O Veterano Mr. G Quer Otimismo para Enfrentar a Crise na Noite Inglesa

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O Veterano Mr. G Quer Otimismo para Enfrentar a Crise na Noite Inglesa

​O produtor do techno inglês, metade do lendário duo The Advent, fala sobre manter o alto astral apesar da onda ruim que tem fechado vários clubes na Terra da Rainha.

A noite na Inglaterra não é mais a mesma. Quase metade das baladas do país fecharam as portas nos últimos dez anos, os donos de casas de Londres a Glasgow não podem se mover por problemas de licenciamento, e — para a turma old school o bante para se lembrar — as coisas parecem ter tomado o rumo que tomaram na virada do milênio.

Para quem não estava lá, foi algo como uma espécie de "tudo acabou".

Quando as coisas estão desse jeito, faz sentido chamar os veteranos. Sendo assim voltamos nossa atenção para o bom e velho Colin McBean, o veterano do techno na Inglaterra também conhecido como Mr G, que fala sobre a morte dos clubes ingleses e diz por que os britânicos devem se manter positivos.

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Tendo crescido na cultura de soundsystem dos anos 70, Mr G estabeleceu seu lugar como um genuíno pioneiro do techno como uma das metades da dupla The Advent no começo dos anos 90. De lá pra cá este nativo de Derby tem segurado seu lugar no underground, muito por causa do trabalho no seu selo Phoenix G, por onde lançou o impressionante e sombrio A Night On The Town, neste mês de setembro. Isso pode até não parecer grande coisa para você, mas deu pra entender. Aos 54 anos, ele sabe uma ou duas coisas sobre noite e sobre música.

Tendo acabado de voltar para sua casa nos arredores de Leicester, cidade ao leste da Inglaterra, depois de uma viagem à América Latina, Mr. G conversou com o THUMP para falar sobre o que está acontecendo em sua terra natal, e se é hora para todo mundo começar a se desesperar, arrancar a cabeça do vizinho fora e comer seus miolos.

"Às vezes, lá dentro, acho que somos mal acostumados mais do que tudo no que diz respeito às cidades britânicas. Todos os tipos de DJs passam por nossas portas no decorrer de um ano. Outros lugares como Bogotá, em comparação, os custos são bem mais restritivos", diz ele. "O preço de levar alguém pra lá, botar pra tocar, é difícil. Mas isso quer dizer que os clubbers dão valor quando alguém está em Bogotá, por exemplo. É como 'Tanto faz o que você nos dê, nó vamos aceitar e tentar entender'. Quer dizer, a noite em que eu toquei na Colômbia foi na casa de um velho escritor que se tornou uma balada de três andares com um bar, e foi uma das melhores [discotecagens] da minha vida."

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Falar com qualquer DJ ou produtor do Reino Unido em 2015 envolve falar sobre casas e, mais importante, o fechamento dessas casas. McBean, por sua vez, encara o assunto com mais positividade. "Sobre falar de fechamentos de casas na Inglaterra, acho que há dois pontos principais na minha opinião. Primeiro, só faço dois shows por semana, e escolho cuidadosamente quais são. Então, não sei realmente do que estão falando — onde eu estou, tá firmeza," ele diz.

"Mas eu leio [sobre o assunto], e saio de balada também quando posso. E é por isso que eu acho que tem um quê de mal acostumado, particularmente em grandes cidades. Eu já vi as coisas ficarem ruins, e talvez estejamos tendo mais problema dessa vez por causa da recessão e do que está acontecendo no resto do mundo — e nós ainda temos muitos festivais. Quer dizer, você pode ver o lineup da sua vida por um preço razoável. Se estivesse escolhendo, estaria pensando em lugares onde poderia ver todo mundo de uma vez, ao invés de pagar para vê-los individualmente."

É uma opinião que parece fazer sentido para um cara cuja carreira tem sido feita, em grande parte, ao escolher tocar em festas escolhidas a dedo, e de um nome que raramente é visto em lineups de festivais. Então existem boas alternativas para as festas do big business da cena eletrônica?

"Há alguns lugares, especialmente em Londres, onde grupos estão acertando. Eles têm lineups incríveis, bons espaços, a atitude certa. Mas também há muitos lugares que não. É o fim da balada, então? Não tenho certeza disso."

