Saúde

A ascensão das rotinas de "skincare" minimalistas

Cansadas de um dia-a-dia de tratamentos de múltiplos passos e resultados medíocres, muitas pessoas estão a diminuir drasticamente os produtos que usam para a pele.

Por Marie Solis; Traduzido por Sérgio Felizardo
07 Junho 2019, 1:58pm

Ilustração por Julia Kuo.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

No auge da sua rotina de skincare, Aurora Hinz usava 10 produtos, a maioria diariamente: dois sabonetes para o rosto, um tonificador, sérum, dois hidratantes, máscara de papel, um esfoliante e dois tratamentos para acne receitados por um médico. Hinz sempre sofreu com borbulhas e quando o skincare passou a ser moda, decidiu parar de cobrir o acne com maquilhagem e tentar chegar à raiz do problema com produtos para a pele. Normalmente comprava produtos de marcas como Cosrx, Innisfree e Tony Moly, com cada um a custar entre 10 e 50 dólares [entre 9 e 45 euros aproximadamente].

"Sentia que era algo com mais virtudes", diz Hinz. Trocar camadas de correctivo por produtos “naturais” parecia... bem, parecia natural. Além disso, era divertido: Hinz, que é coreana, tinha gosto em fazer parte da onda de beleza coreana que, por essa altura, quando ela andava no liceu, estava a chega a outros países. Mas, depois de anos a tentar acalmar a pele com centenas de dólares em produtos e poucos resultados perceptíveis, em 2017 Hinz procurou um dermatologista e livrou-se da maior parte da sua rotina de skincare em favor de produtos receitados e aprovados pelo médico. E funcionou.


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“Honestamente, acho que só me deixei levar por todo o marketing, embalagens e marcas”, reflecte Hinz, agora com 20 anos. E acrescenta: “Nenhum dos produtos que experimentei funcionou tão bem como os que o dermatologista me deu. A minha pele está mais limpa que nunca”.

É difícil definir exactamente quando é que o skincare – um termo que agora significa muito mais que meramente cuidar da pele – se tornou a tendência cultural que é hoje. Mas, a Coreia do Sul é um bom lugar para começar: o fenómeno conhecido como K-Beauty começou a entrar nos mercados ocidentais por volta de 2015, quando o valor de exportação de produtos de beleza coreanos para os EUA subiu 60 por cento comparado com o ano anterior. Uma das exportações mais populares era uma rotina de skincare de 10 passos, que envolvia, mais precisamente, limpeza com óleo, limpeza com espuma ou creme, tonificante, uma essência, uma emulsão, um sérum, uma máscara de papel, creme para os olhos, hidratante e, finalmente, protector solar. Se comprasses todos os 10 passos de uma vez – o que era possível em sites como Soko Glam e Peach & Lily – o kit podia custar entre 199 e 273 dólares [175 e 240 euros].

Esta longa rotina ofereceu às mulheres ocidentais os fundamentos básicos para criarem as suas próprias rotinas de skincare, trocando produto atrás de produto pelo próximo item “indispensável”, ou, simplesmente, por aquele que as amigas indicavam. Desde então, a indústria só inchou, com o endosso de influencers do Instagram e YouTube, além de marcas multimilionárias como Glossier e Drunk Elephant, onde um sérum de Vitamina C de 30 ml custa 90 dólares [cerca de 80 euros]. De acordo com um estudo de 2017 amplamente citado e levado a cabo pela empresa retalhista de skincare SkinStore, a mulher norte-americana média gasta cerca de 2.900 dólares [aproximadamente 2.580 euros] por ano em skincare e maquilhagem e substitui os seus produtos a cada três meses.

A indústria de skincare ainda está a prosperar e deve mesmo crescer. Mas, há sinais de descontentamento: mulheres como Hinz, que a dada altura comparam a mitologia mainstream que rodeia o skincare, começaram a questionar os méritos de rotinas tão elaboradas e a ponderar se não estariam a fazer mais mal que bem à sua pele – ou se esses produtos teriam mesmo qualquer efeito. Cansadas, algumas passaram a reduzir drasticamente as rotinas; outras voltaram-se para dermatologistas e cuidado médico profissional.

