Transcendendo a matéria com o Samsara Blues Experiment

Conversamos com o Christian Peters, fundador da banda de stoner rock alemã que faz shows em cinco cidades do Brasil nesta semana. A turnê estreia na quarta (8), em Porto Alegre (RS).
7.3.17

Depois de levar o seu stoner rock psicodélico pela primeira vez ao Chile, Uruguai e Argentina, o trio alemão Samsara Blues Experiment estreia também nos palcos brasileiros nesta semana. A etapa verde e amarela da turnê latino-americana começa na quarta (8), em Porto Alegre (RS), como parte da programação do Hocus Pocus Festival, e na sequência ruma para: Florianópolis (SC), dia 9, no Célula Showcase; Belo Horizonte (MG), dia 10, no Stonehenge Rock Bar; São Paulo (SP), dia 11, no Clash Club; para encerrar o giro em solo tropical na edição carioca do Hocus Pocus, dia 12 de março.

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As datas brasileiras na agenda marcam o início dos trabalhos da produtora Abraxas este ano. E o próximo evento já está no esquema: será uma apresentação única no país do supergrupo americano The Atomic Bitchwax, marcado para 5 de abril no Clash.

Fundada em 2007 pelo guitarrista e vocalista Christian Peters, que também toca cítara, sintetizadores e outros instrumentos capazes de conferir ambientação oriental ao som, a Samsara Blues Experiment busca criar uma espécie de transe parcialmente denso e sublime, revelando altos climas de doom metal, raga indiano, folk, thrash metal e, claro, blues. Finda a série de shows, a banda retornará ao estúdio para finalizar seu quarto álbum, One With the Universe, com previsão de lançamento em 2017.

Pouco antes deles embarcarem pra cá, desenrolamos um papo com o Chris sobre mistura de ritmos, uso de psicotrópicos como ferramenta criativa, espiritualidade e o que podemos esperar do novo álbum a caminho, entre outras coisas. Acompanhe:

Noisey: Como vocês chegaram nessa mistura de elementos que definem o som do Samsara Blues Experiment, combinando ritmos aparentemente discordantes como o folk e o thrash metal?
Christian Peters: É como sempre digo: por que devemos nos limitar? Ao meu ver, é simplesmente chato se prender a apenas um gênero musical. Nós basicamente combinamos tudo aquilo que nos agrada. É um processo bem natural.

Vocês têm contato com a cena brasileira ou latino-americana de stoner/psych-rock? Fale do seu conhecimento sobre o público e as bandas dos países por onde passa a turnê.
Na real não manjo muito. Por isso sou grato em ter conhecido o Felipe da Abraxas. Foi ele quem tornou tudo isso possível pra gente. E pessoalmente não tenho escutado muito rock. Mas isso não significa que eu não curta aquilo que faço, é só que transcendi a perspectiva do ouvinte, sabe? Necessito de novos impulsos. Me cansa escutar às mesmas coisas repetidamente. Preciso constantemente conhecer novos sons.

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Na sua visão, se faz necessário o uso de enteógenos para alcançar uma experiência psicodélica ou transcendental por meio da música? Você usa ou já usou drogas buscando estar mais aberto a processos criativos?
Olha, falando por mim, nunca fui muito de usar drogas nem as considero necessárias, de modo algum. Não posso legislar sobre as outras pessoas. Se alguém precisa recorrer a essas coisas, sem crise, mas o lance é que no final tudo já está na sua mente! Todas as visões que você terá por meio das substâncias já existem dentro de você. Os psicotrópicos podem servir como uma chave, acredito. Porém não são realmente necessários. Há quem medite e, assim, acaba atingindo elevados graus de consciência. Este assunto é meio complexo. Vamos dizer que as drogas facilitam o acesso a certos estados mentais. No entanto, é também um mito essa coisa de que músicos psicodélicos precisam delas. O mesmo vale para o sexo, a propósito. Muitos dos mitos a respeito dos músicos de rock estão defasados. Na minha opinião, quem pensa assim ainda segue estanque naquele estado mental de um adolescente de 16 anos que se recusa a amadurecer. Não vou dizer que tais experiências são sempre negativas ou coisa que o valha, contudo penso que se você realmente deseja se conectar com algo maior, o que é basicamente o sentido da vida para mim, você não vai chegar lá pelas vias mais simplórias.

