What You Want, explica que “a maioria das pessoas que ficam excitadas com fantasias de corno tendem a tirar prazer disso, e entre aqueles que já compartilharam ou realizaram seus desejos de corno, a maioria relatou resultados positivos”. Isso é ecoado pela terapeuta sexual Holly Richmond, que enfatiza que a fantasia de corno não é problemática em si. “Não tem nada de estranho, anormal ou errado em se envolver com essa fantasia cognitivamente e emocionalmente, ou mesmo levar a fantasia para a vida real.”



Mas em alguns casos essa tal limonada pode amargar. É fácil achar no Reddit discussões de arrependimento sobre mulheres que deixaram os parceiros depois de serem encorajadas a realizar a fantasia de corno. Esta aqui começa com a história de um homem que pediu para a namorada relutante se juntar a um site de swing. Isso logo levou a encontros de corno na vida real, até que ela deu um perdido no cara. Outro homem respondeu com suas experiências de ser abandonado duas vezes pela esposa depois que ela se apaixonou por dois ricardões. Aparentemente, eles só estão juntos agora por causa dos filhos e ele não consegue largar seu fetiche de corno. Esses dois contos inicialmente envolviam dois parceiros dispostos a experimentar. Mas, como Richmond me disse, relacionamentos também podem acabar se uma das pessoas é investida sexualmente na fantasia. “Surgem problemas, claro, quando isso não é parte das preferências sexuais da parceira, significando que ela não acha essa fantasia excitante.”

Foi esse o caso de um usuário do Reddit, que descreveu como oito anos de fantasia de corno o levaram a terminar um relacionamento que de outros jeitos era saudável. “Meu escape sexual era só com fantasias da minha namorada transando com um cara/grupo de caras”, ele explicou. “Eventualmente isso se tornou uma frustração e parei de querer transar com ela.” Ele foi se sentindo cada vez mais alienado de sua masculinidade e capacidade de dar prazer sexual, porque fantasiava principalmente em ser um observador passivo, não um participante ativo. “Para deixar registrado; não sou contra esse fetiche”, ele escreveu. “Mas chamo de 'a heroína dos fetiches' —, pois isso tem potencial para varrer sua sexualidade e reduzi-la a repetir um pequeno cenário de fetiche na sua cabeça de novo e de novo.”

Esse cara não está sozinho em suas experiências negativas com a fantasia. Mac* é um americano de 39 anos que vem sofrendo com sua fantasia de corno há sete anos. Ele tem baixa autoestima e acredita que isso, junto com a chama sexual se apagando em seu relacionamento de muitos anos, contribuiu para ele fantasiar sobre a infidelidade da parceira. “Minha esposa nunca esteve com outra pessoa [sexualmente], então tem algo de tabu e erótico nela perdendo o controle e se entregando a seus instintos sexuais básicos”, ele disse. Enquanto Mac ficava cada vez mais fixado na ideia de assistir sua mulher transar com outros homens, ele começou a pensar obsessivamente em maneiras de tornar isso realidade. “Comecei a pensar nisso no trabalho, planejando o que poderia dizer ou fazer quando chegasse em casa para fazer minha esposa se interessar pela fantasia.”

A esposa de Mac ocasionalmente se envolvia na fantasia com ele, mas disse que não gostava da ideia. Richmond diz que é comum os parceiros verem fantasia através de lentes emocionais, o que pode levar a sentimentos negativos.

“Mulheres nessa posição muitas vezes expressam que sentem que seus parceiros deveriam ter ciúme, querer mantê-las longe de outros homens e só para si, como num relacionamento monogâmico tradicional”, ela explica. “Isso se traduz em não se sentir amada ou desejada." Richmond sugere que casais nessa situação devem tentar falar sobre as origens da fantasia com ajuda de um terapeuta. Claro, isso não é financeiramente possível para todo mundo. De qualquer maneira, Richmond me disse que é útil colocar regras e limites para que cada pessoa se sinta ouvida, segura e apoiada no enquadramento da relação.