Hinz diz que o conselho definitivo que dá a pessoas que ainda recorrem a regimes caros e complicados de skincare é simples: "Se puderes, procura um médico". “Acontece que a minha pele não tinha muitos dos problemas que eu achava que tinha... ela estava tão irritada por causa dos produtos que eu andava a experimentar”, garante Hinz. E acrescenta: “Acredito fortemente que a melhor coisa que podes fazer pela tua pele é evitar toda essa loucura e ir directamente a um dermatologista”.

É o mesmo conselho que Elena Politiski, 25 anos, começou a dar quando encontrou um dermatologista em Nova Iorque. Antes disso, Politiski estava convencida que comprar os produtos mais caros da Kiehl's e Supergoop aliviaria a sua rosácea, uma condição de pele que surgiu depois de ter acabado a universidade. Durante anos, armazenou um arsenal de produtos que renovava de quatro a seis meses de cada vez, mas com nenhum deles a parecer fazer qualquer efeito. “Não melhoravam nem pioravam a condição”, reflecte Politiski. Quando finalmente procurou um dermatologista, o médico disse-lhe: “Nenhum desses produtos vai funcionar para a tua pele”.

Dos 10 dermatologistas com quem a VICE falou, três disseram que quase sempre o problema é que os pacientes usam muitos produtos que compram na farmácia em venda livre ou na Internet e que não são os correctos para eles. Mas, os outros sete disseram que histórias como a de Hinz e Politiski se tornaram cada vez mais comuns nos últimos anos, com a moda contemporânea do skincare a atingir o seu auge. Quando os pacientes entram no consultório, muitos deles já experimentaram dezenas de produtos e gastaram milhares – habitualmente frustrados com a falta de resultados. Marcar uma consulta com um médico é, geralmente, o último recurso.

“Os pacientes chegam e contam que têm um sabonete para o dia, um para a noite, tonificador, tratamento para manchas, algum tipo de óleo, algum tipo de creme antioxidante, uma esponja facial, o que geralmente só piora o acne – um monte de coisas”, explica Rachael Cayce, dermatologista de Los Angeles que trabalha na DTLA Derm. E realça: “Atendo 30 pacientes por dia e tenho esta conversa com uns 15. Normalmente, o que faço é diminuir os produtos que usam”.

Cayce pede que os pacientes levem os seus produtos de skincare à consulta. E, muitas vezes, ela fica chocada ao descobrir que gastaram centenas num único produto, quando ela sabe que no final da consulta a receita que lhes passar será de um produto que custará 15 dólares [cerca de 13 euros].

“Um regime de skincare é apenas uma parte de um plano maior para atingir a tua melhor pele, portanto investir muito tempo e dinheiro em produtos nem sempre é produtivo”, escreve Tara Rao, dermatologista do Schweiger Dermatology Group de Nova Iorque, num e-mail. E justifica: “Muitas vezes, alguém com uma pele propensa a acne e inflamações vai tentar usar produtos e passos adicionais num esforço para resolver o problema... E, mesmo encontrando algo que lide com a questão, há um processo de muita tentativa e erro que nem sempre tem um final feliz”.

Enquanto algumas pessoas se mostram ansiosas por ouvir uma opinião profissional sobre os seus problemas de pele, outras resistem. Cayce diz que, por vezes, os seus pacientes mostram-se relutantes em retirar produtos das suas rotinas, ou não estão dispostos a desistir de produtos caros que já compraram. Isso é verdade até para alguns membros da sua equipa, que ela já viu a usarem produtos que sabem que não combinam com a sua pele. Outros ainda vão insistir que a sua opinião sobre skincare está correcta, especialmente se passaram horas a ler sobre séruns em subreddits de skincare. “Mesmo quando estou a falar com pessoas que sabem que sou dermatologista, há algumas que tentam dizer-me o que é melhor para a minha pele”, garante Cayce. E acrescenta: “Não me diriam nada se eu fosse cardiologista”.

A dermatologia entrou num tipo de impasse com o skincare comercializado e os seus muitos defensores. Como membro do comité de redes sociais da American Academy of Dermatology, uma das maiores organizações de dermatologia do Mundo, Anthony Rossi diz que ele e os seus colegas estão constantemente a tentar pensar em formas de como tornar informações apoiadas pela ciência sobre cuidados com a pele mais acessíveis ao público. No entanto, ele admite que é difícil competir com centenas de influencers de skincare no YouTube e Instagram, que envolvem os espectadores com avaliações de produtos e tutoriais. “Ninguém quer ler um artigo científico sobre cuidados com a pele”, realça à VICE em conversa telefónica.

