E se uma entrevista com Emil Amos (dos OM) durasse três anos?

A ler, antes que fique desactualizada.

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set 9 2013, 9:30am


Ilustração por RUDOLFO

Tal como o título indica, entrevistar Emil Amos está longe de ser um processo simples. Não que seja difícil chegar à fala com ele (não é), mas sim porque, entre o tempo de se fazer uma entrevista e publicá-la, surge sempre um novo álbum que envolve o norte-americano. O ritmo de Emil Amos é pouco menos que sobrenatural e um texto que procure retratar o seu momento actual arrisca-se a ficar desactualizado em poucas semanas. Depois de duas entrevistas para outra publicação e de algumas pequenas conversas, achei que nesta terceira devia exigir um pouco mais da paciência do gajo e aprofundar os tópicos até onde fosse necessário. Assim foi.

E é por isso também que as primeiras questões sobre Holy Sons (um templo de canções vigiado solitariamente) são missivas extensas que recebem respostas igualmente longas. Mas nem só de Holy Sons se fez este diálogo. Houve também tempo para abordar OM, Grails e Lilacs & Champagne: todos esses projectos continuamente activos que ocupam Emil Amos alternadamente e em diferentes funções.

Depois de vários e-mails trocados ao longo dos últimos anos, eis que a estadia de uma semana em Portugal (onde viria a actuar no festival Primavera Sound, com os OM) permitiu conversar com Emil Amos, num café do Chiado e com uma cerveja na mão de cada um (pagas por mim). O tipo que encontro no Largo de Camões está visivelmente encantado com Lisboa, que segundo o próprio, “tem um óptimo clima e nenhuma da tensão social dos países mais tropicais”. Ainda assim, o intervalo de que dispõe para falar comigo é curto, sobretudo pela urgência da entrega do próximo disco dos Grails.

Sobre esse ainda sabemos pouco, além de que estava a ser retocado num micro-estúdio montado para o efeito, na Galeria Zé dos Bois. Ao que parece, uma das faixas ainda não agradava por completo ao perfeccionismo de Emil Amos, que, na troca de palavras, surpreende sobretudo pela forma como reconhece alguns dos falhanços no seu trabalho. O baterista de OM é, de resto, um conversador entusiasmante, que só não encontra nada de extraordinário para dizer sobre o seu tempo em estúdio com a lenda Steve Albini, porque não viveu um daqueles momentos bombásticos que fazem notícia na Pitchfork. Emil Amos não inventa e, mesmo assim, garante algumas das mais interessantes respostas. O que se segue é o sumo de três anos de conversa acidentada.

VICE: Depois de muito escutar os teus últimos quatro discos, fico com a sensação de que os temas, atmosferas e personagens estão sempre a desaparecer e a voltar. É como se cada álbum assombrasse os seguintes. Até que ponto o esforço foi maior em manter uma narrativa e um conceito nestes últimos quatro discos de Holy Sons? Em termos de métodos, que paralelos estabeleces entre, por exemplo, o Decline of the West e o Survivalist Tales?
Emil Amos: Acho que qualquer um que releia o seu diário dos últimos vinte anos reconhecerá o padrão do seu destino vezes sem conta. Existem temas que nunca desaparecem. É até provável que encontres coisas que descrevem exactamente a tua velhice numa canção que escreveste quando tinhas 13 anos. O Decline of the West exigiu-me bastante concentração, porque nessa altura estava preocupado em transportar todos os métodos lo-fi para a era dos computadores. Muitas vezes, pela manhã, sentava-me em frente ao computador, com uma chávena de café, e só largava o trabalho depois da meia-noite. A minha vida entretanto ficou caótica à medida que tentei gravar os próximos três discos durante constantes digressões. Por isso esses discos soam um pouco desterrados e transparecem uma esquizofrenia directamente associada a uma baixa qualidade de vida. Estou a tentar chegar a um som mais coeso para o próximo disco. Satisfaz-me a hipótese de fazer algo mais directo, um pouco como The Plastic Ono Band, do Lennon, ou Pacific Ocean Blue, do Dennis Wilson – dois daqueles álbuns que te absorvem numa meditação sónica imediatamente.



