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Saúde

Como a indústria do cacau nos fez acreditar que chocolate amargo é saudável

Muitos dos estudos sobre os benefícios do chocolate negro são financiados pelos próprios produtores.

Por Cindy Kuzma
23 Abril 2019, 10:19am

Joannawnuk/Getty Images.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

Um dia pode ser que conheças aquela rara pessoa que não gosta de chocolate. O resto do Mundo não só gosta, como deseja chocolate mais do que qualquer outra guloseima. Na verdade, muitos estudos psicológicos usam o chocolate como o Santo Graal da larica, o ingrediente que nos faz salivar à sua menor menção.

Portanto, quando surgem estudos que ligam o chocolate a uma saúde melhor, estamos mais que dispostos a acreditar. Vê, por exemplo, a descoberta de 2015 de que uma tablete de chocolate por dia ajudava na perda de peso. A notícia circulou desde o The Irish Examiner até estações de TV no Texas. Que pena que era só uma armação bem elaborada, para mostrar a cobertura preguiçosa da comunicação social em relação a investigações científicas para um documentário que expunha a indústria das dietas.

E quando um estudo publicado na revista Heart ligou o consumo de chocolate a uma redução do risco de fibrilação auricular - uma irregularidade dos batimentos cardíacos, ou arritmia cardíaca, potencialmente mortal - as manchetes declararam mais uma vez os benefícios do produto para o coração. Isto apesar de os autores do estudo escreverem, logo no resumo, que "perturbação residual não pode ser descartada".

Um editorial que acompanhava o estudo previa a cobertura positiva dos media. "É excitante pensar no potencial de anúncios de saúde pública divertidos, como 'Coma mais chocolate para prevenir fibrilação auricular!' ou 'Um chocolate por dia mantém o cardiologista longe!'", escreveram os investigadores Sean Pokorney e Jonathan Piccini.


Vê: "À descoberta dos gelados de canábis"


Ainda assim, os investigadores advertiram que slogans encorajadores do consumo de chocolate poderiam ser prematuros. Por exemplo, no estudo os consumidores de chocolate eram mais saudáveis e exercitavam-se mais do que aquelas pessoas que passam meses sem comer um pedacinho de chocolate - o que significa que não podes provar que foi o chocolate que fez a diferença nos batimentos cardíacos.

Questões destas surgiram em estudos sobre nutrição de maneira geral e sobre chocolate em particular, o que significa que um leitor médio deste tipo de assuntos (eu e tu) vai ter dificuldades em retirar alguma informação útil da pesquisa. Estudos observacionais como o que citamos envolvem pegar num grupo grande de pessoas, pedir-lhes que digam o que estão a comer (usando questionários de frequência de consumo, que os próprios autores realçam que levantam preocupações em relação à "falta de memória") e depois ver as associações entre o que as pessoas dizem que comem e os tipos de problemas que desenvolvem — ou não — ao longo do tempo.

"O chocolate apareceu como um factor, mas outros alimentos também o podem ser [na prevenção de doenças cardíacas]. É por isso que não podes dizer que o chocolate é a causa de uma redução na arritmia cardíaca; essa observação pode vir de vários outros factores", diz Marion Nestle (que não tem relação com os conhecidos fabricantes de chocolate), professora de nutrição, estudos alimentares e saúde pública da Universidade de Nova Iorque, nos EUA.

A especialista também menciona os problemas da falta de memória: "Acho essas coisas [questionários de frequência de consumo] impossíveis de preencher, porque não me lembro do que comi com tanta especificidade". Outros grandes estudos observacionais já ligaram cacau ou chocolate a uma redução no risco de insuficiência cardíaca, diabetes, derrame e declínio cognitivo. Quando estudos descobrem associações entre certos alimentos e benefícios para a saúde, os cientistas geralmente trabalham de trás para frente para entender o porquê.

No caso do chocolate, os cientistas suspeitam que um composto chamado flavano-3-ol - encontrado no cacau mas também em chás, bagas e vinho tinto - merecem muito do crédito. O flavano-3-ol parece aumentar a produção de óxido nítrico no corpo, um composto que dilata as veias e artérias, fazendo o sangue fluir com maior eficiência. Isso inclui o cérebro, o que pode explicar os efeitos do chocolate no humor e cognição.

O flavano-3-ol também impede que as células vermelhas se tornem perigosamente gordurosas e parece aumentar a sensibilidade à insulina, melhorando a nossa capacidade de usar essa hormona para converter açúcar em energia e afastar a diabetes, diz Georgie Fear, nutricionista e autora de Lean Habits For Lifelong Weight Loss.

