reportagem

O que acontece depois da reforma do trabalho sexual

Falámos com ex-profissionais sobre as suas vidas depois de deixarem uma carreira no mundo do sexo.

Por Sirin Kale
08 Junho 2017, 2:28pm

Ilustração por Grace Wilson.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Broadly.

Depois de uma década como dominatrix profissional, Mistress Suz sabia que estava na altura de pendurar as chuteiras. "Fiquei velha", diz-me, sem rodeios. Apesar de os seus clientes regulares não ligarem ao facto de terem uma dominatrix de 40 anos, o esforço físico começou a pesar.

"O meu corpo estava velho para aquilo", realça Mistress Suz, hoje com 50. E acrescenta: "Desenvolvi um caso de cotovelo de tenista por causa de usar o chicote ao longo de 10 anos. Depois tive uma lesão no ombro". Num momento crítico da sua vida e sem saber como continuar, Mistress Suz fez o que muitos recém-divorciados ou escritores fracassados fizeram antes dela: entrou num mosteiro budista. "Ir para um mosteiro era um sonho que já alimentava", explica. Dois meses depois, comandava a cozinha do local. A sádica profissional tinha recebido o seu chamamento e começava a senda de se tornar cozinheira profissional.


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E Mistress Suz tinha um talento que a tornava um trunfo para qualquer cozinha: as suas habilidades avançadas com cordas. Quando o chef lhe pediu que amarasse um peru para assar no forno, Mistress Suz impressionou-o com a sua rapidez. O que os seus novos colegas de trabalho não sabiam é que Mistress Suz era excepcionalmente apta por uma razão. Na verdade, ela usava a mesma técnica em vários submissos durante a sua antiga carreira.

Nem todos os trabalhadores sexuais podem colocar em prática uma década de treino tão espectacularmente, mas todos adquirem habilidades transferíveis, que podem nas suas futuras carreiras. Poucos trabalhadores sexuais continuam uma vida inteira na indústria e saem dela por razões diversas — muitas vezes podem acabar por voltar, mas só temporariamente.

"As pessoas saem desta vida por várias razões", explica Raven Bowen, da Universidade de York. Antes de entrar para a academia, Bowen passou décadas a trabalhar como defensora de trabalhadores do sexo, no oeste do Canadá. "Se as pessoas engravidam ou se apaixonam, geralmente abandonam de imediato. Profissionais do sexo da classe média conseguem planear quando fazer a transição, aceitando alguns trabalhos convencionais e saindo gradualmente".

Outro motivo comum é um filho a aproximar-se da adolescência. Trabalhadores sexuais que não revelam o que fazem à família e temem que os filhos (ou seus colegas de escola) descubram em que indústria a mãe realmente trabalha. Os mais raros são os profissionais que vivem a fantasia de Pretty Woman e se casam com um cliente, apesar de Bowen me garantir que isso não é inédito. "Os clientes têm sido centrais para a experiência de saída do trabalho sexual para muitas profissionais", explica Bowen. E sublinha: "Eles podem ajudar e às vezes até investir na transição".

Muitos trabalhadores sexuais vêem a indústria como uma actividade de curto prazo para os conduzir a uma carreira mais comum e visam reformar-se assim que conseguirem juntar dinheiro suficiente para pagar a universidade, ou abrir um pequeno negócio, por exemplo. "Algumas mulheres trabalham um ou dois anos e sabem que não querem continuar depois disso, portanto poupam o dinheiro todo que podem", explica Laura Watson, do English Collective of Prostitutes. E explica: "Cortam quase todos os gastos, porque, basicamente, estão a poupar para o que querem fazer depois disso".

Pergunto a que áreas as profissionais geralmente se dedicam a seguir. "Muita gente passa para a indústria da beleza, abrindo salões de manicure, ou coisas do género", responde Watson. O mais importante para que isso aconteça - se trabalham num país onde a prostituição é ilegal - é não ter cadastro policial. Com a ficha suja, sair da indústria pode ser impossível. Watson recorda um caso: "Trabalhámos com uma profissional que se prostituía temporariamente para cobrir os custos da filha deficiente. O dinheiro era para itens específicos, por um curto período de tempo. Só que foi detida e cadastrada e, basicamente, não conseguiu depois largar a prostituição. Por isso é que a descriminalização é tão importante".


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"Tenho um Roth IRA [uma conta especial de poupança reforma] e um cliente vai ajudar-me a investir as minhas economias no futuro", diz-me Shay, uma profissional do sexo da Costa Oeste, por e-mail. "Espero ser milionária aos 45 anos", acrescenta, apesar de reconhecer que isso é bastante improvável. Shay cobra 400 dólares [cerca de 355 euros] por uma hora de programa e dois mil dólares [1780 euros] por uma noite e tem uma estratégia clara para deixar o trabalho sexual. Como qualquer freelancer sabe, ter um contabilista é muito importante. "Contabilidade é obrigatório. Sou péssima nisso. Além do mais, não pode haver rastos. Também sou péssima nisso. Os impostos são complicados. Conheço uma contabilista que trabalha especificamente com trabalhadores sexuais. Ela é um anjo".

