O segundo número da Antílope traz quadrinhos, textos críticos e entrevistas sobre HQ
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O segundo número da Antílope traz quadrinhos, textos críticos e entrevistas sobre HQ

A revista oferece um foco mais estudioso para quem está de saco cheio de lidar com uma certa infantilização das HQs na parte da crítica brasileira.
1.9.16

Influenciada pelo The Comics Journal da Fantagraphics e a notória Cahiers du Cinéma, a revista brasileira Antílope vem desde sua primeira edição — lançada em 2013 — tentando trazer uma abordagem mais séria e de 'bom gosto' sobre a linguagem dos quadrinhos.

Criada por Luis Aranguri e Victor Gáspari Canela — que também assinam a edição do Suplemento, impresso gratuito voltado para divulgar trabalhos independentes de HQs —, a Antílope oferece um foco mais estudioso para quem está um pouco de saco cheio de lidar com uma certa infantilização das HQs na parte da crítica brasileira.

"Raramente um grande autor de quadrinhos recebe o mesmo tratamento que um escritor, ou um dramaturgo, ou cineasta. (…) Quando isso ocorre, nestes grandes jornais e revistas, parece que os veículos têm sempre que justificar o fato de darem espaço a quadrinhos", justifica os criadores e editores.

A segunda edição impressa da revista foi realizada graças ao edital do ProAC, financiado pelo Governo do Estado de São Paulo, viabilizando a publicação de conteúdo cultural. Assim, a Antílope #2 chega às ruas com uma curadoria afiadíssima de artistas de vários lugares do globo que já são muito queridos ao leitor acostumado de HQs e também uma entrevista com Chester Brown, na qual o quadrinista canadense fala da sua experiência com prostituição para criar o Pagando por Sexo.

Passeando pelas páginas da Antílope #2 há nomes de peso como o norte-americano Dash Shaw dos EUA, conhecido pelo triste/fofo Umbigo sem Fundo, o cartunista norueguês Jason, trazendo seus personagens antropomórficos e o empolgante artista australiano Simon Hanselmann, adepto ao cross dressing e responsável pela série Megg, Mogg, And Owl publicada periodicamente na VICE gringa.

Para além desses trabalhos, o impresso cumpre muito bem a função de trazer uma amostra de trabalhos belíssimos de artistas que passam despercebido de parte do público leitor. Uma boa maneira de descobrir novas coisas para seguir nos quadrinhos contemporâneos, resumidamente.

"Nós evitamos trabalhos no qual o autor tenta adequar o estilo próprio ao molde que é colocado sobre os quadrinhos comerciais", explicam os editores. "Muita coisa legal foi feita mesmo dentro do sistema no qual a grande indústria dos quadrinhos funciona, mas nós queremos publicar autores que nos fazem ter uma visão nova sobre algo, não que nos mantenham consumindo um mesmo produto. Daria pra chamar colaboradores mais conhecidos pelo público, mas aí corre-se o risco de manter sempre os mesmos [nomes] em voga."

Com esse desejo dos editores em mostrar toda a complexidade da comunicação dos quadrinhos, a revista deve perdurar além das duas primeiras edições, especialmente agora que eles pretendem recorrer ao crowdfunding para criar os próximos números. De imediato, é possível ver a revista brilhando na Casa Plana e outras tantas feiras alternativas.

O único senão da publicação está nos textos dedicados a discussão mais profunda sobre a HQ, que acabam parecendo um tanto enfadonhos levando em consideração a qualidade dos artistas que foram selecionados. Também faltou um toque mais sujinho como nós vemos na Prego (na verdade, chamar a Prego de "sujinha" é sacanagem, é podrona mesmo) ou em outras zines já existentes por aí. Talvez a linguagem mais acadêmica da revista deixe um leitor de fanzine, à primeira vista, mais desconfiado. Mas ainda assim a Antílope é um tipo de publicação que vai agradar muita gente, especialmente os fãs da Fantagraphics.

E apesar dos textos mais sisudos, a revista não deixa de ser uma parada muito bacana pra quem é bastante fã de HQs e quer respirar um pouco novos ares e conhecer coisas legais. Além de ser visualmente muito bonita e bem diagramada, também pode se tornar um bom material de consulta sobre o assunto. Dá pra comprar a revista pela internet — rola entrega pra todo o Brasil.

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