Uma metanálise de 2016 de testes controlados aleatórios - o padrão de ouro para medir a eficácia de dada intervenção, seja uma nova droga ou uma tablete de chocolate - encontrou evidências de que 200 a 600 miligramas de flavano-3-ol por dia melhoram a sensibilidade à insulina e os níveis de colesterol. E um estudo publicado pela Cochrane Database of Systematic Reviews, muito respeitada pelos seus resumos cuidadosos de pesquisas médicas, descobriu que uma dose média de 670 miligramas reduz a pressão arterial em cerca de quatro pontos em pessoas com hipertensão.

Nos dois casos, os revisores apontaram que testes de longo prazo são necessários para determinar se o consumo de chocolate ou flavano-3-ol, com o tempo, tem realmente um impacto na prevenção de coisas como ataques cardíacos e diabetes – por outras palavras, se pode, efectivamente, melhorar a saúde e estender a vida. Isto é importante medir porque, mesmo que o flavano-3-ol tenha benefícios, eles podem vir num pacote com calorias, açúcar e gorduras extras, diz a nutricionista de Filadélfia Libby Mills, porta-voz da Academia de Nutrição e Dietética. Portanto, é importante ter em conta uma perspectiva mais abrangente quando se estiver a tomar decisões nutricionais.

Outra questão: muitos destes estudos sobre os benefícios do chocolate para a saúde (mas não o estudo sobre fibrilação auricular) são financiados pela indústria do cacau. Na verdade, o fabricante dos M&Ms, Snickers e outros doces estabeleceu em 2012 o Mars Center for Cocoa Health Science, especificamente para esTe tipo de pesquisa. A empresa também vende um suplemento chamadO CocoaVia, que diz "promover um fluxo sanguíneo saudável da cabeça aos pés" - apesar de, como muito suprimentos, essas afirmações não serem avaliadas pela FDA (The Food and Drug Administration) nos Estados Unidos.

O financiamento da indústria não significa que um estudo é, automaticamente, inválido, mas indica que os resultados tendem a vir com conclusões mais favoráveis e exigem "interpretações cuidadosas", realça Nestle. E depois há a questão da dosagem. Testes controlados aleatórios podem usar tabletes de chocolate, bebidas feitas à base de cacau, ou cápsulas como o CocoaVia. Mas, em cada caso, eles são calibrados precisamente para entregar um número específico de miligramas de flavano-3-ol, um número que não está incluido nas informações nutricionais de uma barra de chocolate que compras no supermercado, por exemplo.

De modo geral, quanto mais amargo o chocolate melhor, diz Fear. Chocolate branco, por definição, não contém nenhum flavano-3-ol. Um estudo do Journal of Functional Foods apoia a noção de que quanto maior a percentagem de cacau num chocolate amargo, mais flavano-3-ol ele entrega ao consumidor. Todavia, ainda não é possível ter a certeza de exactamente quanto flavano-3-ol estás a absorver. Suplementos prometem altas doses com menos calorias, mas grupos de teste de consumo desses produtos dizem ter encontrado uma variação grande de níveis de flavano-3-ol e até alguns contaminantes (e, ao contrário de medicamentos prescritos, ou até de venda livre a em farmácias, a FDA não regula exactamente o que entra nesses suplementos).

Apesar de acreditarem que cacau e chocolate contêm substâncias que promovem a saúde cardíaca, nem Mills nem Fear aconselham pessoas que não comem chocolate a começar a comer agora. Afinal de contas, retiras as mesmas vantagens de alimentos com muito mais nutrientes — por outras palavras, que contêm mais vitaminas, minerais e outros compostos com cada caloria. "Se podemos conseguir flavano-3-ol de chás, frutas ou vegetais, essas são as primeiras coisas que recomendaria", sublinha Mills.

No entanto, há outro benefício importante a considerar: comer alimentos que realmente gostas. "Nunca conheci alguém que não gostasse de consumir algum tipo de doce", diz Fear. Para muitas pessoas, o consumo de chocolate é mais fácil de controlar que outras sobremesas; se fazes uma fornada de brownies ou compras um balde de gelado, podes acabar por comer demasiado, mas alguns quadradinhos de uma tablete de chocolate de qualidade parecem muito mais satisfatórios. Acrescenta a isso o facto de que o chocolate pode ter alguns benefícios para a saúde e essa pode ser uma escolha mais inteligente para a tua vontade de doces.


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