A AAD está agora a tentar captar o público através de uma abordagem semelhante à das personalidades da Internet, com tweets de vídeos curtos, ou links de rotinas de skincare aprovadas por dermatologistas para homens. “Pensamos em nós como influencers de skincare e queremos que o público também nos veja assim”, continua Rossi.

Alguns influencers de skincare pensam da mesma maneira: Rio Viera-Newton, jornalista da área de beleza do The Strategist, conhecida por partilhar um Google doc em que detalha a sua rotina de cuidado com a pele, garante que deixa sempre claro que está a falar de um ponto de vista das suas experiências pessoais – não fazendo uma declaração geral sobre que produtos funcionam para toda a gente. E continua a promover o valor de procurar um profissional para abordar certos problemas de pele; ela, aliás, consulta um regularmente. “Dermatologistas são uma fonte incrível e têm uma riqueza de conhecimento quando se trata de demonstrar a ciência por detrás de problemas de pele e como os produtos funcionam”, escreve Viera-Newton num e-mail. E acrescenta: “Tenho eczema severo que a minha dermatologista ajuda a gerir com pomadas e cremes. Não sei como lidaria com o problema sem ela”.


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Mas, nem todos os que estão a abandonar as suas rotinas de skincare estão a voltar-se para um dermatologista. Nneka Udeagbala, que tem 21 anos, diminuiu a sua rotina de skincare depois de uma viagem ao estrangeiro, que a fez reparar que a aparência da sua pele tinha mais a ver com clima e dieta do que com os oito produtos que usava diariamente. Agora, usa apenas dois produtos simples de farmácia que produzem resultados mais consistentes.

Veronica Carleton, da mesma idade, está a simplificar a sua rotina depois de tre mudado de cidade para estudar na universidade. Preocupada com o acne da filha, a mãe de Carleton deu-lhe vários produtos para experimentar – incluindo um esfoliante, um sabonete, um sérum, um tratamento de reparação nocturna, creme de correcção para manchas e um creme de clareamento – nenhum deles se mostrou eficiente. Agora, Carleton diz que usa apenas um produto, um sabonete facial suave e os resultados são muito melhores. “Há anos que a minha pele não parecia tão boa”, garante.

Mas, mesmo que Carleton tenha encontrado uma nova rotina que funciona, assegura que nunca insistiria para outra pessoa a experimentar: lidar com as opiniões dos outros sobre o que ela devia fazer com a própria pele era muito irritante e descobriu que seguir o conselho de outras pessoas (seguindo uma rotina de vários passos) era cansativo. “Parte da culpa por ter acabado no fundo desse buraco era as pessoas dizerem-me: 'Tens de fazer isto e aquilo'. Era uma coisa em cima da outra e não quero fazer isso a ninguém”, afirma.

Cepticismo em relação a skincare comercial não é novidade e surgiu quase imediatamente depois de o actual movimento começar a ganhar tração. Em Janeiro de 2018, um artigo do Outliner intituladoThe Skincare Con” tornou-se omnipresente em debates sobre a nova obsessão com skincare: se isto era meramente um esquema elaborado para fazer as mulheres gastarem mais, ou se era uma forma válida de cuidarem de si mesmas, eram as questões normalmente em debate. O artigo desencadeou o que o Vox chamou de “guerra do skincare”; uma batalha que acontecia principalmente no Twitter, travada não só para responder à dúvida se o skincare era um golpe, mas também para chegar à raiz de preocupações muito maiores sobre mitos que rodeiam o cuidado pessoal e aperfeiçoamento próprio em que nos apoiamos para lidar com a vida.

A ascensão do skincare tem sido apenas outro resultado do movimento de auto-cuidado, “a solução Instagramável” dos millennials para os buracos no sistema de saúde, escreveu a jornalista da nossa plataforma Tonic, Shayla Love, em Dezembro último. Como Love explica, a actual definição de auto-cuidado pode validar todo um espectro de comportamentos, até ao ponto da contradição: “Comer de maneira saudável ou indulgente; passar tempo sozinho ou com amigos; malhar ou tirar um dia de descanso; fazer manicure ou esquecer rotinas de beleza”. O foco é fazer o que tens de fazer para te sentires bem.