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"Vi muitos lugares virem e irem. Quando The End fechou em Londres foi o fim do mundo. Então alguma coisa apareceu e tomou seu lugar. Se você tem uma balada ótima, bons shows — não só os hits —, você vai ter um bom público e bom apoio. Há muitos lugares assim no mundo, e nós precisamos de mais aqui também.

"Não me leve a mal, há alguns lugares do tipo na Inglaterra. Mint em Leeds, The Tunnels de Aberdeen, Just Jack em Bristol. Eu amo Corsica Studios por exemplo. Há algumas turmas ótimas aqui, então não posso dizer que existe uma morte dos clubes porque as pessoas com quem ando estão a todo vapor."

Não tem como negar que os clubbers do Reino Unido são privilegiados em termos de oferta de clubes. No entanto, as casas seguem fechando as portas em proporção alarmante, o que faz você pensar se é por causa do número de clientes ou se por pressões externas.

"Enquanto você puder entrar na internet e baixar tal set de tal DJ, isso quer dizer que existe um problema. É menos provável que você saia pra vê-lo tocar. Quando era jovem isso simplesmente não era possível. Quando Earth, Wind & Fire vinham pra cá eu guardava dinheiro, me preparava pra locomoção, ia para a experiência e voltava no último trem. Agora é mais provável você ver quem vai tocar, baixar algo que eles mixaram e fazer um julgamento a partir disso. Mas aí muito sobre o som e a noite, o ambiente e a camaradagem podem se perder. Nós parecemos uma geração descartável."

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No momento, porém, os clubes não são as únicas instituições culturais sob ameaça na Inglaterra. O valor da cultura em si — do techno em galpões a galerias de arte independentes — parece ofuscado pelo valor da propriedade. Ao levar isso em consideração, a conversa com Mr G, por isso se encaminha num rumo que busca entender atitudes conservadoras que substituíram um breve período de liberalismo vivido pelo país durante os anos 90.

"Concordo, até certo ponto, mas é assim que eu vejo as coisas… Veja o Plastic People em Londres. Quando o clube abriu pela primeira vez ninguém ia perto daquela área da cidade. Era uma região meio esquisita. Então os clubbers começaram a aparecer, tendo noites ótimas, e com o passar das semanas, estava acontecendo. As pessoas pensaram em se mudar para os arredores da Plastic, compraram um flat. Então elas ficam mais velhas. Elas param de sair, e o mesmo clube vira um incômodo."

"O mesmo aconteceu com o Ministry. Uma vez que um espaço é escolhido como o lugar a ir, imediatamente começa a ser percebido por vários tipos diferentes de pessoas. A polícia, associação de moradores e o público. Isso torna difícil para casa continuar [de portas abertas] quando os problemas começam a surgir, porque o pico já é conhecido."

A ideia dos baladeiros de ontem podem ser as mesmas causadoras dos problemas a nos pegar de surpresa cena britânica de hoje — apesar de as reclamações de barulho serem sonoramente predominantes. Por isso, perguntamos a Mr G se tem algo que podemos fazer para parar os ventos da mudança.

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"Eu lembro de fazer uma festa em um velho presbitério por trás da BBC em Londres. As pessoas chegacam seis da manhã, o som estava maluco. Não teria como eu fazer isso hoje em dia com todas aquelas casas chiques que foram erguidas no mesmo lugar. Veja o Milk Bar. É ridículo pensar onde o pedaço da igreja estava e no que se tornou aquela área agora em Londres. Ainda assim, aquele lugar foi a casa do drum and' bass ano após ano. Então, de repente, os empreiteiros decidiram que precisavam do espaço e bum — uma parte inteira da história desaparece.

"Mas isso é parte da vida, diz McBean. "É importante se manter positivo. Saber se você está dentro ou fora do movimento. Se você está dentro, cala a boca e segue em frente. Os meios termos são apenas perda de tempo. Se você não gosta de algo, simplesmente não fale sobre aquilo. Se eu não gosto de você eu não vou falar sobre você. Não vamos remoer sobre o clube fechando ou sobre o fato de a cena estar sofrendo. Vamos olhar para as pessoas na sua área da cidade que estão tentando fazer algo interessante em um lugar simpático com capacidade de 200 pessoas, e dê o apoio que eles merecem."

A Night On the Town está disponível agora na Phoenix G.

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Tradução: Pedro Moreira