Muitas das tuas canções parecem surgir de um spin off de um qualquer evento histórico ou fictício. Diria que por vezes tentas qualquer coisa como “bora meter este personagem de um filme do Peckinpah na mesma canoa que os gajos do Deliverance para ver o que acontece”. Recordas-te das bandas-desenhadas What If, da Marvel? A tua escrita lembra-me disso precisamente. Algumas das minhas faixas favoritas, como a “Things you do while waiting for the apocalypse” e “Golden Child”, parecem resultar de um exercício em que distorces a narrativa à tua maneira. Concordas?
What If era uma das minhas bandas-desenhadas preferidas quando era miúdo. Não que agora ache o conteúdo assim tão interessante, mas as imagens da capa e a ideia de que dois universos completamente separados podem colidir era totalmente inspiradora. Nem posso acreditar que foste buscar isso! Master of Kung Fu era a minha BD preferida. Coleccionei cada edição, uma por uma, na loja da minha localidade quando tinha sete anos. Foi essencial, apesar de tudo, para aprender mais sobre o pensamento oriental. Mas achava mesmo que tinha tudo a ver com o seu monólogo interior. Toda a colecção era uma meditação sobre o seu destino.

Vivo completamente intrigado com a pequena caixa de ritmos que usas constantemente. É sempre a mesma? Quando já estás habituado a determinado instrumento não te preocupas em encontrar outro modelo?
Essa caixa de ritmos significou, talvez, o expoente máximo da minha preguiça nas gravações caseiras que fiz na última década. Comecei, finalmente, a usar um MPC AKAI, no ano passado, o que acabou por revolucionar tudo. Aquele som merdoso da caixa de ritmos assemelha-se ao som das gravações caseiras dos anos 90, quando toda a gente usava instrumentos de baixa qualidade, como quem diz “nada importa a não ser a canção e a energia”. Isso fez imenso sentido para mim. No entanto, esse som de baixa qualidade foi odiado por quase uma década inteira (95 – 05 aproximadamente), quando se dizia que a onda dos songwriters de quarto estava fora de moda. Mais tarde, com o aparecimento do Ariel Pink e de toda a nova onda que trouxe, a atitude popular mudou outra vez e o que é feito em casa voltou a ser fixe. O que está atrás ou à frente da curva é sempre semelhante, mesmo que de uma forma estranha.


Fotografia por Eliza Sohn

Vejo que tens feito algumas coisas relacionadas com os Sebadoh, como, por exemplo, o tributo a Sentridoh e tudo isso. Tens tocado bateria com o Jason Lowenstein? Podes-me dizer mais coisas sobre os projectos que tens com os Sebadoh?
Não há propriamente um fim para os tributos que lhes possa vir a prestar. Eu queria fazer um vídeo para o velho projecto do Jason – Sparkalepsy, mas fiquei sem tempo e sem local para as filmagens. Recomendo inteiramente que tentem encontrar o sete polegadas Heather's Overbite. O Lou é o maior. Há alguns anos atrás, estivemos juntos numa pequena digressão de Dinosaur Jr. e OM. A empresa de aluguer de carros a que recorremos transportou pela segunda vez os OM e acabámos por andar em digressão num Black Escalade. Guardo óptimas memórias das viagens através da floresta de Nova Iorque, com Morricone a tocar no rádio e a caminho de concertos com Cluster, Polvo e Dinosaur Jr. Os Sebadoh sempre representaram a pura e total liberdade musical para mim. Eles eram o derradeiro escape para uma forma livre de se escrever canções.