Para muitas pessoas, o skincare é aquilo que atende a essa necessidade. Num artigo para o The New Yorker, Jia Tolentino definiu 2017 como “o ano em que skincare se tornou um mecanismo para lidar com a realidade”. Tolentino disse que o skincare se tornou uma “pequena tentativa ridícula” de afirmar que ela “sobreviveria à administração Trump” – uma forma de exercer um mínimo de controlo sobre forças políticas aparentemente intratáveis que a deixavam ansiosa com a situação do Mundo.

Muitas mulheres com quem a VICE falou dizem que skincare também é uma forma de criar laços com outras mulheres. Politiski explica que quando se mudou para estudar na universidade, enviava máscaras faciais para as amigas em aniversários ou festas de final de ano, como uma forma de manter contacto; quando elas a visitavam em Manhattan, levava-as à loja da Glossier no Soho. Udeagbala, por sua vez, diz que quando saía com amigas da sua residência, costumavam mostrar umas às outras as suas colecções de skincare e os novos produtos que tinham comprado recentemente.

Encontra uma mulher que quer falar sobre a sua rotina de skincare e vocês podem conversar durante horas; mesmo quando liguei a mulheres que estavam a eliminar ou a simplificar drasticamente as suas rotinas, vi-me sugada para os detalhes de jornadas de anos de skincare, da adolescência até à vida adulta. Falar sobre skincare pode ser uma maneira de saber mais sobre a vida e rotina de outras pessoas; o que elas fazem na vida privada para se tornarem quem querem ser.

Quando skincare tem um significado tão grande, pode ser difícil abandonar essa mentalidade – que a rotina “funcione” num sentido literal já não é o mais importante. No domingo antes de começar a escrever este artigo, a minha colega Rachel Pick anunciou no Twitter que estava a livrar-se de toda a sua colecção de skincare depois de se consultar com um novo dermatologista. “Ontem durante a faxina de primavera, joguei fora meu rolo de microagulhas”, ela me disse. (Um rolo de microagulhas, aliás, é exatamente o que o nome diz.) “Ele fazia um guincho horroroso toda vez que eu usava, e meu marido dizia 'Por quê?' Realmente, por quê?”

Tal como algumas das outras mulheres com quem falei, Pick diz que foi ficando impaciente com a acumulação de produtos de skincare que não pareciam ajudá-la com o seu problema de pele e estava exausta da rotina. “Só queria dormir”, recorda, “não fazer uma rotina de skincare coreana de 10 passos”.

Algumas marcas parecem já estar a preparar-se para acomodar pessoas como Pick. Nos últimos anos, o sabonete em barra ressurgiu, tornando-se um novo item minimalista para “obcecados com skincare”, segundo um artigo de Março do Cut. “Fora a eficácia, as barras também agradam à Marie Kondo que existe em todos nós”, escreveu Jessica Teas. E acrescentou: “Enquanto nos livramos da confusão em outras áreas da nossa vida, faz sentido que o armário da casa-de-banho também passe por um KonMari”. No mesmo mês, a Amazon expandiu para a indústria de skincare, introduzindo a linha Belei, que visa “ajudar os consumidores a gastar menos tempo e dinheiro à procura das soluções certas de skincare”, como explica Kara Trousdale, chefe da área de beleza da Amazon para marcas privadas, numa declaração.

Recentemente, a Vogue também abordou o ressurgimento do “skincare em dose única”, na forma de cápsulas ou ampolas contendo uma mistura de produtos, popularizadas por marcas como Elizabeth Arden nos anos 90, agora vendidas por Estée Lauder, L'Oréal Paris e, novamente, Elizabeth Arden.

Claro, diminuires a tua rotina de skincare não significa abandonares de vez todas as formas de cuidado com a pele. A pele é o maior órgão do corpo humano, a primeira coisa que as pessoas vêem. A maioria das mulheres com quem a VICE falou estavam à procura de um meio termo entre uma rotina de skincare de 10 passos e uma de zero. E a maioria encontrou isso de maneira acessível quando abandonou a ideia de que o skincare comercial era uma panaceia para todos os problemas de pele. “Nunca vou recusar uma noite de máscara facial com as amigas, e ainda me divirto a conhecer os novos produtos que surgem”, diz Hinz. E conclui: “Acho que há várias maneiras de participar nesta moda, sem ter que comprar banha da cobra”.


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