"Como qualquer pessoa, os trabalhadores sexuais querem poupar para a reforma, para uma casa, uma base para outra carreira", explica Marie Thomasson, uma planeadora financeira de 37 anos, de LA, especializada em ajudar profissionais do sexo a lidarem com as suas finanças. "O activo mais importante de um trabalhador sexual geralmente é seu corpo e esse é um activo depreciador. Se a pessoa escolhe sair da indústria, ou reformar-se, o planeamento é muito importante. É fundamental ter um orçamento e reservas adequadas". Mantendo a cabeça fria, diz Thomasson, uma profissional financeiramente responsável pode esperar reformar-se aos 35 ou 40 anos.

Mas, se te queres reformar aos 40, é bom que cuides da saúde física e mental. Shay tem uma estratégia secundária para garantir o seu sucesso profissional numa indústria competitiva e às vezes fisicamente árdua. "Um aspecto da reforma que muitas vezes é esquecido é a saúde", comenta Shay. E justifica: "Em nove meses como acompanhante, vi mulheres lindas e inteligentes mandarem a vida para o lixo porque não sabiam lidar com dinheiro".

A resposta? "Uma parte de poupar para a reforma", explica, "é cuidar da saúde. Isso inclui dentista, massagens, comida saudável e ginásio. Também é bom ter cuidado com a bebida. Esta é uma parte importante da minha estratégia de reforma e permitiu-me passar pelas fases más do trabalho sexual".


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Muitos profissionais fazem a transição para campos relacionados com a área, como investigação e activismo sexual. "Estou a fazer o meu segundo curso e tenho uma oferta de PhD na mesa", diz a trabalhadora sexual e activista Laura Lee, que está a processar o governo irlandês por causa de uma nova lei que criminaliza pagar por sexo. Lee confirma que muitos colegas de trabalho têm uma estratégia de saída semelhante. "Alguns têm uma abordagem muito estruturada em termos de objectivos financeiros que querem alcançar, como pagar a hipoteca e colocar os filhos na universidade".

Tornar a sua carreira pública ou não pode ter um grande impacto nas suas opções futuras. Ser o próprio chefe ajuda, como Kristy Lin Billuni descobriu. "Os meus cinco anos na indústria do sexo foram realmente positivos para mim", diz Billuni. E acrescenta: "Mas eu estava pronta para a transição por volta do meus 30 anos. Precisava que o meu corpo fosse só meu por um certo período".

Agora, Billuni usa o seu passado na indústria do sexo como um ponto de marketing único - comanda um negócio chamado Sexy Grammar, que fornece serviços de edição e escrita. "Construí uma abordagem de estímulo de escrita com o que aprendi na indústria do sexo", diz Billuni. Como todas as trabalhadoras sexuais com quem falei para este artigo, ela disse que o seu tempo na indústria lhe deu capacidades transferíveis vitais.

"Tudo o que aprendi sobre como ensinar pessoas sobre sexo - não julgar, deixar as pessoas serem quem são, encontrar os clientes onde eles estão - aprendi sendo prostituta", explica Billuni. E salienta: "Ser uma educadora sexual deu-me ferramentas incrivelmente valiosas para ajudar pessoas no seu processo criativo".

Mas, nem todos os trabalhadores sexuais têm um final tão feliz e estruturado. Para outras pessoas, sair da indústria é um caso confuso e prolongado. Enfrentar o estigma que ainda existe em redor do trabalho sexual pode ser difícil e a transição para um novo emprego pode ser ainda mais complicada se – como acontece com muitas mulheres – se vêem expostas como ex-trabalhadoras sexuais.

"Já falei com trabalhadoras sexuais que foram demitidas e tiveram que partir para formas de trabalho mais perigosas e underground", diz Bowen. E sublinha: "Quando as pessoas descobrem que elas estavam envolvidas na indústria, não conseguem superar o estigma e ficam envergonhadas por todas as experiências que tiveram na indústria do sexo. São vistas como depravadas sociais e não confiáveis, mesmo sendo qualificadas para os empregos".

Como acontece em qualquer profissão, ex-trabalhadoras sexuais recordam a sua época na indústria com emoções mistas. Para algumas, foi apenas um meio para um fim: uma universidade sem dívidas, um empréstimo para uma casa, uma forma de pagar as contas quando as opções eram limitadas. Para outras, a experiência é positiva, mas superada com o tempo. Como muitas ex-trabalhadoras sexuais, Billuni continua a sentir-se frustrada com a forma como a sociedade tende a ver o trabalho sexual. "As pessoas esperam que o trabalho sexual seja algo de que tu escapas", comenta. E conclui: "Mas, para mim, foi uma aventura maravilhosa na juventude, que moldou quem eu sou e que abracei enquanto crescia".

Como Biliuni, Mistress Suz lembra-se do seu tempo como dominatrix com carinho, apesar de algumas coisas terem mudado: "Como dominatrix, estava sempre no comando. Agora, o chef está sempre no comando e eu sou a sua putinha". E, apesar da inversão de papéis, Mistress Suz está a adaptar-se bem. "Estou a gostar das mudanças nas relações pessoais. Fico incrivelmente feliz com os prazeres de servir. Por enquanto, estou a a dorar ser a putinha do chef. Mas, como em todas as relações entre dominador e submisso, só dura enquanto o submisso quiser. Ainda assim, quando seguir em frente, vai ser com o título de Sous Chef e um portfólio de pratos profissionais", afirma.


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