Isso nos leva ao significado do nome de seu próximo álbum, One With the Universe: tem a ver com a nossa ínfima condição diante do cosmos?
Na verdade é sobre a insignificância de tudo e todos. Todos nós pertencemos a um propósito maior, o qual eu ainda não tenho uma clara noção do que se trata. Mas sei que a vida possui um significado maior. Bem, ao menos deveria ter. Isso, no entanto, não é algo para pensarmos muito a respeito, basta seguir o fluxo das leis naturais, trafegar pelas malhas do tempo. Todas as vozes que ecoam ao vento podem ou não ter uma resposta. Não faz muito sentido ficar tentando desvendar tudo, de qualquer forma.

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A escolha da palavra "samsara", que nas filosofias budista e hinduísta designa o ciclo de vida e renascimento ao qual o mundo material está submetido, indica que vocês são caras espirituais?
Em certos aspectos acho que dá pra dizer que sou uma pessoa espiritualizada. Não posso falar pelos outros caras da banda, mas de vez em quando tenho umas conversas sobre espiritualidade com o nosso baterista. Ele tem uma formação cristã, enquanto eu vim de uma família em sua maioria composta por ateus.

Falando agora do aspecto musical: as músicas novas trazem alguma inovação que valha comentar?
Meu camarada de selo, o Wolf, da World in Sound (distribuidora), disse uma parada outro dia: "Esse é um típico álbum do Samsara Blues Experiment, mas no melhor dos sentidos". O que significa que a obra soa muito próxima daquilo que eu sempre tive em mente, mas que até agora havia falhado em alcançar. O que posso dizer é que as pessoas em geral parecem ter perdido a conexão com as origens dessa Terra. Não vou exagerar nesse tópico, mas basta observar o que se passa com o planeta, com a mídia, que é "O" demônio da nossa era. Parece que existe alguém tentando enlouquecer as pessoas. Loucas por dinheiro, fama, sexo, por tudo aquilo que é desperdício de tempo. Sou um cara que se contenta em ler um livro ou caminhar pelas florestas.

O Samsara Blues Experiment completa uma década este ano. Quais foram as agruras e alegrias dessa jornada?
Sabe de uma coisa, no final muitas das "coisas ruins" acabam resultando numa virada positiva. Muitas águas rolaram nessas anos. Brigamos com os Nazis num trem, tivemos duas batidas policiais em nosso estúdio porque eles confundiram o endereço, discutimos muito, mas também demos muita risada, fizemos grandes shows, conhecemos muita gente legal, visitamos tantos países. É incrível e eu me sinto abençoado de ter conquistado tanto apenas por estar numa banda, mesmo quando digo que batalhei muito por isso e que nada vem fácil. Fazer parte de uma banda é frequentemente comparado ao casamento, e talvez seja isso mesmo, sob certo aspecto.

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SERVIÇO COMPLETO DOS CINCO SHOWS NO BRASIL

Porto Alegre (Hocus Pocus Fest)
8/3 às 18h @ Riff.e Bar
Abertura: Mar de Marte
Ingressos aqui.

Florianópolis
9/3 às 21h @ Célula Showcase
Abertura: Elevador
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Belo Horizonte
10/3 às 22h @ Stonehenge Rock Bar
Samsara Blues Experiment em Belo Horizonte
Abertura: Duna, Brisa & Chama e Pesta
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São Paulo
11/3 às 18h @ Clash Club
Samsara Blues Experiment em São Paulo
Abertura: Hamemerhead Blues e Saturndust
Ingressos aqui.

Rio de Janeiro (Hocus Pocus Fest)
12/3 às 17h @ Cais da Imperatriz
Abertura: Psilocibina e Aura
Ingressos aqui.