Uma grande parte dos fãs dos Sebadoh que conheço está um pouco afastada das músicas mais lamechas do Lou Barlow. Principalmente das do Harmacy faixas como “Willing to wait” e “Perfect Way”. O que achas dessas canções como um fã assumido dos Sebadoh? Eu teria cuidado antes de afirmar que as tuas novas músicas são também mais lamechas, mas, em Survivalist Tales, pareces mais confiante em explorar o lado mais “doce” da tua voz. Era uma questão de confiança ou eram as canções que estavam a enveredar por esse caminho?
Percebo o que queres dizer. A “Reckless Liberation” foi escrita em 96 e é uma das pouquíssimas canções de amor que escrevi. É portanto única e vale a pena voltar a ela por essa razão. Tenho vasculhado mais e mais canções antigas, porque tenho alimentado a noção de que desperdicei anos da minha vida. Pareceu-me o mais acertado a fazer, voltar a atrás e reclamar esses tempos. Em vez de se tratar de um lado mais doce em específico, penso que essas fases representam um desafio maior enquanto artista. É uma tentativa de se ser o mais amplo possível e tentar flexibilizar as nossas capacidades. Uma canção extremamente directa é difícil de escrever conscientemente. As canções mais doces de que falaste provêm particularmente da herança sulista que estava enterrada em mim, que cresci no sul. 

A produção dessas canções foi inspirada pelo “Countrypolitan sound”, que o Charlie Rich e o seu produtor de longa data, o Billy Sherrill, ajudaram a crescer nos anos setenta. O Rich é um perito em dar à canção o tempo de que precisa. Estava também a ouvir muito os Wings e respeito todas as lendas mais “brandas” da produção musical dos setenta. É daí que provêm canções como “Ragdoll”, do Art Garfunkel. No fundo, é só uma questão de te desafiares a ti próprio. Lembro que tivemos, também, de nos aproximar de uma sonoridade mais clássica na sala do meu amigo Jeff Saltzman, o que não foi fácil.

Acho que a montagem dos álbuns Lilacs & Champagne requer uma séria concentração no digging. És daqueles coleccionadores de discos que sente o corpo a tremer quando coloca as mãos num álbum muito cobiçado ou em algo que parece incrível à primeira vista?
É como uma onda de vergonha e intimidação, na verdade. Se alguma coisa te arrebata logo no primeiro momento, podes sentir algum embaraço por não teres ouvido falar disso antes. Depois descobres que já é conhecidíssimo. Mas quando encontramos o material certo para os Lilacs & Champagne, sabemos instantaneamente que é algo que ninguém mais quereria usar. Principalmente porque te faz rir bem alto, em reconhecimento de uma peça de música que é fantástica mas triste ao mesmo tempo. Uma letra destinada a ser incompreendida no seu tempo, mas que carrega diferentes camadas de significado e profundidade.


Fotografia por Narco Agent

Ao trabalhar no Danish & Blue, quais te pareceram os aspectos mais peculiares da pornografia escandinava?
Ao olhar para trás, acabámos por descobrir que não tocámos muitas músicas desses filmes, mas captámos a sua personalidade. Estávamos inspirados pela habilidade que tinham em tirar pedaços carismáticos de arte do nada, com poucos meios e apenas com o seu bom humor. Acho que não podemos deixar uma música sair porta fora enquanto o seu humor negro não estiver bem demarcado.

Considerando que o álbum Advaitic Songs apresenta várias influências provenientes do Médio Oriente, recebeste algum feedback inesperado ou propostas daquele território?
Estivemos quase para tocar em Marrocos, mas cancelámos o concerto por razões técnicas. Fomos a Jerusalém e a outros sítios exóticos também.

Um músico que me faz recordar algumas das coisas de Holy Sons e OM é o Osamu Kitajima. Acho que os seus álbuns são bastante progressistas para a época. Penso que o conheces, certo? Importas-te de dizer algumas coisas sobre ele?
O painel interior do Burning off Impurities, dos Grails, foi praticamente roubado às primeiras capas de Osamu Kitajim. Aprecio o esforço que fez para liderar um certo género imaginário, à frente do seu tempo. No entanto não tenho muita música dele. Gosto da "Yesterday and Karma". Ainda não ouvi o LP que gravou como Justin Heathcliff. É bastante difícil de encontrar.

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