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Para alguns casais, isso leva a tentar a fantasia de corno na vida real; para outros, isso leva a interpretar papéis na cama ocasionalmente. Depois de conversar com sua esposa, Mac percebeu que tinha se tornado obcecado por seus próprios desejos sexuais e não estava mais focado em dar prazer à sua mulher. Mac dá prioridade para a ligação romântica deles e concordou em não trazer mais a fantasia para o quarto.

A história acima é familiar para Amber*, 28 anos, cujo ex-namorado contou sobre seu fetiche de corno no começo do relacionamento deles. “Isso me deixou desconfortável, mas eu também não queria ser negativa sobre as fantasias dele”, ela disse. Amber se considera uma pessoa bastante kink que é aberta e positiva com relação ao sexo, mas descobriu que o namorado estava focado apenas em suas próprias necessidades sexuais. “Ele começou a sussurrar para mim como seria sexy se eu transasse com outros caras, ou fosse a um glory hole”, lembra. “Ele também tinha tesão por 'peruas', o que geralmente acompanha a coisa do corno, e me dizia que eu precisava tingir o cabelo ou colocar implantes para ficar 'mais gostosa'.”

Inicialmente, Amber concordou em interpretar a fantasia com ele, mesmo não gostando realmente. “Quanto mais eu tentava atender o fetiche dele, menos interessado ele parecia em realmente fazer sexo comigo”, ela disse. A pedido do namorado, Amber tentou achar uma solução que parecia satisfazer os dois. Ela começou a ter vários parceiros sexuais – todos sabendo de seu status de relacionamento – e contava ao namorado sobre suas escapadas. Isso se mostrou um momento decisivo para perceber que ela estava num relacionamento tóxico. “Esses casos me fizeram perceber que eu não estava tendo minhas necessidades atendidas pelo meu namorado oficial, apesar de ter ido além do que estava confortável inicialmente por ele, e que eu estava transando melhor com quase estranhos.”

Enquanto Mac reconheceu o descontentamento da parceira com a fantasia de corno e eventualmente discutiu isso com ela, as tentativas de Amber de falar com o namorado sobre isso eram repetidamente desviadas. Comunicação e prazer mútuo são a base de qualquer relacionamento, e como Richmond apontou, isso é especialmente importante quando se trata de fetiches e fantasias: “O que nos excita é o que nos excita, ponto final, desde que seja consensual e prazeroso”. Ouvindo a parceira e reconhecendo suas preocupações, Mac começou a superar suas dificuldades. Ele fez um detox de sexo e pornô por um mês, e planejou encontros sem ligações sexuais. Nesse meio tempo ele começou a comer de maneira mais saudável e foi para a academia. “Trabalhei para me melhorar e melhorar meu relacionamento com a minha parceira”, explicou. “Não estou totalmente 'recuperado' ainda, mas está funcionando.”

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Infelizmente, o namorado de Amber não estava pronto para ouvir. Ela percebeu que ele não estava disposto a mudar, pelo menos não por ela, e terminou a relação. Amber acredita que fantasia de corno é diferente das outras porque erotiza diretamente o relacionamento em si, diferente de partes do corpo ou objetos dentro ou fora da relação. “Acho que é por isso que tantos desses homens no final tentam incluir isso na cama”, ela sugere. “Em graus variados, o relacionamento em si tem o potencial de se tornar uma fonte de gratificação sexual.”

No final das contas, a experiência negativa de Amber com o fetiche causou significativos danos emocionais. Ela foi muita clara em seu conselho para homens interessados na fantasia de corno: “Encorajo os homens que têm esse tipo de fantasia a terem consciência de como interagem sexualmente com suas parceiras, para garantir que o prazer é mútuo e ela não está sendo bombardeada ou sufocada pelo fetiche”, ponderou. “Tenha certeza de que está tratando sua parceira como uma pessoa em primeiro lugar, em vez de um objeto que pode fornecer gratificação sexual.”

*Os nomes foram mudados para garantir o anonimato.

Matéria originalmente publicada na VICE Canadá.

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