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Os “Nacionalistas de Internet” do Japão Odeiam Coreanos

Enquanto eu procurava emprego na Craigslist Tokyo algumas semanas atrás, topei com um anúncio sobre um protesto antirracista no distrito de Ikebukuro. Após a marcha em volta de um quarteirão, não sei se me senti frustrado ou perplexo.
26 March 2014, 12:00pm

Enquanto eu procurava emprego na Craigslist Tokyo algumas semanas atrás, topei com um anúncio sobre um protesto antirracista no distrito de Ikebukuro. Grupos barulhentos de extrema-direita (ou uyoku) são uma visão cada vez mais comum no Japão – em geral, eles podem ser encontrados em frente a estações de trem em minivans pretas, gritando sobre a grandeza do Imperador. Mas mesmo entre as coisas usuais do classificado, como empregos de limpeza em Fukushima e pessoas querendo comprar dentes humanos, algo naquele evento me chamou a atenção.

O anúncio estava recrutando pessoas para um contraprotesto em resposta a uma manifestação de um grupo de direita chamado Zaitokukai, a nova estrela do J-racismo. O grupo foi fundado por um homem chamado Makoto Sakurai e costuma encontrar simpatizantes em fóruns da internet como o 2channel (a inspiração para o 4chan), que rendeu a eles o apelido de netto-uyo, ou “nacionalistas da internet”. O nome oficial deles, no entanto – uma abreviação do charmoso Zainichi Tokken o Yurusanai Shimin no Kai – pode ser traduzido como: “Clube da Existência Especial”.

O principal bicho-papão para o grupo é o fato de que os zainichi – coreanos moradores de longa data do Japão – recebem o que eles consideram privilégios especiais, como o direito de votar e reivindicar benefícios, mesmo sem assumir a cidadania japonesa. Eles também dizem que, como os zainichi podem se registrar tanto com seus nomes coreanos como com uma versão japanizada deles, esses estrangeiros podem ter duas identidades para receber benefícios.

Os críticos do grupo, no entanto, sugerem que eles apenas estão sendo muito seletivos em seus preconceitos, argumentando que os coreanos zainichi têm os mesmo direitos de outros residentes estrangeiros do Japão – e que os ultranacionalistas parecem achar isso OK.

Membros do Zaitokukai empunham bandeiras do Sol Nascente, associada ao imperialismo japonês. O cara de capacete está segurando um cartaz que diz: “Morram maus estrangeiros! Estupradores e Criminosos!”.

Ikebukoro é um centro de transporte urbano movimentado no noroeste de Tóquio conhecido pela Otome Road – um destino popular entre os fãs de anime – e o Sunshine City, um shopping center e hotel construído no lugar de uma notória prisão de guerra. Cheguei à prefeitura do distrito no começo da tarde para encontrar os contramanifestantes – reunidos por uma coalizão de grupos antifascistas – e algumas centenas de policiais da tropa de choque.

Depois de um discurso, o Zaitokukai começou a marchar, seguindo uma van branca que tocava retórica nacionalista japonesa, segurando faixas anti-Coreia e bandeiras imperiais do Japão. A marcha era composta por uns 100 membros do Zaitokukai e a polícia tinha formado um cordão humano ao longo da rua, tanto para prevenir qualquer enfrentamento como para dirigir a marcha pela direção que ela devia seguir. Enquanto isso, os antifas podiam correr livremente pelas calçadas e outras ruas.

Os dois lados passaram muito tempo mostrando o dedo do meio um para o outro, o que me pareceu meio estranho, já que o Zaitokukai já declarou várias vezes ser contrário a qualquer influência ocidental no Japão – chegando até a perseguir um pessoal fantasiado para o Dia das Bruxas uma vez, gritando “Este não é um país branco!”. Então, a decisão deles de adotar tão furiosamente o que se tornou uma das contribuições mais significativas da cultura norte-americana para o mundo me pareceu meio fora de lugar.

Só uns 20 antifascistas participaram do contraprotesto, e parece que todo mundo resolveu trazer seu megafone, gritando insultos inaudíveis para o outro lado. O grito de guerra principal, no entanto, era “Kaere!”, que é possível traduzir como “Vão para casa!” – uma coisa estranha para se ouvir de pessoas que deviam estar se opondo aos militantes xenófobos.

Apesar dos antifas estarem tentando projetar uma imagem militante, o protesto não descambou para a violência em nenhum momento.

O cordão da polícia se rompeu algumas vezes, deixando os dois lados a alguns metros de distância um do outro, em impasses desajeitados e cheios de xingamentos. Em todos esses momentos, poucas vezes vi punhos realmente tentarem socar alguma coisa, mas, todas as vezes, a polícia simplesmente separava os grupos, alertava-os para manter a calma e deixava todo mundo ir embora.

Considerando o tanto de coisas nas ruas que podiam ser usadas como barricadas – e os conteúdos das várias latas de recicláveis pelo caminho que podiam servir como armas – os antifas foram muito bem comportados. Na verdade, a manifestante mais agressiva do contraprotesto era essa senhorinha da foto acima, que passou a tarde inteira tentando atravessar o cordão da polícia para chegar mais perto da marcha Zaitokukai.

A van de Makoto Sakurai.

A própria marcha foi surpreendentemente curta: uma volta num único quarteirão.

No final do protesto, a polícia reuniu os contramanifestantes para permitir que o Zaitokukai dispersasse, mas se esqueceu da van onde estava o líder deles, Makoto Sakurai, e alguns outros chefes do grupo. Logo, o veículo foi cercado e a kidotai (tropa de choque) – apoiada por policiais à paisana – teve que lutar para segurar os manifestantes antifas.

Sakurai xingou todo mundo, me chamou de “porco rosa” em certo momento e depois acusou todo mundo de ser “espião comedor de kimchi”. Assim que a van conseguiu escapar da multidão, ele disparou mais uma provocação de recreio de colégio: “Vamos dar o fora da Coreialândia, vocês idiotas vão ficar presos aqui!”. Não sei se devia ficar frustrado ou só meio perplexo.

Depois dessa pequena confusão, quatro antifascistas e um membro do Zaitokukai foram presos.

Tóquio vai hospedar as Olimpíadas de 2020, então, um sentimento de orgulho nacional já está sendo instigado nos cidadãos japoneses – tudo isso enquanto a ideologia de direita se torna cada vez mais parte do discurso político dominante. O primeiro-ministro Shinzo Abe colocou um de seus comparsas como chefe da NHK (a rede de TV quase pública do Japão) e comentou sobre a necessidade de eliminar do canal “vieses de esquerda” em questões como história e disputas territoriais.

Entre os cidadãos, o nacionalismo começa a se transformar em racismo evidente. Por exemplo, ano passado, um residente nepalês foi morto a chutes em Osaka; semana passada, em Saitama (Tókio), torcedores do Urawa Red Diamonds fizeram uma faixa que dizia “Somente japoneses”; e, no começo de março, a polícia de Tóquio prendeu um cara suspeito de vandalizar 305 cópias do Diário de Anne Frank num ataque a uma biblioteca móvel.

Mas, claro, apesar de mais histórias como essas virarem notícia, as facções ultranacionalistas japonesas ainda são uma minoria. E julgando pelo que vi no protesto – e a oposição a ele, tanto na vida real como na mídia – não há muito com o que se preocupar.